Stateline, South Lake Tahoe, CA
— Bem-vindo de volta, soldado! — O irmão sorriu largo ao me ver. — Sentimos muito a sua falta! — riu.
Fiquei surpreso ao vê-lo, mas o abracei forte. Não foi uma noite tão boa de descanso, as feridas nas costas já começavam a criar casca e isso incomodou muito.
Acordei bem cedo. Lidei com os exercícios e comprei um café para pegar o carro e ir aos meus pais, pensando em levar a pequena ao colégio.
Para a minha surpresa, Matheus estava na varanda bebendo um café despretensiosamente. Ele era mais baixo que eu e tinha compleição bem mais forte.
A mistura filipina e brasileira era forte nele, que acabava sendo, dos três, o que mais parecia com a mãe.
— O que houve para estar aqui? — ri. — A vida em Sacramento deve estar bem calma — brinquei e ele riu.
— Tirei férias para vir.
— Vida boa. — Acabamos rindo.
Ele voltou a se sentar e eu entrei para ir à cozinha. O pequeno furacão Chloe pulou de onde estava para me abraçar e eu lhe retribuí o carinho.
— Hm... casa cheia! — A mãe comemorou.
— Pois é. Bom dia, mulheres da minha vida.
— Dia! — Chloe sorriu largo.
Estava radiante e não era para menos. Eu a peguei no colo para ir à mãe pedir sua benção.
— Que Deus te faça feliz. — Ela me fez um carinho no rosto. — O que você e seu irmão estão tramando?
— Ainda nada. Ao menos, ele não me avisou — ri.
— Estou de olho! — falou desconfiada.
— Vim me oferecer para levar Chloe no colégio — falei e Chloe comemorou, obviamente. — O que acha da ideia? — Eu a perguntei.
— Matheus pode vir também? — pediu.
— Acho que sim, por que não pergunta?
Eu a desci do colo e ela saiu correndo.
— Não estão tramando nada? — A mãe insistiu.
— Acho que não. O que houve?
Ela pareceu preocupada, mas apenas meneou a cabeça. Péssima mentirosa, sua melhor forma de tentar omitir algo era simplesmente ficando em silêncio.
— Cadê o pai?
— Ainda dorme... Chegou tarde e cansado. — Ela me serviu uma dose de café. — Difícil vê-lo tão cansado.
— Posso sugerir que ele descanse... Sei lá. Aproveitamos que Matheus está aqui e levamos o pai para acampar... ele sempre dorme muito — ri.
— Pode ser uma boa ideia... — Soou convencida.
— O irmão falou que vai! — Chloe gritou da sala e subiu correndo, provavelmente para se arrumar.
A mãe terminou de servir a mesa e sentou. Não tardou para Matheus chegar e Chloe descer. O pai não desceu, mas ainda foi uma refeição em família.
Era cedo. Saímos os três por volta das seis e meia.
Chloe tinha muito o que falar e ela acabou sendo a maior percussora dos assuntos da manhã, falando de absolutamente tudo que ela podia.
Talvez guardasse assuntos para essas ocasiões.
Deixamos a pequena no colégio e Matheus se comprometeu a buscá-la. Voltamos ao carro e ele apenas cruzou os braços para me olhar.
— O que há? — perguntei.
— Uma denúncia em Sacramento. Ela te descreveu, fiquei desconfiado. Não sabia que estava de volta, nem que tinha ingressado na polícia.
— Lindsay? — Franzi o cenho.
— Denunciou que você drogou uma criança para abusar dela e ainda encobriu com sua influência na polícia. — Ele ficou sério. — O que houve entre vocês?
— Nossa! — suspirei. — Fui preso no Exército. Fiquei um ano até eles terminarem de investigar para aplicar uma pena... que não foi tão severa assim...
— Que isso, mano. N-ninguém falou...
— Nem a mãe sabe... Enfim, ela terminou comigo enquanto eu estava preso. Decidiu se juntar ao Van... daí vem a criança... ajudei? — Tentei ser breve.
— E de onde ela tirou essa história?
— A criança realmente sofreu uma tentativa de homicídio, na melhor das palavras. Consegui salvá-lo. Eu estava na casa dela... saudade, sabe!?
— Não sei, mas não difere — deu de ombros. — Fiquei preocupado. Por isso vim. De repente...
— A primeira tese aqui também era que eu era o corno ressentido. — Meneei a cabeça. — Enfim, não imaginei que ela tentaria ir mais longe.
— Porrä, ela foi em Sacramento! — exclamou. — E que história é essa de que você é policial agora?
— É parte de um sonho — sorri. — A gente pode só resumir assim? É mais seguro para nós dois.
— De boa. Tem que se cuidar.
— Estou tentando. Só dificultam! — ri.
— Enfim, acabou que nada foi formalizado. Só vim ver como estava, se precisa de algo... Temi que a guerra tivesse mexido com sua cabeça, sei lá.
— Definitivamente mexeu. Não me tornei um predador sexuäl ou assassino sanguinário — gargalhei e ele também riu —, mas não dá para sair incólume.
— Imagino... Disso eu entendo!
Ele deu partida no carro.
— Dez horas? — perguntou para mim.
— Sim. Quatro.
— Essa escala é gostosa — riu. — O pessoal aqui é normalzinho ou muito problemático?
— Ainda não me adaptei. Já tive um bate-boca desnecessário com Van... Tudo aponta para muito mais problemáticos do que normais.
— Tenso. Em Sacramento é o antro desse tipo de merda. — Ele meneou a cabeça. — Não me envolvo, mas é bem difícil manter os sapatos limpos da lama.
— Complexo. Talvez possa me ajudar. Estou investigando corrupção nas instituições da Costa Oeste e seria bom ter sua confirmação para alguns rostos.
— Ajudo com o que eu puder — deu de ombros.
— Ótimo. Podemos ir ao meu apê... Eu busco o carro e você vem comigo para eu te mostrar o que tenho até agora — falei e ele assentiu com a cabeça.
Meu dia de trabalho acabou começando mais cedo do que eu esperava e, felizmente, seria bem mais agradável com meu irmão mais velho.