Capítulo 55. Passado e Presente

1085 Words
Tahoe Valley, South Lake Tahoe, CA Não lidei nem um pouco bem com a ocorrência com a menina, mas as burocracias correram com a normalidade que eu já esperava. Reportamos na delegacia e tivemos nosso expediente agitado e silencioso — quase como se estivéssemos de luto pela mocinha finada. Van e eu nem nos despedimos ao sair do trabalho. Simplesmente não havia ânimo para trocar quaisquer palavras e ambos sabíamos disso. Era uma merda fracassar. A única esperança era contar com o perito para entender o que ocorreu naquela maldita manhã e, felizmente, eu ainda tinha expectativas de receber algo. Não peguei o carro, optando por voltar para casa a pé — afinal, eu não me sentia em condição de dirigir seguramente... a cabeça estava meio avoada. — Rodrigues? — Uma mulher me parou na rua. A julgar pelas rugas no rosto, aparentava estar atingindo os sessenta. Ainda tinha o corpo bem cuidado e vestia uma roupa muito mais jovem que ela. — Posso ajudar, cidadã? — Eu franzi o cenho. — Você é o Rodrigues? — Ela perguntou. — Eu não a conheço, senhora. — Desconfiei, dando um passo atrás e já pensando em sacar a arma. — Posso pedir que se identifique, por favor? — Filho de Lucas Rodrigues. Antigo CEO do consórcio de educação no Brasil... Ehrr... EduInfra... Acho que era esse o nome — arfou, pensativa. — Pode se identificar? — insisti em pedir. — Sou Clara. Rodrigues. — Ela deu um sorriso gentil. — Qual nome ele te deu? — perguntou com o semblante diferenciado, não sabia dizer se era felicidade ou se o olhar exprimia algo como paranoia. — Levi. Avó? — Eu a medi de cima a baixo. Ela tinha pinta de europeia. Pele clara, longos cabelos loiros bem escorridos e olhos claros. Não era muito alta, mas era bem esbelta. Quase uma modelo. — Levi... — Ela assentiu com a cabeça e seus olhos lacrimejaram. Tentou se aproximar, mas eu ainda dei o passo para trás e ela perguntou: — Não posso? — Desgosto do contato com desconhecidos, senhora. — Tentei não soar rude. — Entendo quão emotiva pode ser a ocasião, mas deve se conter. Seu olhar tornou a passear por mim com uma minúcia que me incomodou. Ao me ver armado, ela deu o passo atrás e ficou claro que a intenção não era boa. — Se me der licença, tive um dia exaustivo... — Você lembra seu avô! — Ela me interrompeu. — Forte, como ele. — As primeiras lágrimas caíram de seus olhos. — Alto... Nem posso acreditar no que vejo. De repente, entendi que não era paranoia, era obsessão: o olhar me fitou com a saudade e a emoção de um obcecado que encontrou seu objeto favorito. — Perdão. Boa noite! — Eu a cumprimentei. — Diz ao seu pai que... é lindo! — falou alto. — E... se tomar coragem, por favor... eu só quero um abraço. Acabei parando — sim, bobo demais. Contudo, consegui suprimir esse lado idiotä para não dar mais nenhuma resposta. Segui o caminho devagar. Felizmente, ela não veio atrás, senão me veria obrigado a atirar em quem poderia ser a minha avó — nem sabia se isso era ruïm ou bom. Quer dizer, eu sabia que minha vó materna foi uma grande mulher, batalhadora e muito amorosa com os seus — notava-se no jeito da mãe e Matheus. Contudo, eu não só tinha poucas informações de minha vó paterna como essa informação estava atrelada a um histórico nitidamente ruïm. No caminho, claro, eu desviei e não voltei para minha casa. “Estou indo até a mãe. Não se preocupa, se estiver no meu apartamento”, mandei para Matheus. “Também estou na mãe”, sua resposta foi rápida. Quase ergui as mãos aos Céus em agradecimento ao divino, mas acabei não conseguindo me ater a isso. Chegando, Matheus estava sentado na varanda, como era habitual o pai fazer em noites de insônia. Ele tinha uma cerveja em mãos e olhava para o nada. — ‘Tá tarde, não!? — Ele repreendeu. — C-conheci... alguém. — Foi só o que consegui falar para resumir. — Como estão a mãe e a pequena? — Já se recolheram. Sabe que elas dormem cedo, principalmente quando o pai não ‘tá! — deu de ombros. — Mulher estranha... Quer definir essa mulher? — Falou que é mãe do pai, resumidamente. Por alguns traços é realmente possível duvidar, mas preferi evitar. Ela insistiu bastante, pareceu louca! — arfei. — Nem sei se é. — Ele riu. — Sempre que falar dela o pai vai associá-la a loucura ou doença, mas eu nunca lidei com um doutor falando sobre isso. — Acho que o pai está certo e ela é louca! — Se você fala... — Ele riu. — Senta aí, ‘pô! — Ele pegou uma cerveja no cooler ao seu lado para me dar. — O que há entre eles, você sabe? — Só sei que o vô era um doido. Tipo, doido mesmo. Fez muito mäl ‘pro pai. De abusos sexuais, a muita violência e até administração de remédio, mas, pelo que sei, o papel da vó foi não só a omissão... Eu o olhei de soslaio. — O pai diz que, muitas vezes, a vó escolheu que ele fosse sofrer os abusos ‘pra salvar ela mesma disso... — Cacetë! — Torci o rosto. Logo, pensei que a forma como me olhou ao falar do vô estava atrelada a alguma sequela bem bizarra... — Pois é! — deu de ombros. — Na prática, ela merece um tiro na testa, eu acho. Mas, o pai nunca pensou em realmente lidar com ela de algum jeito. — Até agora... Por isso aquela história de vó naquele dia — falei e ele assentiu com a cabeça. — Enfim, como foi seu dia de trabalho? — Horrível! — Sentei ao seu lado no chão. — Vim porque lidei com uma vítima fatal que parecia a Chloe. Isso mexeu comigo o dia inteiro. — Respirei fundo. — Ela estava bem ao subir. Não teve nenhuma dificuldade e a mãe não parecia tão estressada, logo, eu imagino que o dia tenha sido bom para elas. — Amém! — Juntei as mãos em oração. — Por que não está dormindo ainda? — perguntei desconfiado. — Acho que as preocupações da família vêm se acumulando demais e isso mexeu com meu sono. Até eu conseguir apagar a insônia com cerveja, estou aqui.
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