XXXVIII

876 Words
O amanhecer chegou sem cerimônia. O céu estava cinzento, pesado, como se o próprio reino soubesse que algo decisivo aconteceria antes do sol se firmar. O pátio menor aquele usado apenas pelo rei em treinamentos solitários estava vazio. Sem soldados. Sem conselheiros. Sem testemunhas. Apenas Ewan… e Rowena. Ela chegou primeiro. Vestia couro escuro, simples, a espada firme na mão. As dores da noite anterior ainda estavam lá, pulsando, mas ela não demonstrou. Respirava fundo, focada. Ewan surgiu logo depois. Não vestia insígnias reais. Não trazia símbolos de poder. Era apenas o guerreiro. O Lobo. Ele fechou o portão com as próprias mãos. O som ecoou como um selo. — Ainda podes recuar. — disse ele. Rowena ergueu a lâmina. — Não foi isso que me ensinou. Ewan assentiu uma única vez. Sem aviso, atacou. O primeiro golpe veio rápido demais para qualquer treino comum. Pesado, direto, sem floreios. Rowena bloqueou. O impacto percorreu-lhe os braços como fogo. Ela recuou dois passos… e voltou. O aço cantou. Eles se moveram pelo pátio como sombras em colisão. Golpes precisos, defesas calculadas. Ewan não a testava, ele lutava, de verdade. E ainda assim, Rowena acompanhava. Antecipou um ataque lateral. Desviou de um golpe que quebraria costelas. Respondeu com um movimento aprendido, mas executado com instinto próprio. Ewan estreitou os olhos. Ela estava melhor do que ele esperava. — Não hesites. — rosnou. — Não estou. — respondeu, atacando. Ela conseguiu algo raro. Forçou-o a recuar. Apenas um passo. Mas foi real. Ewan girou o corpo, mudou o ritmo. O Lobo emergiu por completo. Ataques imprevisíveis. Mudanças bruscas de direção. Força misturada à frieza. Rowena foi atingida no flanco, caiu de joelhos… mas rolou antes que o golpe final viesse. Levantou-se com o lábio sangrando. — Continua. — disse, ofegante. O combate se intensificou. O cansaço começou a pesar nos ombros dela. As pernas ardiam. A respiração ficou irregular. Ewan percebeu. E atacou. Uma sequência rápida demais. Rowena bloqueou dois golpes. O terceiro passou. A lâmina dele parou a um fio de sua garganta. O pátio ficou em silêncio absoluto. Rowena respirava com dificuldade. Mas não havia derrota em seus olhos. Apenas aceitação. Ewan afastou a espada lentamente. O Lobo recuou. — Venci. — disse ele, baixo. Rowena assentiu. — Sim. Ela apoiou a espada no chão, mantendo-se de pé. — Mas não caí. — completou. Ewan a encarou longamente. Então fez algo que ninguém jamais vira. Ele inclinou a cabeça. Profundamente. Não como rei. Como guerreiro. — Enfrentaste o Lobo… — disse. — E permaneceste de pé. Rowena fechou os olhos por um instante, sentindo o peso da vitória silenciosa que aquilo representava. Quando os abriu, encontrou algo diferente no olhar dele. Não gelo. Respeito absoluto. — Obrigada. — disse ela. — Não me agradeças. — respondeu ele. — Fizeste por merecer. O sol finalmente rompeu as nuvens. E naquele pátio vazio, ficou claro: O Lobo vencera a luta. Mas Rowena conquistara algo ainda mais raro. Ela não precisava derrotá-lo para ser sua igual. Ela precisava apenas provar que podia enfrentá-lo sem quebrar. E isso… ela fizera. Ewan permaneceu imóvel após afastar a lâmina. O silêncio do pátio parecia mais alto do que o choque do aço minutos antes. Por fora, nada mudara. A postura ainda era firme. O rosto, impassível. O Lobo… contido. Mas por dentro, algo se deslocara. Ewan sentiu primeiro como incômodo. Uma tensão estranha no peito, como se uma verdade tivesse sido empurrada à força para dentro de si. Ele vencera. Sempre vencia. A vitória era seu território natural, previsível, segura, quase vazia. Mas aquela vitória… não era vazia. Ele lembrava do momento exato. O instante em que poderia ter finalizado. A garganta exposta. O golpe limpo. O fim. E mesmo ali, no ponto mais vulnerável, Rowena não desviara o olhar do dele. Não implorara. Não tremia. Não baixara a lâmina. Ela aceitara o resultado sem se render. Isso o atingira mais fundo do que qualquer espada. Ewan percebeu algo que jamais permitira a si mesmo formular: Ele confiava nela… não como rainha. não como esposa. Mas como alguém que poderia estar ao seu lado no pior dos dias. O Lobo sempre lutara sozinho. Sempre acreditara que isso o mantinha forte. Mas agora… Agora ele sabia que havia alguém capaz de entrar em seu território mais sombrio e sair de pé. Isso o assustou. Não por medo dela. Mas porque, pela primeira vez, o Lobo compreendia o peso de ter algo a perder. Ewan desviou o olhar para o céu. Pensou em batalhas, em sangue, em decisões que ceifaram vidas sem hesitação. Pensou no frio que sempre o guiara. E percebeu que Rowena não o aquecera. Ela o ancorara. Uma âncora não impede a tempestade. Mas impede o naufrágio. Quando voltou a olhar para ela, o gelo ainda estava lá. Mas por baixo… Havia algo novo. Uma vigilância diferente. Não apenas sobre o reino. Mas sobre si mesmo. O Lobo continuava sendo o Lobo. Mas agora sabia: Se algum dia perdesse o controle, se a guerra finalmente o engolisse… Havia alguém que poderia enfrentá-lo. E, se preciso, detê-lo. E isso não o enfraquecia. O tornava mais perigoso ainda. Porque um Lobo consciente de seus limites é mais letal do que um que luta sozinho
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