LXXII

908 Words
Os guardas ainda seguravam o conselheiro quando Ewan fez um gesto curto com a mão. — Levantem o traidor. Callum manteve o velho contido, firme pelo braço, mas sem violência desnecessária. O salão permanecia em silêncio absoluto. Ninguém ousava respirar alto demais. Ewan caminhou até a cabeceira da mesa de pedra. — Tragam a rainha. O pedido ecoou como uma sentença adicional. Os olhares se cruzaram. Alguns membros do conselho esperavam clemência. Outros, curiosidade. Minutos depois, as portas se abriram novamente. Rowena entrou. Também vestida inteiramente de branco. Vestido longo, estruturado, sem adornos excessivos. Capa clara presa aos ombros. Cabelos presos com simplicidade austera. Nenhuma joia chamativa. Não havia suavidade naquela imagem. Havia soberania. Ela caminhou até o centro do salão com a mesma firmeza de Ewan. Não perguntou o que acontecia. Não demonstrou surpresa ao ver o conselheiro contido. Seus olhos encontraram os de Ewan. Ele inclinou levemente a cabeça. Ela compreendeu. Ewan voltou-se ao velho. — O senhor desejava enfraquecer a rainha deste reino — disse, sereno. — Reduzi-la a rumor. A escândalo. A peça removível. O conselheiro respirava com dificuldade agora. Não por força física. Mas pelo peso do momento. — Pois bem — continuou Ewan. — Seu destino não será decidido por mim. Um leve murmúrio percorreu a mesa. Ewan deu um passo ao lado, deixando Rowena plenamente visível diante de todos. — Se deseja viver… implore misericórdia àquela que tentou destruir. O impacto foi imediato. O conselheiro olhou para Rowena. Ela não desviou o olhar. Não havia raiva em seu rosto. Havia algo mais frio. O velho hesitou. Seu orgulho lutou. Mas o medo venceu. Ele caiu de joelhos. O som ecoou pelo salão de pedra. — Majestade… — a voz dele falhou. — Fui… imprudente. Exagerei por zelo. Peço perdão. Pela estabilidade do reino… pela sua grandeza… suplico misericórdia. O silêncio ficou pesado. Todos observavam Rowena. Ela não respondeu de imediato. Apenas caminhou alguns passos até parar diante dele. O tecido branco arrastou-se suavemente pelo chão. Ela o observou como quem avalia algo já decidido. Quando falou, sua voz não tremia. — O senhor tentou usar minha honra como ferramenta política. O conselheiro baixou a cabeça. — Tentou me transformar em fraqueza para atingir o rei. Ela inclinou levemente o rosto. — E falhou. O velho respirava rápido. — Majestade, eu— — O senhor não teme por mim — ela o interrompeu. — Teme pela própria vida. Silêncio absoluto. Rowena lançou um breve olhar a Ewan. Ele não interferiu. A decisão era dela. E ela sabia. Sabia que meses atrás teria hesitado. Sabia que antes teria ponderado reconciliação. Mas viver ao lado de Ewan significava entender o peso da coroa. E o custo da fraqueza. Ela voltou os olhos ao conselheiro. — Traição contra a coroa é punida com exílio ou morte. O velho tremeu. — Eu escolho a estabilidade do reino — continuou Rowena. — E estabilidade exige exemplo. Ela ergueu o queixo. — Não concedo perdão. O salão pareceu prender o ar. O conselheiro tentou falar novamente, mas Callum o segurou com mais firmeza. Rowena deu um passo para trás. — Que seja aplicado o julgamento máximo previsto pela lei do conselho. Era sentença de morte. Não dita com crueldade. Mas com convicção. Ewan observava. Não havia surpresa em seu rosto. Apenas algo silencioso orgulho contido. Ele se aproximou dela. Sem tocar. Mas próximo o suficiente para que todos vissem que estavam alinhados. — Assim será — declarou o rei. Os guardas ergueram o conselheiro. Desta vez, ele não lutou. Antes dele sair Rowena falou, com a voz suave. — Esperem.— ordenou aos guardas. Todos se entreolharam pensando que ela tinha voltado atrás, mas não era isso. Rowena olhou para Ewan. — Meu rei— começou com a voz suave — Gostaria de um pedido pessoal. Ewan não hesitou. — Fale. — Pelo meu bem estar pessoal e para exemplo para estes que aqui me julgam — ela passou os olhos rapidamente pelos outros conselheiros que abaixaram os olhos imediatamente.— Gostaria de pedir que a punição seja feita pelas mãos do rei. O salão inteiro prendeu o ar. Ewan se manteve impassível, sem responder de imediato. Olhou para o conselheiro que respirava com dificuldade pelo medo, para os demais conselheiros que estavam de olhos baixos. E por fim para Rowena, que estava serena esperando que ele decidisse. — Como desejar, minha rainha. Ewan andou em passos lentos até o conselheiro que estava de joelhos e cabeça baixa. Os guardas o seguravam pelos ombros. Ewan puxou a espada da cintura de Callum sem hesitar, sua expressão era gelo puro. Fez um gesto com a mão para que Callum erguesse a cabeça do traidor, ele assim o fez. Ewan passou a lâmina em sua garganta, o sangue respingou em seu manto branco. Os guardas saíram arrastando o corpo que deixava para trás um caminho de sangue fresco. Rowena permaneceu imóvel por alguns segundos. Depois virou-se para o conselho. — Que isso seja lembrado — disse ela, firme — não é a voz de uma mulher que ameaça este reino. É a ambição covarde escondida atrás de tradições. Ninguém ousou contestar. Quando as portas se fecharam atrás do traidor, o rei finalmente falou aos demais. — Se alguém mais desejar testar os limites da minha paciência… Ele deixou a frase inacabada. Não era necessário concluir. Todos haviam entendido. E, naquela manhã, o branco que vestia não representava paz. Representava julgamento.
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