Capítulo 3. Jaula de Veludo

1025 Words
Stateline, South Lake Tahoe, California Eu estava com uma ressaca do inferno quando acordei. A luz do sol que invadia a sala chegou a me deixar m*l-humorado num primeiro momento. — Noitada, hein! — A mãe riu da cozinha. Olhei ao sofá do lado e Natasha já não estava deitada. O relógio no alto da lareira marcava nove da manhã — relativamente cedo para o trabalho. Sentei e respirei fundo. O hálito de cerveja era realmente algo desagradável, me fazendo torcer o rosto. O mundo ainda girava, mas me encorajei e fui ao quarto. Como queria ir à base, só vesti uma bermuda. Desci descalço e nem me enxuguei direito depois do banho. Na cozinha, a mãe e Natasha conversavam algo que as fazia rir bastante. — Bom dia! — A mãe sorriu largo. — Sua benção, minha mãe. Ela era baixinha, quase na altura de Natasha. Os grisalhos cabelos eram bem longos e, àquela hora da manhã, ainda usava o robe escuro. A única coisa que herdamos dela além da horrível facilidade em ter cabelos enormes foi a leve acentuação no olhar, seu traço filipino. — Que Deus abençoe, índio! — brincou e eu ri. — Descansou bem? — Natasha perguntou. — Nem sonhei. Ainda estou bêbado, mas sim — ri, assentindo. — O café está cheirando muito bem! — É um charme! — A mãe se acanhou. — Antes de me juntar, preciso ligar para o chefe... — Problemas!? — A mãe ficou séria, preocupada. — Não, nenhum. — Meneei a cabeça. — Então vai enquanto eu preparo algo leve. Chloe já saiu com seu pai, então não precisa se preocupar. Lembrei do resto da farda, mas não estava mais no sofá. Subi correndo para ver se o telefone estava na calça, mas também não o encontrei. Iria à cozinha perguntar quando o vi no armário da sala onde ficavam os cacarecos, como falava a mãe. Foi rápido. A ordem era um toque a um telefone dado pelo superior para comunicar que eu iria à base. Voltando à cozinha, a mãe estava servindo a omelete de claras — o que sempre amei comer —, tinha espinafre, cogumelos e tomate. O cheiro era ótimo! — Levíssimo para o café! — Ela falou. — Obrigado, minha mãe. Ela apenas sorriu e sentou conosco para comer. Natasha tinha apenas uma xícara de café, dificilmente comia pela manhã e esse hábito nunca mudou. Comemos em relativo silêncio. As moças até conversaram um pouco, mas optei por apenas usufruir do som de sua conversa, de suas risadas. Apesar de ter seus cinquenta, quase dez anos a mais que a mãe, Natasha tinha a aparência muito mais jovem e seu jeito de ser apenas colaborava com isso. Enquanto crescia, ela figurou muito nas minhas fantasias de adolescente e eu cansei de falar com Matheus, meu irmão mais velho, desse tipo de coisa. Eu me peguei rindo disso naquela manhã. Realmente sentia saudade da minha casa. — Podemos ir à sua varanda... — Natasha disse. Olhei-lhe e ela se levantou, sorrindo ladina: — A não ser que queira algo... mais... íntimo. — Encarnando a informante gostosä? — brinquei e ela assentiu, rindo. — Subimos. Tenho exercício ainda. — Claro, senhor responsável! — Ela assentiu. — Comportem-se! — A mãe alertou. Natasha só gargalhou enquanto subíamos. Tinha uma academia ao lado do meu quarto e geralmente apenas eu usava aquele lugar desde sempre. — Começando pelo começo... — Natasha falou, indo a um dos equipamentos para se sentar. — Recebi um trabalho de um cliente que perdeu a filha. — Tráfico humano... — Já concluí. — Nossa! — Ela gargalhou. — Sim, a primeira suspeita é sempre essa. Não tinha corpo, então o mais provável é que ela tivesse sido sequestrada e já vendida. — Qual a idade? — Tinha nove na época. Deve ter treze hoje. Cheguei a engolir seco com a repulsa. — Demorei uns dois meses para achar a dupla que pegou a menina. Um viciado e a namoradinha, isso apontou para um nome do tráfico de drogas de Nevada. Parei o exercício e gesticulei para ela aguardar. Fui ao meu quarto para pegar o mapa que eu já tinha até então sobre o caso em que eu estava trabalhando. Usei uma fita para estendê-lo na parede. — Isso é o que tenho de forma rasa, ao menos dos policiais que estão sob suspeição. — Apontei ao papel. O mapa apontava pessoal em toda a Costa Oeste. O ruïm da Califórnia eram as agências de inteligência — e isso preocupava muito, obviamente. — Conheço alguns rostos. — Natasha sorriu. — Um contato apontou a ligação do traficante vizinho com um braço da máfia russa e voilà... Jaula de Veludo. — Achou a moça? — perguntei. — Sim, está no setor mais pervertidö desse lugar. — Seu rosto torceu de nojo. — A ideia inicial era tentar me aproximar de um segurança, mas eles não saem, provavelmente tão reféns quanto as meninas. — Armados!? — Franzi o cenho. — Por incrível que pareça, sim. — Ela riu. — Não sei como conseguiram essa proeza, mas um dos garotos com quem falei parecia assombrado, apavorado! — Exótico... — Pois é, tentei me juntar ao quadro de meninas. Sem sucesso. — Ela meneou a cabeça. — Montei uma operação um pouco mais ousada num dia agitado para tentar contato com o laranja, suposto dono do lugar. — O que deu errado? — Fiquei curioso. — Eu já mantinha contato com a menina. Por coincidência ou não, a menina foi quem nos serviu pela noite e isso foi o que fodeü a porrä toda... — Que merdä! — Meneei a cabeça, já imaginando no que deu. — Não consegui fingir tranquilidade com aquela merdä... Aí, o disfarce caiu! — Natasha deu de ombros. — Foi um inferno. Fugir foi ainda mais difícil. — Que bom que conseguiu, ruiva! — suspirei. — Consegue me dar um registro escrito? Pode se omitir disso e eu finjo que nem sei quem você é. — De boa. Dá um PC que eu faço. Lembro de muita coisa com detalhes bem sórdidos. Pode ajudar.
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