Al Tahoe, South Lake Tahoe, California
— Não sei se considerará uma boa notícia, mas a nossa pequena Jane Doe já estava fadada a morte — dizia o perito enquanto eu o observava.
— O que ela tinha?
— Uma Jane Doe frágil. Já diabética tão jovem, a vida sexuäl deixou fortes traumas e doenças no corpo... sem contar a condição física como um todo.
Ele se moveu em direção ao seu monitor.
— Não quero ver. — Meneei a cabeça. — Não estou bem para isso, doutor. Algo que é realmente relevante para o meu trabalho agora?
— Sim. — Ele assentiu com a cabeça.
Foi à mesa onde estavam alguns arquivos e pegou parte das pastas para me dar, falando:
— Não é a primeira Jane Doe que lidamos com essas características. Há rastros de uma potente heroína... algo único no mercado das drogas.
— Isso são os outros? — perguntei, sem olhar.
— Não todos, mas os que já chegaram a cogitar suspeitos. Há uma série de outros que não levou a suspeito algum e, infelizmente, foram fechados.
— Entendo... Vou estudar com calma — assenti.
— Descanse, soldado! Os ombros estão tensos — falou. — Se precisar de um dia em casa, não se faça de rogado e tire esse dia. Isso evitará erros fatais.
Apenas assenti com a cabeça, apesar de estar confiante o suficiente que eu não vacilaria em momento algum — eu nem tinha o porquê.
Era o fim do meu expediente.
Naquele dia, eu tive um bom início de dia. Toda a família se reuniu para o café da manhã — confesso que eu sentia saudade daquilo e só percebi na hora.
Depois da refeição com todos, saí com Matheus e Natasha, deixei Matheus na minha casa e Natasha na casa dela. A gente acabou se amassando no carro.
Ela provocou e, como habitual, eu caí.
Não foi ruïm, mas ela ainda reprovou o comportamento depois de se aproveitar de mim, falando que eu deveria resistir mais.
“Como?”, era o pensamento para aquilo.
O expediente foi tranquilo. Van não foi e era compreensível que, após ver a morte da menina, ele precisasse de um dia de guarda para o filho.
Imagino que, no lugar dele, eu construiria uma fortaleza fortemente armada em pouco tempo apenas para garantir que meu filho ficaria seguro.
Enfim, sozinho, meu dia foi mais tranquilo que o habitual. O único som que podia me tirar dos nervos era a Central chamando no rádio, mas as ocasiões para as quais fui chamado foram muito corriqueiras.
Brigas; jovens bagunceiros; bêbados...
O de sempre.
Tive com o perito ao fim e fui para casa com uma boa sensação que nem tudo estava perdido; que, de alguma forma, eu ainda podia fazer algo por alguém.
Ao lado da minha vaga no estacionamento, na garagem do meu prédio, Natasha estava na moto. Vestia o catsuit e segurava uma bonita taça de vinho.
Após estacionar, olhei e ela deu um belo sorriso.
Foi a primeira vez que senti a sensação ansiosa de ter o corpo reagindo diferente a ela. Nem posso dizer que ainda não tinha acontecido, mas eu percebi.
Como se o ar faltasse por um instante, só observá-la me fez arfar. As batidas no peito perderam o ritmo por alguns instantes e eu só meneei a cabeça.
Ela não se moveu de onde estava, mantendo o olhar afixado em mim. Respirei fundo por algumas vezes e consegui deixar o carro.
— Não está bem, loiro? — Ela sorriu.
— Tenho certeza que não deveria estar na garagem do meu prédio — repreendi, olhando ao redor na garagem vazia — e ainda bebendo!
— Quem vai me prender? Você? — Seu olhar ficou lascivo, como só ela sabia fazer, tornou a chacoalhar meu íntimo e a remoção de ar foi mais forte.
— Ruiva... ajuda... O que acha? — pedi.
— Estou ajudando. — Ela estendeu a taça ao alto, na direção de uma luz e balançou o vinho. — Soube que essa foi a pedida com a minha amiga... Vinho.
— Foram rápidas, hein! — ri surpreso, seguindo a sua frente e parando com certa distância. — O que houve? Ela está bem? Você está bem?
— Estou feliz — sorriu. — Você provavelmente apaixonou minha amiga, mas eu fico muito feliz que tenha conseguido ter um bom momento com ela.
Confesso que não soube o que sentir quanto àquilo naquele momento. Era bom realmente ou ela estava sendo irônica e eu tapado... o mais provável.
— Que cara é essa? — Ela riu.
— Não sei se é bom.
— É um elogio, não, seu bobo?
— Quando gozei para ela... eu estava pensando em você. — A memória chegou a me fazer arrepiar. — Isso me faz sentir um cafajeste horrível! — suspirei.
Ela foi sutil, mas fugiu o olhar de mim.
— Não sei bem se... Acho que... — Meneei a cabeça, respirando fundo. — D-desculpa, ruiva. — Eu me aproximei para beijá-la com a saudade que eu tinha.
— L-loiro. — Ela não negou o beijo, mas ainda interrompeu, pousando a mão em meu peito e fitando meus olhos com certa apreensão. — E-eu vim...
Não consegui me impedir e voltei a beijá-la. Envolvi sua cintura e ela acabou gemendo baixo. O corpo chegou a arrepiar, meramente por ouvi-la.
— Foi pensando nesse gemido... — Beijei o canto de sua boca. — Pensando nesse corpo... — Acariciei suas costas e pousei as mãos em sua cintura.
— Menino! — Ela riu.
A maquiagem era sutil demais para esconder o rubor se espalhando rápido por seu rosto. O olhar verde, comumente forte, ficou rapidamente frágil.
— D-desculpa, ruiva. Acho que...
— Você não vai falar isso! — Ela ficou mais séria.
Soou impositora e me olhou da mesma forma.
— Estou estragando tudo. — Respirei fundo.
— Está mesmo! — Ela assentiu rápido.
Pousei uma das mãos em seu rosto para fitar sua boca, tentando apenas guardar a memória daquela boca num canto especial da minha mente.
— V-vamos? — convidei ao fim.