Bijou, South Lake Tahoe, CA
Obviamente, o dia de trabalho não foi tão bom.
A cabeça estava mexida. Ainda precisei lidar com Van e não tinha a menor intenção de falar com ele para não me lembrar de Lindsay — o que era impossível.
Ele não tinha culpa de ela ser louca, mas as coisas sempre se embolam bem fácil quando já estamos nos sentindo desequilibrados, mesmo minimamente.
Felizmente, Van colaborou e não encheu o saco.
Atendemos cerca de três ocorrências; brigas de bêbados, resumidamente. Já era errado beberem na rua, beberem para brigar era pior ainda.
No fim do expediente, Natasha estava com a moto ao lado do meu carro. Vestia uma roupa mais casual que o habitual e, dessa vez, não estava fumando.
— As pessoas falam... — Eu ri ao me aproximar.
— Gosto quando falam de mim. É publicidade!
— O que houve? — Eu me aproximei para beijar sua testa. — É uma visita um pouco... diferente...
— Vamos à minha casa. — Foi breve.
Apenas assenti para ir ao carro e a acompanhei até seu apartamento. Ela não explicou nada enquanto seguíamos e eu não perguntei — crendo haver sigilo.
Levei a mão à arma quando vi o homem parado na porta. Natasha ainda segurou minha mão e disse:
— Calma, loiro. É segurança do meu cliente.
Tornei a assentir com a cabeça para medi-lo de cima a baixo. Natasha se aproximou com seu ar casual.
— Demorei? — perguntei a ele.
— Não, senhora. Ele já chegou, bastava você.
Ela assentiu com a cabeça para abrir a porta e entrar. Convidou o homem após ele falar algo no rádio que tinha consigo — era apenas um segurança mesmo.
— Se incomoda se tirar? — perguntei a Natasha.
— Eu não. Acho é lindo de ver — brincou, rindo.
Segui ao seu banheiro para tomar um banho e tirar a parte de cima da farda. O calor estava horrível!
Sem modos, também tirei o coturno para ter os pés descalços no piso gelado — ajudaria como calor.
— Hm... gosto assim... — Natasha riu.
O tal homem já tinha chegado. Tinha o perfil de um morador de Bel-Air — nada contra ou a favor, só foi a impressão mais forte que me causou.
— Policial? — Ele perguntou.
— Sim, só agente de patrulha. Rodrigues. Levi.
— Sou Walter. O que vocês têm? — Foi ansioso.
— Vamos resgatar sua filha. O plano é todo do loiro — falou Natasha. — Eu já me movi para ter o veículo de fuga, ele é quem vai entrar.
— Onde?
— Um clube de strippers... casa noturna... e lugar com divertimentos esquisitos, se é que me entende. — Natasha respondeu enquanto segui ao sofá para sentar.
O homem cerrou os punhos e respirou fundo.
— Meus hom-
— Sem homens. — Eu o interrompi. — Não sou do tipo herói ou algo similar. É uma situação delicada e estamos nos aproveitando de outra operação.
Ele franziu o cenho. Tinha um segundo segurança que pareceu ultrajado, antes que levasse a mão à arma, eu apenas saquei a pistola para manter o olhar focado no tal cliente. Destravei para falar:
— Não queremos ameaças aqui, não, senhor?
O homem apenas olhou na direção do segurança que relaxou a postura, apesar de parecer incomodado.
— Não temos uma data exata para agir porque precisamos esperar a outra parte se mover. Estamos monitorando cuidadosamente e podemos tirá-la.
— Não tem garantias? — O esquentadinho riu.
— Você tem? — Olhei-lhe de soslaio.
— Meninos... — Natasha falou, respirando fundo.
— No que sou necessário? — O cliente perguntou.
— Depende do quanto é influente — respondi. — Mesmo que tentemos não fazer barulho, é impossível! Temos que extraí-la e já movê-la para receber cuidados.
— Evito a imprensa com facilidade. — Ele disse.
— É um bom primeiro passo. Aqui nós só temos um hospital. Não temos como saber se os agentes que ficam lá são confiáveis ainda... Recomendo uma casa.
— Tirar ela daqui seria o mais sábio! — O esquentadinho falou. — Não pode considerar deixá-la-
— Num primeiro momento, a melhor forma de esconder é no lugar mais óbvio. Se eles forem atrás, primeiramente vão buscar estaduais e tudo mais.
— O loiro tem um ponto. — Natasha falou. — Podemos ter um segundo veículo, assim é possível que seus homens trabalhem para nos ajudar.
— Podem ter dez, se quiserem! — O cliente arfou.
— Então eu quero dez — falei.
Até Natasha me olhou com surpresa.
— Todos iguais até a placa. Consegue?
— O modelo que quiser.
— Ótimo. Mesmas tecnologias aplicadas. A ruiva já lidou com um carro, não!? — Olhei-lhe e ela assentiu. — Mostra para ele e recebemos outros, eu tenho rotas.
— Menino... — Natasha riu.
— Vamos fazer parte da fuga no carro e parte a pé. Sei como tirá-la... Seguir um pouco ao norte pode ajudar. Tem muita natureza, muita água, pouca gente.
— Consigo a casa. — O cliente assentiu.
— Ótimo. Uma equipe médica também, por favor.
Ele assentiu com a cabeça e Natasha levantou para servir vinho. Fui até o computador dela para mostrar dez rotas diferentes no mapa.
— Conseguem gravar? — perguntei.
— Copiado. — O segurança mais velho disse.
— Na prática, eu vou ao carro mais próximo da Baía. Três carros passam pela floresta, ali eu posso descer... circundo parte da Baía a pé.
— Aí fica desprotegido. — Natasha se preocupou.
— Você tem um rifle, não é!? — sorri-lhe.
— Okay... entendi. — Ela assentiu.
— Por que nessa direção? — O esquentadinho perguntou. — Ali deve ser uma parte dominada por eles.
— Improvável. É um campo aberto em maioria. Se eles usam, é apenas para receber veículos. Não há sentido em manter homens ali. Muito exposto.
— Observo pelos próximos dias.
— No rio, eu apago as pegadas e saio em Tahoe Keys. Muita casa, muito mais exposição em meio a alguns poucos corpos d’água. É o ponto perfeito.