A noite caiu cedo.
O inverno anunciava-se não apenas no ar cortante que atravessava as janelas de pedra, mas no silêncio pesado do castelo, quebrado apenas pelo estalar distante da lenha queimando nas lareiras.
Rowena deitou-se com cuidado, envolta em cobertores grossos demais para permitir movimento livre, e ainda assim… o frio encontrava seu caminho.
O primeiro inverno longe de tudo o que conhecia.
Virou-se de lado, tentando manter a respiração calma.
Ewan estava de costas para ela, imóvel demais para alguém que dormia profundamente.
Mas ele sentiu.
O leve estremecer.
O ritmo da respiração que se alterou.
O quase imperceptível bater dos dentes contido por orgulho.
O lobo não ignorava sinais.
— Rowena… — chamou, baixo, quase um sussurro.
Ela congelou por um instante.
— Sim?
Ele virou-se apenas o suficiente para vê-la.
— Podes te deitar mais perto. — disse, simples. — Para te aquecer.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Tens certeza? — perguntou ela, em voz baixa. — Não quero…
— Não é um favor. — interrompeu ele, sem dureza.
Rowena hesitou.
Depois, lentamente, aproximou-se, cuidando para não tocar mais do que o necessário.
Mesmo assim, o calor dele era imediato.
— Melhor? — perguntou Ewan.
— Um pouco… — respondeu ela. — Obrigada.
Ele puxou o cobertor com cuidado, cobrindo melhor ambos, mantendo uma distância respeitosa, embora agora compartilhassem o mesmo espaço.
Rowena ainda tremia levemente.
Sem dizer nada, Ewan ajustou-se um pouco mais próximo não a prendendo, não a tomando apenas oferecendo presença.
O tremor cessou.
Ela suspirou.
— Nunca gostei do frio — murmurou. — Ele me lembra que não posso controlar tudo.
— O frio ensina resistência. — disse ele. — Mas não precisa ser enfrentado sozinho.
Rowena fechou os olhos.
— Nunca ninguém disse isso para mim.
O silêncio voltou, mais denso, mas confortável.
Após alguns minutos, a respiração dela se tornou profunda, regular.
Ewan permaneceu acordado.
Atento.
Protegendo.
O vento soprou mais forte contra as paredes do castelo, fazendo as chamas da lareira lutarem para se manter vivas. O frio encontrou novas frestas, mais ousado, mais insistente.
Rowena, ainda adormecida, moveu-se instintivamente.
Primeiro um leve deslocar dos pés.
Depois os ombros.
Então, quase sem perceber, buscou calor.
E encontrou.
Ela se aproximou mais de Ewan, o corpo guiado apenas pelo instinto mais antigo: sobreviver ao frio. Seus dedos tocaram o tecido da camisa dele, agarrando-se de leve, como se temesse perdê-lo. Em seguida, o rosto se aninhou contra o pescoço de Ewan, escondendo-se ali, buscando abrigo.
A respiração dela tocou sua pele.
Quente.
Regular.
Confiada.
Ewan despertou no mesmo instante.
O lobo acordava antes do perigo e também antes da proximidade.
Ficou imóvel.
Cada músculo atento.
Cada pensamento contido.
O peso leve do corpo dela contra o seu.
O calor compartilhado agora inevitável.
O coração de Rowena batendo calmo, tão próximo que ele podia sentir.
Ela suspirou baixo, como quem finalmente encontra refúgio.
Ewan engoliu em seco.
Não a afastou.
Não a corrigiu.
Apenas respirou fundo, controlando o impulso de tensão que sempre o acompanhava quando alguém se aproximava demais. Lentamente, com cuidado extremo, ajustou o braço para não deixá-la cair caso se movesse mais.
Sem perceber, Rowena relaxou ainda mais.
O rosto permaneceu escondido no pescoço dele, os cabelos espalhados sobre seu peito, o corpo agora completamente aquecido pelo dele.
Ela murmurou algo inaudível, ainda presa ao sono.
Ewan fechou os olhos por um instante.
Não por fraqueza
mas porque aquela proximidade despertava algo que ele não treinara para controlar.
Não era desejo bruto.
Não era posse.
Era algo mais perigoso.
Cuidado.
Proteção silenciosa.
A necessidade de permanecer.
Ele abriu os olhos novamente, fitando o teto escuro.
— Dorme… — murmurou tão baixo que talvez nem ele próprio tenha ouvido.
Rowena não respondeu.
Dormia profundamente.
Segura.
E naquela madrugada gelada, enquanto o inverno tentava invadir tudo, Ewan permaneceu imóvel, oferecendo o único abrigo que conhecia:
sua presença.
O lobo, aceitou ser calor.
A manhã chegou envolta em um silêncio denso, quase respeitoso.
A luz pálida do inverno atravessava as cortinas pesadas, espalhando tons azulados pelo quarto real. A lareira ainda guardava brasas fracas da noite anterior, e o ar permanecia frio embora ali, entre os lençóis, o calor tivesse resistido.
Rowena foi a primeira a despertar.
Seu corpo ainda estava aninhado contra algo sólido, quente… seguro. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, sem compreender. Então a memória voltou de uma vez.
Ewan.
O pescoço dele sob seu rosto.
O braço firme ao redor de sua cintura, não apertando, apenas sustentando.
A respiração profunda e controlada.
O coração de Rowena acelerou.
Com extremo cuidado, levantou levemente o rosto, encontrando o perfil dele tão próximo que pôde contar os cílios claros. Ewan parecia dormir sereno demais para alguém conhecido como o Lobo.
Ela engoliu em seco.
Devagar, tentou se afastar.
Foi quando percebeu: o braço dele se moveu um pouco, quase imperceptível, como se tivesse ajustado a posição para que ela não se afastasse rápido demais… nem se assustasse.
Ele estava acordado.
Ou sempre estivera.
Rowena congelou por um instante, o rosto ainda a poucos centímetros do dele.
— Desculpe… — murmurou, num sussurro quase inexistente, recuando com mais cuidado ainda.
Só então Ewan abriu os olhos.
Claros.
Atentos.
Calmos.
— Estava frio — disse simplesmente, a voz rouca pelo sono que não tivera. Não havia acusação. Nem ironia. Apenas constatação.
Rowena sentou-se na cama, puxando o cobertor até os ombros, as bochechas levemente corada não de frio desta vez.
— Eu não… eu não fiz por intenção — explicou, rápida demais, como se precisasse justificar algo que ele não havia condenado. — Estava dormindo.
Ewan sentou-se também, apoiando os cotovelos nos joelhos por um momento.
— Eu sei.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor.
Foi… novo.
Diferente.
Ele se levantou primeiro, caminhando até a janela e abrindo levemente as cortinas.
— O inverno vai ser longo — disse, olhando o pátio coberto por uma fina camada de gelo. — Você ainda não está acostumada com isso.
Rowena o observou por trás.
— Não — respondeu, mais baixa. — Mas… — hesitou, depois completou — …ontem ajudou.
Ewan virou o rosto o suficiente para olhá-la de lado.
— Sempre ajudará — disse, sem teatralidade. Sem promessas grandiosas. Apenas uma verdade dita como estratégia.
Rowena sorriu de leve.
— Obrigada, Ewan.
Ele assentiu uma única vez