XLIX

875 Words
Rowena Ela caminhava com a cabeça erguida, postura impecável, passos medidos exatamente como uma rainha deveria. Por dentro, porém, o mundo ainda girava. Eu me joguei nos braços dele. Não fora fraqueza. Sabia disso. Fora instinto puro. O mesmo instinto que a fizera sobreviver a anos de contenção, de silêncios impostos, de medo disfarçado de obediência. Ainda assim… fora ele. O calor. A firmeza. A certeza imediata de que ali nada a atingiria. Rowena sentiu um leve aperto no peito. Confiança assim não nasce do nada. Ela pensou no modo como Ewan reagira sem surpresa, sem afastá-la, sem rigidez. Como se aquele gesto fosse… aceitável. Natural. E isso a perturbava mais do que o susto. Se eu confio nele quando penso, tudo bem. Mas confiar sem pensar… Ela respirou fundo. Não queria confundir admiração com algo maior. Precisava ser cuidadosa. O reino vinha antes. Sempre. Ainda assim, quando se sentou ao lado dele no trono, percebeu algo incômodo: Sentia-se segura. Ewan O lobo nunca ignorava o instinto. Ewan permaneceu atento aos camponeses, às palavras ditas, aos pedidos feitos mas parte dele ainda estava naquele instante no corredor. Rowena correndo para ele. Sem cálculo. Sem estratégia. Escolhendo-o. O corpo dele reagira antes da mente. Protegê-la fora automático, antigo como a guerra. Mas o que o desconcertara fora não isso. Fora não afastá-la depois. Eu poderia ter feito. Eu sempre faço. Mas não quis. Porque naquele breve segundo, com os braços dela ao redor dele, o mundo fizera sentido de um jeito perigoso. Não havia ameaça. Não havia expectativa. Apenas alguém que confiava nele sem armadura alguma. Isso é um risco, pensou. Ewan sabia que riscos custavam caro. Mas também sabia reconhecer quando algo valia o preço. Ele lançou um olhar breve para Rowena, sentada ao seu lado, firme, concentrada, rainha em pleno controle. Ela não me teme. E talvez apenas talvez o lobo estivesse começando a perceber que não queria ser temido por ela. Quando o último camponês se retirou e a sala voltou ao silêncio, Ewan sentiu algo raro: Não a necessidade de se fechar. Mas a estranha vontade de permanecer aberto por mais um pouco. O salão do trono esvaziou-se aos poucos, as portas se fecharam com um eco profundo, e o castelo voltou ao seu ritmo habitual. Rowena levantou-se primeiro. — Ewan — chamou, em tom baixo, quando já se afastavam do trono. Ele virou-se imediatamente. — Sim? Ela hesitou apenas um instante. — Caminha comigo no jardim? Não era uma ordem. Não era uma estratégia. Era um convite. Ewan a observou por um segundo, avaliando não riscos, mas intenções. — Claro. O jardim interno do castelo era um refúgio antigo, protegido por muralhas altas. Havia árvores retorcidas pelo vento do norte, canteiros simples de ervas e um pequeno caminho de pedra que serpenteava entre eles. Caminharam lado a lado, sem pressa. — Queria agradecer — disse Rowena, quebrando o silêncio. — Pelo que aconteceu no corredor. — Não há o que agradecer. — Há, sim. — ela insistiu. — Tu poderias ter me afastado. Poderias ter feito parecer… constrangedor. Ewan manteve o olhar à frente. — Não foi constrangedor. Ela parou de andar. Ele também. Rowena virou-se para ele. — Não foi? — Não. — respondeu ele, firme. — Foi instinto. E eu confio no teu. Ela respirou fundo. — Eu confiei no teu também. O vento moveu as folhas acima deles. — E isso… — ela continuou — não é algo que eu faça com facilidade. — Eu sei. Rowena arqueou a sobrancelha. — Como? — Porque vejo o quanto pensas antes de agir. — disse Ewan. — Hoje, tu não pensaste. Ela sorriu, quase sem querer. — Isso te incomodou? — Não. — respondeu ele, após um breve silêncio. — Me alertou. — Para o quê? — Para o fato de que não somos apenas rei e rainha quando ninguém está olhando. O coração de Rowena acelerou levemente. — E o que somos, então? Ewan a encarou. — Aliados. — disse primeiro. — Amigos. Ela assentiu, concordando. — E talvez… — ele acrescentou, mais baixo — algo que ainda não nomeamos. Rowena sentiu o ar rarefazer. — Talvez seja melhor não nomear ainda — disse ela, com cautela. — Algumas coisas crescem melhor no silêncio. Ewan inclinou levemente a cabeça. — Concordo. Voltaram a caminhar. — Sabes — disse Rowena, depois de alguns passos —, nunca pensei que me sentiria segura assim caminhando com alguém. Ele a olhou. — Nem eu pensei que permitiria isso. Ela riu baixo. — Estamos nos tornando perigosos um para o outro? — Talvez. — respondeu ele. — Mas não como inimigos. Pararam diante de uma árvore antiga, tronco grosso, raízes expostas. — O jardim sempre me acalmou — disse Rowena. — Lembra que há coisas que crescem devagar, mas duram. Ewan tocou o tronco áspero da árvore. — Árvores assim sobrevivem a tempestades. — Porque têm raízes profundas. Ele a encarou novamente. — Estamos criando raízes? Rowena sustentou o olhar. — Estamos tentando. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi cheio. E, enquanto o sol filtrava-se pelas folhas, o lobo e a rainha caminharam entre caminhos verdes, sabendo que algo sólido começava a se formar não à força, mas por escolha
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