A coletiva

1664 Words
Quando chego à recepção, Janete já está a minha espera. Oferece-me um sorriso simpático e eu retribuo. O gerente do hotel vem em minha direção, muito bem-vestido em seu terno cinza escuro. Ele é muito eficiente no seu trabalho, além de cuidar para que ninguém me perturbe. — Senhorita Bittencourt, bom dia. — Bom dia Estevão. — Já providenciei um carro para levá-la. — Foi muita gentileza de sua parte, estava pensando em ir de táxi. — Estella me ligou logo cedo e pediu para que eu cuidasse do seu transporte. Estella pensa em todos os detalhes. — Ok., tudo bem. Obrigada por fazer isso. Podemos ir Janete? — Sim. — Vou acompanhá-las até o carro. Procurei meus óculos Ray Ban Aviator Inspired dentro da minha bolsa Louis Vuittan, coloquei para proteger do sol e seguimos para frente do hotel. Como sempre, assim que os paparazzi me viram, começaram o show de cliques. Eu já estava acostumada. Sorri e acenei para todos enquanto entrava no carro. Janete deu a volta pelo outro lado e entrou. — Eles adoram fotografar você. — Disse Janete iniciando uma conversa. — Sou a ganha pão deles. — Eu ri. — Por isso eles me adoram. Janete compartilhou do meu sorriso. — Está nervosa por hoje à noite? — Estou mais ansiosa do que nervosa. Acho que finalmente vou ter um pouco de paz. — Falando assim, parece que não foi feliz na sua carreira... — Claro que fui feliz. Consegui tudo o que quis... É que de vez em quando é complicado viver nesse meio. — Eu entendo. Tipo, não poder sair com os amigos, curtir uma balada sem que sua imagem esteja estampada em todas as revistas no dia seguinte. — É tipo isso. Rimos juntas. Quando chegamos ao salão, uma equipe estava montada para me atender. Cabeleireiros, manicures e maquiadores. Talvez disso eu fosse sentir falta. Guardei os óculos na bolsa e entreguei a Janete. Ela era um amor de pessoa. Sentou em uma poltrona, pegou uma revista e começou a ler enquanto o pessoal cuidava de mim. — Cristal, você está tensa demais, que tal um massagista para ajudá-la? — Vitor, o meu cabeleireiro ofereceu. — Obrigada, não se preocupe, está tudo bem. Começamos pela limpeza de pele, depois os meus cabelos, unhas e finalizamos com a minha maquiagem. O tempo todo eles ficaram falando de futilidades e fofocas dos outros artistas. Não tinha como não rir com eles contando fatos engraçados que eles, os famosos, faziam no salão. Agradeci a atenção de todos e voltamos para o hotel. Convidei Janete para almoçar comigo e Estella, todavia ela falou que estava ocupada com algumas coisas para logo à noite. Não entrou em detalhes e eu também não fiquei curiosa em saber. Quando cheguei ao restaurante do hotel, Estella já me esperava pendurada no telefone. Um dia ela ainda perderia a orelha. Eu ri da minha piada. — Miguel, dá o seu jeito, mas quero a presença dele confirmada até o final da tarde. É importante para a Cristal. — O que é importante pra mim? — Perguntei sentando à mesa e colocando a bolsa na outra cadeira. — Miguel, te ligo mais tarde. — Falou desligando o telefone e colocando em cima da mesa. — Estava acertando um pequeno detalhe. — Você não respondeu minha pergunta. — Estava falando da coletiva. Estava pedindo para ele ter cuidado na seleção dos repórteres. — Ah tá. — Está linda. Como foi no salão? — Divertido. Todos quase me mataram de rir. Ainda me surpreendo com as esquisitices dos famosos. — Se você não se acostumou, imagine eu. Você viu o que saiu sobre Cauã Raymond? — Lendo revistas de fofocas? — Estava procurando alguma notícia sua. — E encontrou? — Nenhuma, no entanto descobri que o Cauã talvez faça fotos para uma revista masculina. — Você sabe que é fofoca, não é? — Sei, entretanto não custa nada sonhar que é verdade. Rimos alto enquanto Estella fazia sinal para o garçom. — Boa tarde, querem fazer o pedido agora? — Sim, dois sucos de laranja, por favor, sem gelo... Um risoto de camarão pra mim e para a Cristal, um peixe grelhado, acompanhado de salada e um pouco de arroz. — Por que você pode comer risoto e eu não? — Perguntei enquanto o garçom anotava os pedidos. — Por que eu quero assim. E mesmo assim, você é alérgica a camarão. — Você sempre me lembrando de tudo. — Sou paga para isso. O almoço foi tudo uma maravilha. Estella contou do seu encontro com o assessor do Marcos Pasquim, que foi um show de horrores, já que o telefone dele não parava de tocar, por que ele falou muito da vida dele e se esqueceu de perguntar um pouco da dela. Voltei para o meu quarto para trocar de roupa e descer para o salão do hotel. Estella havia deixado minha roupa e acessórios em cima da cama quando entrei. Um tubinho vermelho com alças largas que ia até um pouco acima do joelho, uma sandália salto fino preta e uma gargantilha fininha de ouro. Quando cheguei ao salão, fui recepcionada por Estevão e sua equipe de garçons. — Boa tarde senhorita Bittencourt, você está belíssima. — Obrigada, você sempre sendo gentil. — Você merece. — Aí está você... Bem a tempo. – Disse Estella chegando ao meu lado. — Vem, você tem dez minutos para se preparar para as perguntas. — Vamos. Com licença Estevão. — Falei enquanto seguia para a mesa onde estava colocado o microfone. — Ele sente uma atração por você. — Você está vendo coisas. E mesmo assim, ele tem idade para ser meu pai. — Que exagero, o máximo que ele deve ter é uns 45 anos. Eu pegaria. — Então pode ficar à vontade. Rimos enquanto eu sentava com ela ao meu lado. — Você viu as perguntas que vão fazer? — Questionei ansiosa. — Algumas. Não deu para ver todas, mas não se preocupe você vai tirar de letra. Quando a entrada dos repórteres foi liberada, respirei fundo enquanto eles se organizavam em seus lugares. Sempre tive medos das perguntas deles, ainda mais daqueles que não faziam nada além de me seguir. — Boa tarde a todos, eu sou Estella, assessora de Cristal Bittencourt e vou dar início agora a coletiva, por favor, a primeira pergunta. — Disse minha amiga dando início ao bombardeiro que viria em seguida. — Cristal, por que está encerrando sua carreira agora que está no auge? — Indagou o primeiro jornalista. — Bem, como todos já devem saber, eu comecei a trabalhar desde os meus vinte anos, ainda estava na faculdade quando me encontraram. Foram anos maravilhosos, agora quero dar continuidade de onde parei... Quero voltar com o meu curso, e para isso preciso abandonar as passarelas. — E por que só agora pensou em fazer isso? — Outro repórter perguntou. — Sempre quis terminar a faculdade, porém com a correria, não deu. Estou quase com trinta anos e acho que você sempre deve pensar em uma segunda opção. Modelo tem carreira curta, você precisa saber fazer outra coisa. — Eu ri e os repórteres também. — Você recebeu convites para participar de algumas novelas, por que recusou? — Eu sou modelo, fui encontrada por acaso, nunca fiz aula de teatro, não saberia atuar diante as câmeras, então eu recusei. Até então as perguntas estavam sendo leves, tudo relacionadas ao meu trabalho. Eu disse, estava indo bem, até eles começarem a querer saber sobre minha vida pessoal. — Cristal, você sempre foi clicada ao lado de homens lindos e atraentes. Houve rumores que você estava saindo com alguns deles, entretanto nunca saiu uma nota sua confirmando ou negando... Fala pra gente, algum deles te atraiu de verdade? — Uma repórter perguntou. — Todos com quem fui fotografada foram amigos ou parceiros de algum evento. Sou amiga de três ou quatro, o restante só vejo em eventos. — Uma vez questionada sobre sua vida amorosa, você deixou escapar certo nome, Daniel.... Quem é ou quem foi ele? Amigo de infância, um namorado da adolescência? Eles possuem uma memória muito boa, ou então fizeram uma p**a de uma pesquisa sobre minha vida. Há anos que eu não tocava nesse nome. — Daniel foi alguém que conheci na faculdade... — Vocês se veem com frequência? — Tiveram algum encontro depois que você ficou famosa? Santo Deus, eles precisavam parar com as perguntas. Esse era um assunto que não compartilhava nem com Estella. — Desculpa, esse assunto é particular, e eu não vou me pronunciar sobre isso. — Falei. — Pessoal, apenas perguntas sobre o trabalho e a carreira da Cristal, por favor. — Pediu Estella. — Você ainda é apaixonada por ele? A pergunta me causou um verdadeiro impacto. Nem eu mesma sabia responder. Não parei por muito tempo para pensar o que teria acontecido se eu não tivesse tomado a decisão que tomei, talvez o medo de ouvir a verdade sempre me fez trabalhar até ficar cansada demais para pensar nele. — Obrigada a todos por terem vindo. Cristal tem outros compromissos para cumprir. — Disse Estella dando por encerrado à coletiva. Quando o salão ficou vazio, soltei o ar preso em meus pulmões. Até a tremedeira tinha passado. — Obrigada amiga, você entrou em ação bem a tempo. — Eu falei. — Sempre estarei aqui para cobri-la. Eles são teimosos, eu fui bem clara... Apenas perguntas sobre sua carreira, mas sabem como eles são... — Você fez muito bem o seu trabalho. Muito bem por sinal. — Que tal agora um sorvete daqueles de dois andares? Você está merecendo. — Estou mesmo. — Vamos voltar para o quarto. Estevão vai cuidar disso. Preciso falar com você sobre uma coisa. — Que coisa? — Perguntei curiosa. — No quarto eu te falo. — Disse com um sorriso canto de boca. — Não gosto quando você faz essa cara. — Relaxa, vem, vamos.
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