3° Capítulo
SIENA
Triste a realidade, mas, já era sexta.
Estava uma tarde boa, o sol já estava prestes a se esconder e por incrível que pareça, no céu jazia uma meia-lua, o lindo e esplendoroso Arco Íris.
— Por que o mundo mostra-me infinitas cores e eu ainda insisto em ver só o preto e branco? _Desvio a vista do precioso céu e faço-me essa pergunta enquanto escovo o pelo macio do famoso "Alazão" Um bonito cavalo, o mais lindo entre os animais que os Malfacini cria na fazenda.
Morávamos nos fundo da fazenda, num pedacinho de terra que o senhor Joseph e a mulher Susu cedeu para meu avô construir nossa casinha. Eu gostava de morar aqui no interior apesar das recordações infelizes que tenho, é um lugar calmo e o contato com os animais — Esses animaizinhos indefesos e incapazes de fazer mau a alguém por simplesmente gostar de ver o sofrimento, a dor alheia como nós seres humanos fazíamos uns com os outros — É muito maravilhoso esse contato com eles, a natureza, o campo, é um ar totalmente indecifrável e inigualável com qualquer outro.
Sorrio, ao alisar os pelos do Alazão.
— Vocês praticamente são tão inocentes quanto as crianças... _Eu tinha certeza do que eu estava a dizer por que eu tive o imenso prazer de crescer com eles. Honrada vago para a frente e pego com as duas mãos a face do cavalo, acaricio o olhando atenciosamente. — Vocês só são aquilo que nós humanos ensinamos vocês a serem. _ O beijo, cheia de paz, a paz que eu só tinha com os meus avós e os animais.
— Abelhinha.
A voz do meu avô faz com que eu incline a cabeça para o lado e o olhe.
— Disponha, vovô. _Alargo um riso.
— Achei que estaria aqui. _Ele caminha divagar por conta da sua perna que depois daquele dia nunca mais foi a mesma, nossas vidas nunca mais foram as mesma. Abaixo a cabeça para não olhar para o seu andar, quanto a isso é inevitável não se sentir culpada. Suspiro. — Tudo bem? _Quis saber.
Assenti, sem olhá-lo nos olhos.
— Claro. _Continuo a tocar no cavalo impedindo de encarar meu avô, ele me conhecia tão bem quanto a mim mesma, era nítido que se eu virasse ele sabia que eu mentia. — Mas eu sabia disfarçar, como tenho feito durante todos esses anos — Culpa, Remorso e tristeza, sim, eu ainda tinha, sentimentos que me afrontava e na guerra eles sempre me arrebatava, eu era pequena demais para saber lidar com eles e os sentimentos bons que me emanava não era o suficiente para vencer os maus que me sonda, aqueles que impregnou em meu peito e nunca mais me deixou, pois ainda me assombra.
— Estou saindo para a cidade quer carona?
O olho.
— Vovô, eu não quero ir hoje. _Hesito, balançando a cabeça. — Toda santa semana é a mesma ladainha não sei como o senhor e a vovó acham que isso irá me ajudar, lembrar do ocorrido não me ajuda em nada. _Confesso de uma vez por todas, segurando as lágrimas.
— Eu sei, Siena. _Sinto sua mão acima da minha que estava sobre o pescoço do cavalo, me passando algum tipo de apoio. Contudo o olhei e do nada o abracei fortemente. Vovô e vovó nunca soube da verdade, sempre fui uma fraca e nunca tive coragem de contar ou confirmar as suspeitas da minha avó quando estávamos sozinhas.
Afasto-me dele, pegando nas suas mãos.
— Vovô diz e eu faço o que o senhor determinar. _Digo, respirando embargada.
Ele simplesmente n**a.
— Siena você não é mais criança, já passou o tempo em que nós ditava as regras e você as acatava, já é uma mulher e linda, chega de corresponder a nossas expectativas e ande com os seus próprios pés...
O corto.
— E se eu fracassar vovô? _Pergunto medonha, não é difícil saber o que os meus avós querem de uns tempos para cá, mais o medo permanece e parece recíproco. Ser livre causa-me muito medo porque sinto que estou presa, amarrada em algum lugar.
— Seu mestre… _Ele toca em minha testa. — É sua cabeça, não irá fracassar se não quiser. _Sorriu e eu ligeiramente o acompanhei.
Apertando entre os dedos a minha medalhinha da nossa Senhora no meu pescoço.
— Eu aceito sua carona. Vou colocar um sapato. _Falo não tão decidida, solto as suas mãos e saio correndo para dentro de casa, me jogando no sofá calçando o all star que eu havia deixado no chão ao lado.
— Filha.
Olho para trás ao ouvir minha vovó. Após colocar o sapato sigo até ela na cozinha.
— Que cheiro divino vovó. _Acentuo, fechando os olhos e inalando o cheiro gostoso de bolo de milho.
— Está indo para o consultório da senhora senhorinha? _Gargalho pegando uma fatia de bolo e saboreando.
— A senhora e o vovô acham que isso é bom para mim, então nada mais justo...
Ela me interrompe.
— E você? _Pisco confusa, mastigando. — O que eu e o seu vô achamos não diz nada se não é o mesmo que você quer. Você acha que isso é bom para você? _Ela me olha com seriedade.
Engoli em seco, desviando a vista para a janela.
— Sinceramente vovó, eu preferia pegar um desses cavalos e fazer um racha com o meu vô, mas deitar no sofá e fechar os olhos é bem mais em conta se compararmos com a preguiça que tenho. _Dito isso, rimos juntas.
— Você é terrível, minha neta.
Garotinha terrível.
A fatia de bolo, de repente, caí da minha mão e a mesma mão eu levo até a minha cabeça, espremendo os olhos com força, tendo uma miragem horrível e dolorosa.
— Siena... _Ouço uma voz longe, no entanto, estou imersa nos flashes de lembranças miseráveis. — Siena. _ Me tocam nos ombros.
Contudo, abro os olhos. É só a minha avó. É só a minha vozinha e ninguém mais.
— É... Eu já vou. _Assustada, com os nervos em guerra lhe dou as costas.
— Eu e seu avô, a cada dia que passa estamos morrendo. _Paralizo ao ouvi-la. O que ela está dizendo, minha Santinha? — Não tivemos mais de uma filha e sua mãe também não. _Meu vô entra e na porta ele abaixa a cabeça. — Seu vô está com 83 anos e eu 77 não é difícil para mim e para o meu velho saber que o nosso tempo está a chegar ao fim.
— Não. _n**o, lágrimas escapando.
— É a lei da vida Abelhinha. _Falou meu avô dócil ao olhar-me fraternalmente. Concordando plenamente com a minha avó.
Automaticamente, viro para a minha avó.
— Por que vocês estão dizendo isso? _Choro. — Vocês pretendem deixar-me como os meus pais fizeram? _Olho para o meu avô.
— Não Siena, entenda nós nascemos e morremos é visível para qualquer um que os velhos sempre morrem antes dos novos é assim, qual o pai que quer enterrar o filho, qual avô que quer enterrar a neta? Minha neta não existe o contrário. Por mais que doa a cada dia que passa você cresce e nós envelhecemos. _Revelou minha avó chorosa.
— Por que tem que ser assim? Vocês podem estar enganados a lei pode esperar por vocês até os 120 anos ou mais. _Corro até a minha avó e a abraço. — Não diga isso que magoa muito e nem ousa a pensar em me deixar sozinha nesse mundo c***l sem o apoio de vocês. _ Sinto braços ondular nosso pescoço. — Oh, vovô. _Me viro para ele o abraçando também. — Por que vocês estão dizendo essas coisas que me causam tristeza?
Eles se entre olham.
— Não é nada. Vamos Siena.
***
O caminho todo foi tranquilo apesar de estranhar as palavras dos meus avós, no fundo, eu sei que eles têm razão mais não me vejo em um mundo sozinha sem eles, é estranho aceitar que é assim a vida.
Estou em frente a sala da senhora Morgana e antes de bater na porta suspiro bem fundo eu preciso muito disso para enfrentar tudo de novo.
Ansiosa bati na porta levemente três vezes seguidas e aguardo. Então a porta se abre, estou de cabeça baixa e isso faz com que lentamente eu levante-a enquanto percorro o olhar de baixo para cima tremendo simultaneamente ao me dar conta que a roupa que avisto não tem nada feminino.
Desesperada, olho para cima de uma vez por todas e dou um passo para trás.
Pisco algumas vezes abstraindo tudo.
Ele é um homem.
— É... Eu acho que errei de porta. _Minha voz falha de um modo constrangedor exagerado.
— Definitivamente deve ter errado mesmo. _Saudou áspero tocando no nariz, no septo olhando sem piscar para o meu nariz.
Específicamente o meu piercing com um olhar de descrença.
Encolho os ombros com temor do seu olhar viajando por todo o meu corpo coberto e guardo as minhas mãos no bolso da minha blusa de frio pronta para correr o mais depressa possível para longe daqui. E assim eu faço. Saio correndo mais, quando estou no portão parada tentando recuperar o fôlego que perdi uma mão forte aperta o meu pulso e puxa-me bruscamente para que se vire.
— Me larga! _Grito, horrorizada, sem sucesso esmurro o peito de seja quem for a pessoa, entretanto, parece algo inútil ou até mesmo um insulto para o seu tamanho intimidador. Me sinto miúda e acuada.
— p***a! Mulher esquisita, cala a merda dessa boca, está atraindo olhares para nós e eu odeio chamar atenção. _Seu tom era descontente.
Meu coração incansável dispara com o modo exaustivo que o homem fala e me aperta.
— Me solta moço por tudo de mais sagrado que... _O inevitável acontece e eu choro, minha cabeça dói tanto e mau tenho respiração.
Apavorada, perturbada e com os lábios tremendo olho para cima procurando seu rosto, negando. Eu não posso... aqui não, Minha Santinha. — Eu vou... eu vou desmaiar. _O medo foi tamanho que senti os meus olhos amortecer e eu apaguei completamente.