Capítulo 23. Uma Boa Mulher

1047 Words
Tahoe Valley, South Lake Tahoe, California — Boa noite. Eu me chamo Lauren... — Sua voz no telefone era doce com uma simpatia bem notável. — B-boa noite. N-não esperava- — Pedi o número para Natasha. Ela falou do jantar, mas queria adicionar algo, se não se incomodar. — S-sem problema. Posso saber? — ri. — Sim, o amanhecer é lindo na montanha e ela é bem segura. Pode ser o destino após o jantar. — Tudo bem. Ainda te busco no mesmo lugar? — Sim. — Estava quase pronto, então não garanto chegar em dez minutos, mas quinze é o máximo! — ri. — Sem problemas. Até logo, Rodrigues! — desligou. Corri para incluir a mochila no porta-malas, listando tudo que precisaria para nossa segurança e conforto — excetuando o que podíamos alugar lá. O que eu não tinha, comprei no caminho e fui ao nosso ponto de encontro na praça em Lake Valley. Soube que ela já tinha as características do meu carro quando me aproximei e ela se levantou, sorrindo. Era bela com longos cabelos negros. Parecia mais velha. Alta e esbelta, tinha traços bem finos. Em cima da hora, só troquei a calça social por uma jeans, substituí a camisa social por uma camisa de manga comprida e o sapato por algo mais esportivo. Ela também estava vestida de forma mais casual, usava uma calça de lycra, o casaco estava enrolado na cintura e ela tinha uma regata bem simples. Tinha uma mochila nas costas e usava tênis — bem típico de alguém acostumado àquela atividade. — Boa noite! — Eu lhe sorri ao me aproximar. Ela me mediu de cima a baixo devagar, em silêncio, mas respirou fundo e sorriu para retribuir: — Boa noite, Rodrigues. Sou Lombardi. Lauren. — Italiana? — Surpreso, eu lhe estendi a mão. — Sim! — assentiu, me dando a mão e eu a tomei para seguirmos. — Não parece de terras tropicais — falou quando tomei sua bolsa para pôr no porta-malas. — Nasci aqui. — Fechei a mala para entrar no carro. — O que houve com a mudança? Ama a natureza? — Gosto da calma da montanha. Soube que é militar. Pode parecer que estou estereotipando, mas imagino que também goste. — Ela meneou a cabeça. Pareceu acanhada com a presunção. — Das companheiras, a natureza é a que estará presente em quase toda a vida de um militar — citei a fala de um superior. — Isso se provou verdade... — Não deve funcionar com todos, imagino. — Sem dúvida, mas acho que com a maioria — ri. — Não sei se julgará indelicado, mas posso saber sua idade? — Ela me olhou com atenção. — Dizem que é muito jovem e eu vejo um homem, não um garoto. — Vinte e um, mas sou um homem — sorri-lhe. O assunto acabou encerrando com ela ficando acanhada e eu também — não queria parecer safado. O jantar foi num restaurante perto da montanha, funcionava por todo o dia para salvar jovens estúpidos. Foi agradável, conversamos muito. Inteligente e carismática, ela falou de sua história e de seus sonhos. — E você, soldado, não tem sonhos? — Já era o fim da refeição. — Acho que já falei pela noite! — Ela riu. — Acho que estou... tentando ser agradável. — Não será desagradável se falar sobre seus sonhos. Por que seria? É bom imaginar! — sorriu largo. — O maior dos meus sonhos sempre foi e sempre será ter uma mínima participação na segurança e bem-estar do povo. A missão de ser soldado me comove... — Quando esse sonho nasceu? — Eu era novo. Meu irmão mais velho estudava e treinava para ser policial. Eu me espelhei nele. Achei fantástico me imaginar capaz de proteger pessoas. — Por que não entrar para a polícia? — Agora sou policial, mas antes eu via o quanto o Exército podia atuar além daqui. Pela América, claro, mas também pela vida. Isso me conquistou. — As raízes estrangeiras? — sorriu. — Louvável. Já falei de uns cinco sonhos, me fala mais um! — pediu. — Criei um sonho impossível — arfei, meneando a cabeça. — Podemos seguir? — sorri-lhe. Curiosa, ela aceitou a ajuda para levantar, pediu um vinho e as taças para sairmos. Alugamos a barraca e montamos. Não foi ruïm — já que lembrava infância. Ajudei com a fogueira e nos sentamos para assar marshmallows e continuar falando de frivolidades. Era uma noite bela. O céu limpo anunciava que o dia seguinte seria quente. A pouca intervenção de luz elétrica nos permitia ver as estrelas nuas. Muitas! Com a Baía próxima, os ventos vindos do Norte eram um pouco gelados. Não me incomodavam, mas não demorou para ela começar a esfregar os braços. — Trouxe algo — falei e fui até a bolsa para pegar a japona do Exército. — Ajudará a aquecer. Resisti a muito frio intenso com esse bom companheiro. — Obrigada! Deixei o casaco lá dentro — sorriu, me convidando para sentar ao seu lado. — Vou ser bem malvada e perguntar qual seu sonho impossível. — Vivi algo que me machucou muito. Isso me faz sentir e pensar muita coisa. Eu quero que pare, sabe? Respirei fundo, meneando a cabeça. — Isso afetou minha família e a única forma de não afetá-los mais é quando eu realmente estiver bem. — Complexo. — Ela pousou a mão sobre a minha. — Parece impossível! — Olhei-lhe. — Se passar ou parar de afetar tanto será muito melhor para todos. — A loira do hospital? — indagou e assenti. — Sou nova na sua vida, mas pode contar comigo, okay? — Obrigado. Ela se aproximou em busca de um beijo. Eu não queria, talvez por estranhar estar solteiro e isso fez com que eu pensasse muita coisa. Até me senti lento. Quando nossos lábios se encontraram, eu me rendi. O perfume era doce e suave. O toque era gentil. Não avancei em busca de sexo, nem ela. Conversamos, trocamos outros beijos e carícias, nada muito quente, e nos recolhemos na barraca. Isso aumentou o calor, intensificando o amasso, mas só isso. Estável de uma forma muito agradável. Foi uma ótima noite de descanso. Um despertar ainda melhor sob aquele céu.
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