Capítulo 17. Como Mafiosos

1015 Words
Bijou, South Lake Tahoe, CA Estive ocupado no apartamento por toda a manhã. Uma vizinha nova levou uma torta de carne, tinha sotaque europeu e foi bem simpática. Esse acabou sendo o meu almoço. Só o trabalho braçal na mudança dos móveis já podia contar como exercício, mas fui protocolar. Tomei meu banho e me arrumei para uma hora de academia. Tive o meu segundo banho para me arrumar com um bom sport social. Fucei a conta para saber quanto tinha disponível — eram alguns bons dígitos. Basicamente, passeei nas calçadas com as mãos no bolso para comprar o carro primeiro — pensando em qualquer possível emergência com Chloe. Já saí dirigindo e segui direto à casa dos meus pais. Era o momento da tarde, Chloe estava sentada na varanda, debruçada sobre um extenso papel. O pai estava sentado numa cadeira próxima. Com sua habitual xícara de chá, tinha muita tranquilidade no semblante e até ria um pouco. Os longos cabelos da pequena estavam presos num grosso coque, mas ainda tinham uns três centímetros que balançavam com mínimo vento. Estava tão distraída no desenho que fazia que só me percebeu quando eu parei na entrada da varanda. Sorrindo largo, ela largou o que fazia para correr. — Boa tarde, pequena! — Eu lhe sorri. Aquele abraço apertado podia levar calma para o mais estressado dos corações. Peguei-lhe no colo para ir até o pai pedir sua benção, mas ele apenas assentiu com a cabeça, quando me aproximei, e falou: — Que Deus te abençoe! O desenho no chão parecia um vestido de cor azul, talvez algo que ela tenha visto em alguma princesa na televisão. Era bem bonito, traço delicado. — Como estamos? — Eu a perguntei, colocando-a no chão. — Parece que uma obra-prima está nascendo... — Está! — Ela voltou ao seu papel. — Isso é ótimo. Não vim para ficar agora, mas podemos sair para um sorvete amanhã — sugeri. — É bom... Está calor! — Ela franziu o cenho. — Então, sorvete amanhã! Chloe comemorou, mas logo voltou a focar em seu desenho e eu apenas segui para dentro de casa. A mãe estava deitada no sofá com seu bloquinho. Ensaiava mentalmente e isso a fazia gesticular bastante. Tinha fones de ouvido para se desligar de tudo — parte do seu processo para praticar para o palco. Eu me aproximei para beijar sua testa. — Deus te abençoe! — Ela sorriu, acariciando meu rosto. — Já almoçou hoje? Tomou café? Assenti com a cabeça para ela não precisar tirar os fones e apenas subi as escadas para ir à academia. O papel ainda estava estendido na parede e eu optei por não o remover ainda. Recolhi o resto do dossiê e fui no quarto de Chloe para pegar uma das cartolinas. Não era nenhum desenhista, mas eu só precisava de um esboço da Costa Oeste com uma leve noção dos limites entre os estados — seria suficiente. Marquei as iniciais dos homens que observei à noite na réplica. Peguei o PC para sentar em qualquer um dos equipamentos e observar a tal Blanche. Pensava que era o nome da mulher, mas era o nome de uma agência de modelos que recrutava principalmente na América Latina e América do Sul. O nome era famoso e muito contratado na Europa ocidental ou oriental; a mulher, Katerine Blanche, tinha um perfil reservado, não deixava rastros. Era impossível dizer em que momento a agência se tornou fachada, mas já era conhecida por seus quarenta anos de atividade, tida como exemplar. Filha de um figurão russo, ela tinha uma ótima formação em moda; fazia serviços de caridade em diferentes partes do mundo. Inacreditável! — Trabalho de casa? — O pai até me assustou. — Um pouco... Tudo bem, meu pai? Levantei e deixei o PC de lado. Ele tinha duas garrafas de cerveja e o semblante parecia mais sério que o normal — apesar de ser bem difícil detectar seu humor com exatidão. Ele sentou no equipamento da frente, respirou fundo e me estendeu uma das garrafas, pedindo: — Conta o que houve com a loira. — Descobri da criança enquanto o garoto estava quase morrendo. Acho que isso resume a missa — falei. — Devo me tornar suspeito de tentar matar o garoto. — Tudo bem. — O pai apenas assentiu com a cabeça. — Espero que fique bem e não perca a cabeça. — Não precisa se envolver com isso, meu pai. Quanto mais equilibrado ele parecia, pior estava. — Eu não vou fazer nada — sorriu. O tom de voz negava com muita nitidez. — Não é necessário mesmo. Não faço ideia do que houve, mas sei o que aconteceu na casa de Lindsay e ninguém pode afirmar que eu tentei matar a criança. — Só a dor de cabeça incomoda... — Era incrível como ele soava como um mafioso nessas horas. — Soube que o garoto voltou com a emergência do filho. — A gente se estressou um pouco. Esse deve ser o principal motivo para seguirem por essa linha de investigação, mas não tem como frutificar. Disso eu estava mais do que certo. Se realmente investigaram o que a criança expeliu, o mero fato de estar parcialmente digerido provava minha inocência. — Estou pensando em me mudar, meu pai. — Sua mãe ficará toda emotiva — riu. — Tenho certeza! — Eu também ri. — Não quero agitar muito as coisas. Chloe está crescendo, precisa de uma estabilidade que minha vida não permitirá. — Gosto que pense nela — sorriu, olhando o mapa na parede. — Com o trabalho que tem agora, é muito mais fácil atingir seu emocional, se estiver aqui. — Nem considerei isso... — Meneei a cabeça. — O trabalho do seu pai é considerar tudo! Vivemos disso há muito tempo — riu. — A porta da casa sempre estará aberta para você... nunca se esqueça! — Obrigado, meu pai. — Sua família te ama muito! — Ele se aproximou para me abraçar. — Se tem um sonho, agarra ele; se tentarem frustrar seu sonho, matamos por ele.
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