6° Capítulo
SIENA
A única expressão que permanecia na minha face ao ver que três horas da manhã eu saia do meu quarto em passos imperceptíveis, sem ocasionar barulho, era a surpresa. Por muitas vezes a insônia me pegava e quando eu ia juntar os olhos para dormir já era as cinco da manhã. Precisava está de pé as oito para ajudar o meu vô a recolher os abacates maduros.
Chegando na cozinha, me servi de água e vaguei até a pia, sentindo a brisa da madrugada adentrar pela janela que vovó deixava sempre aberta.
O que eu tinha afinal?
Não sabia dizer, eu estava inquieta demais, pensativa demais e acordada demais. Não conseguia dormir e não por medo dos pesadelos que sondavam, até por que já havia me acostumado com eles, com todos eles. A verdade é que algo me deixava paranoica e por saber o que era, eu me martirizava por este mesmo motivo.
Fechando os olhos, bebi a água num gole só e deixei o copo na pia, suspirando longamente, pesadamente. Quando finalmente abri os olhos, foquei o olhar num único ponto e dei-me conta que a luz do celeiro estava acesa.
Vovô, com certeza esqueceu desse detalhe, e se não fosse isso, os donos mesmo sendo justos, quando perdesse metade de algumas das rações dos animais por esta expostas a luz e o tempo chuvoso nos culpariam por isso.
Segui para fora da cozinha e caminhei até o torno ao lado da porta, pegando um casaco me cobri. Cuidadosamente abri a porta e sai, a encostando novamente. Fui para a varanda do lado de fora e peguei um guarda-chuva, o abrindo. Desci os poucos degraus que jazia ali e vaguei para o celeiro em meio aquela madrugada escurecida. Preferia mil vezes andar na escuridão sabendo que não existiria ninguém do que andar pela manhã com um monte de gente com pensamentos podres.
Adentrei no celeiro fechando o guarda-chuva, respirei profundamente, o colocando de lado e fui até os caixotes de rações abertos, trancando um após o outro. Feito isso, empilhei também alguns dos fenos que estavam no chão e aumentei os passos indo para luz. Antes de fechá-la, passei o olhar por todo o celeiro, vendo que estava tudo em ordem apaguei e abri o guarda-chuva.
Olhando para as árvores, vi os matos se mexerem, andei depressa, querendo chegar o mais rápido possível em casa. Voltando o meu olhar para trás, suspeitando que fosse alguma raposa ou animal feroz me seguindo, aumentei as passadas e corri, vindo a sujar os meus pés nas poças de lama ao perceber detrás de um tronco de árvore longe que havia alguém vestido de preto se destacando em meio aquela escuridão c***l, a sombra grande não me deixava mentir.
De frente a porta e com coração na mão, respiração irregular pela correria, voltei a olhar para o ponto e percebi ali que poderia está a imaginar coisas, que seria ilusão da minha mente doente, a sombra vestida de tom preto não estava mais lá, havia sumido misteriosamente.
Curiosa, joguei o guarda-chuva na espreguiçadeira e dei a volta na casa pela varanda.
Eu não posso está ficando louca, meu Deus...
Eu sentia que estava a ser observada e isso era maluquice. Maluquice até eu olhar para trás, no celeiro e ver a luz que eu havia apagado segundos atrás, novamente acesa. Nervosa corri para dentro de casa e tranquei a porta de chave, indo de novo para a cozinha, olhando através da janela para o celeiro.
— Siena. Ainda acordada? _Me chamaram, mesmo a voz da minha avó sendo doce e encantadora, isso não me fez ficar menos nervosa, eu parmaneci encarando o celeiro. Medrosa, momentaneamente assustada. — Está tudo bem?
Eu a fitei e sorrio contragosto.
— Sim, claro. _Menti e desvencilhei meus olhos por reflexo, engolindo em seco e arregalando os mesmos ao enxergar perfeitamente uma pessoa em pé na entrada do celeiro com um chicote na mão.
Ele havia me encontrado...
Como fui ingênua de achar que poderia fugir do meu destino...
Eu sabia que estava a ser observada, mas vendo ele ali deslizando o chicote sobre os dedos me perguntei se a sombra em tom de preto realmente esteve mesmo ali detrás daquela árvore.
Lembranças me tomam, ele falou que viria atrás de mim e me encontraria, eu tinha que voltar para o matadouro, a dor estava a diminuir e por isso precisava de mais, muito mais para renova-las.
Ainda vendo ele ali de pé olhando fixamente para a janela como se soubesse que eu o via, ele deu uma chicotada contra o chão em aviso e eu, em resposta, fechei rapidamente a janela.
— Quer uma fatia de bolo querida? _ Perguntou minha avó quando eu virei para ela e tentei sorrir.
— Não. Obrigado. _Desviei os olhos para a janela para ver se ele ainda estava ali e consegui respirar agradecida ao vê-lo distanciando. Fingi puxar as cortinas e desviei a vista para minha avó. — Bom vovó, com licença, irei voltar para o meu quarto, estou caindo de sono. _Menti quando estava ao seu lado, a beijei e sai ao vê-la assentindo.
Entrei no meu quarto e fechei a porta, rodando a chave. Me coloquei de frente ao espelho e encarei meu reflexo ao tirar por completo toda aquele monte de pano.
Eu não poderia esquecer nunca da dor e que bom que ele apareceu para me recobrar disso. Isso não era de todo m*l assim, já que eu era fascinada por ela.
Me convenci, sorrindo, analisando o meu corpo nojento.