Tremores

1851 Words
5° Capítulo SIENA O dia amanheceu chuvoso, havia acabado de entrar no meu pequeno quarto depois ter ajudado meu avô a dar feno para os cavalos. — Olha Sariema, também estou odiando saber que você será minha paciente... Sariema? Paciente? ....Estou indignada. Eu seria paciente dele? como ? E a senhorinha branquela a quem lhe contei detalhes da minha vida? Como ela pode fazer isso comigo e colocar outra pessoa no seu lugar? Como ela imaginou que eu lidaria com isso? Nós já estávamos conversando sobre a escola. Pensei que finalmente eu iria me abrir com alguém, contar de uma vez por todas o que tanto me sufocava. Respiro profundamente e sigo até a parede da janela se sentindo sem chão e exausta. Me encosto ali, tentando ver qual era a cor que enfeitava o céu nessa manhã já que não consegui vê-lo ontem por está a pensar no acontecimento, na verdade, o olhei, mas não vi literalmente nada. Por conta da chuva e o frio a janela acabou ficando suada, foi então que passei uma mão lentamente sobre, a limpando e encostei minha cabeça na parede enquanto olhava para cima. Meu vô realmente estava certo, chegou mesmo o momento em que eu deveria caminhar com as minhas próprias pernas. Toco a minha medalha no pescoço e a aperto entre os dedos, tentando buscar forças, apoio e uma luz naquela escuridão. Eu tinha que ser forte a partir dessa decisão, precisava como nunca me fortalecer das dores vividas para me preparar para o mundo. Precisava de muitas forças, muitas mesmo porque sabia que não seria fácil. Nada na minha vida estava sendo, nunca foi. — Siena. Ao ouvir a voz da minha avó linda, desviei a vista para ela, sorrindo inevitavelmente. — Sim, vovó. _Soltei o colar no meu pescoço e distanciei-me da janela, vagando até ela, beijando-a carinhosamente. Sentindo seu corpo retesar eu a olhei. — Tudo bem? _Perguntei preocupada, acariciando os seus cabelos. — Meu velho está na varanda conversando com um homem alto e bonito. _Comentou sorrindo. — Vovó. _Franzi o cenho, balançando a cabeça. — O que tem de m*l nisso?_Emendei, tentando soar descontraída. Ela aproximou mais um passo de mim. — Filha, você ouviu eu dizendo que ele é alto e bonito, todo príncipe? _Cochichou no meu ouvido. Sorrio sem querer e a encarei, asssentindo. — Alto e bonito, tá bom, já entendi. _Dei de ombros. Vagando até minha cama, sentei. — O que você tem? O que se passa na cabeça da minha netinha? _Vovó veio e sentou do meu lado, me abraçando pelos ombros. Aconcheguei ali e fechei os olhos por um momento. No colo da minha avó eu estaria em paz e protegida, disso não teria dúvidas. — Estive pensando... Eu quero trabalhar, vovó. Me ouvindo, ela me soltou e levantou da cama, levando as mãos a boca. — Sério isso? A fitei, séria. — Sim. _Meniei a cabeça, positivamente. — Se a senhora for contra eu esqueço... Minha vó me cortou. — Pelo amor de Deus, Siena! _Pegou nas minhas mãos, me puxando para que ficasse de pé. — Sei que nunca nos fatou nada, mas querida, isso será ótimo para você, já pensou, conhecendo gente nova, fazendo amizades, ocupando a cabeça com algo. — Eu posso mesmo procurar um emprego? _A olhei ansiosa, eu esperava que minha avó dissesse não, mas ela estava tão alegre que seria impossível isso. — Se for a sua vontade, é claro, minha neta. Agora vem. _Voltou a agarrar o meu pulso, me levando para fora do quarto. — Vovó, para onde estamos indo? _Questionei. — Precisamos contar a novidade para o seu avô. Parei no lugar. — Mas ele está com visita. Ela me fitou. — E quem disse que visitas impedem de darmos boas notícias nessa casa. _Falou decidida. — Agora vem. No corredor, passamos pela sala e seguimos direto para a varanda, logo o sorriso do meu vô tomou conta dos ares, eu retribuí o riso para ele e tentei ver o homem que estaria com ele, mas nada de êxito, ele estava de costas para mim. — Velho, a Siena tem uma novidade fabulosa. _Quase gritou, minha vozinha. Meu vô levantou-se da cadeira apressado, esquecendo tudo a sua volta e piscou os olhos, confuso. Tadinho... Depois de encarar a minha avô, ele estreitou os olhos em mim. — Venha Siena, sente-se aqui. _Apontou para a espreguiçadeira ao lado dele. Atendendo seu pedido, passei pelo homem e quando puxei o ar para meus pulmões quase tremi por inteira. Que perfume bom era aquele? Sentei na ponta da espreguiçadeira e que bom que fiz aquilo, ou não teria pernas para continuarem de pé, o cheirinho bom ficou ainda mais presente. Meu vô pegou minhas mãos juntas e juntou com as dele sobre a mesa, me chamando para a realidade. — Conte, Siena. _Pediu minha avó, me incentivando. Abro a boca, no entanto, fui interrompida. — Antes dê um bom dia ao Maximiliano. _ Ordenou o meu avô. Virei meu rosto para o lado, iria finalmente saudá-lo e ver como era o dono daquele aroma marcante. — Bom di... _Bastou olhá-lo e com tudo me levantei da cadeira, a mesma com a minha pressa caiu para o lado. Transtornada, dei um passo para trás, pousando a mão sobre o peito. — Siena... Sabia que me chamavam, porém, estava imersa no olhar daquele homem. O que ele fazia na minha casa? Senti mãos no meu ombro e pelo toque suave sabia que era do meu avô. Aflita, mantive meu olhar aberto, ciente de que se fechasse lágrimas de desamparo fugiriam dos meus olhos. Meus avós me protegeriam dele? — Bom dia. _O tal Maximiliano se colocou de pé. Era ele. Eu tinha plena convicção de que era o homem que me trancou na sala da Morgana alegando que eu seria sua paciente. — Vovô. _Repentinamente, virei o corpo para o lado e o abracei forte. — Tira ele Vovô, Tira ele daqui. _Sussurrei. — O que houve Siena? _Era minha vó. Chorei no ombro do meu avô. — Calma Siena, ele veio me contar que a senhora Morgana viajou para cuidar de um câncer. Me afastei. — Câncer? _Abruptamente, virei para o homem. — Pegue. _Ele disse, me estendendo um lenço. Olhei o paninho que parecia tão delicado. Pelo seus ombros, atrás, avistei a minha vó que afirmava com a cabeça. Temerosa peguei o lenço. Meu vô, ao meu lado estava prestes a pegar a espreguiçadeira que eu havia infelizmente a derrubado. Mas o Maximiliano se antecipou e a recolheu do chão. Tão depressa, com uma única mão e tão habilidosamente que me fez ver o quanto ele era forte, que ontem ele poderia muito bem me fazer m*l, se quisesse, nós estávamos trancados, ele havia nos trancado. Entretanto, nada ele fez além de ser rude comigo. Loucura, Siena, são todos iguais... Todos arrepiantes... Empurrei rápido os pensamentos para longe de mim. — Ela nunca comentou comigo sobre a doença... _Me sentei, entristecida. — Talvez soubesse que você não me aceitaria... _Supôs o homem e eu pisquei, confusa. Ele voltou a senta-se. — Talvez desacreditasse que você não me queria para ser seu novo ouvinte, a senhorita ontem preocupou-me bastante, saiu como uma louca da minha sala, cheguei até a pensar que estava a ter um ataque e que eu teria que prestar conta do seu paradeiro pra a sua família. Abaixei a cabeça, envergonhada. — Minha neta não é nenhuma lou... Meu vô tentou me defender, entretanto, o interrompei. — Vovô... _Peguei em sua mão e continuei. — Ele sabe o que diz, eu não agi nada bem quando vi que não era a senhora Morgana, me desesperei. _Voltei minha atenção para o homem que em nenhum momento desviou os olhos do meu rosto, sentia-me como se estivesse a ser examinada, cada expressão ele notava. — Me desculpa. Ele afirmou com um menear de cabeça. — Estive falando com o seu avô se teria algum problema você continuar a frequentar o consultório, mas ele quer que você diga. _Ruborizou na cadeira, algo me dizia que ele não se sentia bem naquela situação. Então, por que se deu ao trabalho de vir até aqui? — Não irei mais. _Balbuciei, decidida, o poupando de desgostos futuros. — Por que não, Siena ? _Perguntou minha avó. A encarei, apertando o lenço entre os dedos. — Acho que nada disso está a surtir efeito em mim... Ouvi o Maximiliano bufar. — Talvez comigo, quem sabe você note algo diferente. _Faltou pouco para o homem garantir isso aos quatro cantos do mundo. Lhe dei um olhar desagradável. — Contigo eu fiquei três vezes pior, ou o senhor não viu? _Fui sarcástica, escutando a minha avó limpando a garganta soube que eu estava sendo m*l-educada e não foi assim que eles me ensinaram, não foi essa a minha criação. Sobretudo, não iria pedir desculpas nem morta. — É justamente por lembrar de ontem, a sua reação diz-me que você precisa sim de mim. _Acrescentou. Meu vô tossiu ao meu lado. — De você? _Elevei minha sobrancelha. Por mais gentil que eu fosse, naquele instante eu estava com os nervos em guerra, não conseguia me controlar, se conter, esse homem me tirava do sério. Era nítido. — Você é muito m*l agradecida. _Disse incisivo, ficando de pé ele fechou dois botões do terno. — Foi um prazer. _Estreitou os olhos para a minha avó, indo até ela, ele pegou em sua mão e a beijou. Em seguida, deu a volta na mesa e se despediu do meu vô com um aperto de mão. — Me desculpe mesmo qualquer incomodo. _Desviou os olhos para mim e eu desviei os meus, ignorando-o. — Tchau, moça arisca. _Seu tom era zombeteiro. Minha avó gargalhou. Semicerrei os olhos e neguei. Não é possível que eu estaria mesmo ouvindo aquilo. — Vá com Deus, meu filho. _Vovó e seu coração mole, eu vi, ela simpatizou pelo homem arrogante. — Se mudar de ideia me ligue. _Dito isso, os seus dedos arrastou um cartão sobre a mesa. Então a suas pisadas sumiram. Ele havia partido. — Siena... Siena. _Era minha avó, balançando a cabeça e depois entrando em casa. — Espere mulher. _Falou o meu vô, a seguindo. Na porta, ele virou, me olhou e sorriu. — Estou com você, querida. Sorrio com sua confissão e ele entrou. Sempre eu teria o seu apoio, sempre tive e se Deus quisesse continuaria a ter por muitos anos. Infinitamente. Meus olhos curiosos dissipou-se para o cartão ao meu lado sobre a mesa. Mudei a vista, cruzei os meus braços e encostei as minhas costas na espreguiçadeira, observei os pingos de chuva caírem na grama, molhando algumas plantinhas da minha avó que nós duas havíamos plantado com a intenção de dar mais vida ao nosso lar. Quando percebi estava novamente olhando para o cartão e as minhas mãos indo para recolhe-lo da mesa. Passei o olhar por cada minúscula letra, cada número. Ao contrário do que minha vó achou, o seu nome era mesmo muito bonito. — Maximiliano. _Suspirei, contida.
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