Heavenly Village, South Lake Tahoe, California
— P-pago o que você quiser! — Bea estava nervosa em nosso encontro. — N-ninguém pode... E-eu não posso-
— Precisa se acalmar, linda! — Eu lhe sorri com toda minha simpatia.
Marquei num restaurante, perto dos seus negócios de família, para que ela não estivesse tão distante de uma zona confortável — ela aceitou bem rápido.
— Não estou aqui para fazer ameaças contra a sua vida, tampouco para destruir a sua reputação. Por enquanto. — Servi uma taça de vinho para lhe estender. — Claro, tudo vai depender da nossa conversa, entendeu?
— O q-que... você quer? — Seu olhar lacrimejou.
— Primeiro, alertá-la de um perigo; segundo, quero informações sobre alguém que dorme com você.
Ela acabou abaixando a cabeça.
— Ele é sargento, eu sei — falei, fitando seu olhar que foi rapidamente tomado por culpa. — Até onde eu sei, está querendo se aproveitar da sua pouca influência.
Bea me olhou, curiosa com a fala.
— Ele vem pedindo favores? — perguntei.
Ela engoliu seco e assentiu com a cabeça.
— Quais favores?
— Ele disse ser inofensivo, pediu acesso a algumas reuniões do Conselho que deliberavam sobre algumas acusações de agentes diversos — explicou.
— Conseguiria me mostrar? — pedi.
Novamente, ela engoliu seco. Ficou nítido o quanto temia aceitar ou negar, acabou se demorando.
— Não, eu ainda não vou te ameaçar de nada. Gozei gostoso com você e isso conta na minha tomada de decisões — ri, deixando-a acanhada. — Tudo aponta para a certeza que ele quer usar sua posição política.
Seu semblante soou decepcionado.
— Não sei como ele te trata, como vocês lidam um com o outro, mas é um homem perigoso, mocinha. Eu sou perigosa, mas ainda estou jogando do lado bom.
— V-você... se aproveitou de mim. — As primeiras lágrimas caíram de seu olhar. — C-como isso é bom? Que tipo de-
— Ah, você não tem ideia de como sou quando eu quero ser má! — sorri de canto de boca e ela suspirou. — Quero aprender sobre ele. Que tal um acordo?
Ela me olhou com curiosidade.
— Você me esclarece sobre ele. Posso testar a fidelidade dele e, se ele for um bom homem, eu desisto de saber mais sobre o que ele buscava.
— E se não for?
— Então, você compartilha todos os favores que ele te pediu, junto ao máximo de informação possível. Posso te oferecer proteção, se necessário — sugeri.
— E-eu tenho... tempo para pensar?
— Dois dias. É o máximo que posso fazer. Existem muitas vidas correndo risco e só estou jogando no lado bom porque alguém se importa com elas — sorri.
Ela respirou fundo. Pareceu uma boa moça no decorrer da conversa, pude ver seu olhar se indagar do que seria o mais correto a fazer.
Servi a minha taça para me recostar e continuar a acompanhando. Bea estava levemente trêmula, pareceu submergir nos próprios pensamentos.
Ela terminou sua taça e estendeu, pedindo mais.
Eu lhe servi, sorrindo.
Bea deu um generoso gole para começar a falar de seu relacionamento com o desgraçado. Ele se aproximou casualmente numa festa local. Começou com o velho papo de ser um príncipe, muito galanteador. Ainda não chegaram ao ponto de brigarem entre si, mas estavam se distanciando.
Finalmente descobri o nome do candango: Ethan Walker. Apenas um cidadão ordinário que decidiu ganhar a vida com o trabalho policial. A família do desgraçado já tinha um histórico ilegal, ele me pareceu só reproduzir os passos dos mais velhos.
Pela história da moça, o distanciamento só iniciou quando ela começou a negá-lo favores, que começaram com interesse na carreira jurídica dela.
Comovida pelo caso de vítimas de violência, ela costumava tê-las como clientes favoritas e alguns dos infratores pareciam ser do interesse de Ethan.
Esquisito, mas não comentei.
Após três meses da eleição do Conselho, ele começou a demonstrar interesse nesses assuntos. Era bem sutil, mas a sutileza deixou de existir rápido.
A moça já vivia uma situação apaixonadinha e isso lhe fazia ceder por muitas vezes — era só um desgraçado contra uma boazinha no final das contas.
— É um momento difícil, mas precisa ser forte. Pode me dar o número dele? — sorri de canto de boca.
Obviamente, ela ficou enciumada e ficou claro. Contudo, eu não fiz nenhum dos comentários maldosos que tinha em mente, apenas lhe deixei pensar.
Demorou. Ela terminou de beber a taça com certa velocidade, mas respirou fundo e assentiu com a cabeça. Tomou um guardanapo e tirou uma caneta da bolsa para anotar o telefone do homem.
— Com o que ele está envolvido? — perguntou enquanto me dava o número de telefone. — E-eu... n-
— Tráfico de influência para péssimos homens! — Não pude conter o semblante enojado. — O tipo de gente que faz terríveis maldades com crianças.
— P-pedo-
— Não só os que consomem, mas também os que vendem. — Seu olhar arregalou e ela voltou a engolir seco. — Meu trabalho é combater essa gente, apenas.
Ela assentiu apressadamente com a cabeça.
— Bom, agradeço as informações — sorri ao fim da minha taça. — Foi ótimo revê-la e posso garantir um bom momento, se quiser de novo no futuro.
Acanhada, ela apenas abaixou a cabeça rápido.
Achei fofo, acabei rindo, mas me levantei, deixei uma nota de cem dólares à mesa e voltei à minha moto.
O segurança dela estava numa mesa próxima. Apenas lhe dei um tchauzinho ao passar — ainda pude notá-lo engolir seco.
Pegando minha moto, o destino era meu apê.
Eu já sabia que o tal Ethan estaria de serviço e queria muito conhecê-lo pessoalmente. Eu me vesti bem, já fiz contato com Williams para me ajudar.
Desocupado e tarado, ele só aceitou me levar.
— É só uma voltinha. Se eu encontrar meu alvo sozinho, pode aguardar onde estiver que eu volto. — Foi a única instrução que julguei necessária para a noite.