Caneta:
Tava na minha sala, contando as notas, conferindo os lucros da semana o dinheiro tava entrando bem armas, proteção, transporte, o de sempre o som do ventilador velho rodando no teto competia com o estalo das páginas do caderno de contabilidade.
Foi aí que o rádio chiou.
— Chefe… tem uma menina aí macacão azul, tá pedindo pra falar com o senhor.
Disse que não quer recado, quer falar direto.
Franzi a testa.
— Menina?
Aí caiu a ficha me lembrei que o Douglas, meu sub, já tinha falado dela.
Aquela da oficina, chefe bateu de frente com um dos nossos com uma ferramenta na mão uma doida.
Isso sem contar a parte de quando ele entrou lá e ela o recebeu com tudo esse dia vi ele vir fervendo.
Na hora, dei risada gargalhei mesmo. Douglas ficou puto, saiu pisando duro.
Mas eu fiquei com a imagem dela na cabeça uma garota de trança, suja de graxa, peitando cria armado como se fosse dona da rua.
Agora ela tava aqui no meu domínio subiu até o topo do morro sozinha e isso… isso já diz muito.
Levantei da cadeira fui até a janela da sala, dei uma espiada lá fora, só por reflexo mas já sabia o que fazer.
Claro que eu já tinha pesquisado sobre ela. Aqui ninguém aparece do nada.
Florela filha do Gomero Antônio o antigo cara do movimento gente boa, cabeça. Amigo do meu pai nos tempos antigos.
Mas largou tudo quando a filha nasceu. Preferiu a graxa à pólvora sumiu pro canto dele, abriu oficina, criou a menina no meio das ferramentas e dos pistões.
E agora a filha dele tava aqui no meu portão querendo falar comigo.
Abaixei o rádio e disse:
— Manda subir e avisa se ela vier com coragem, recebe respeito mas se vier com desafio, vai sair tremendo.
Ela ia entrando.
Passo firme, olhar reto cabelo preso numa trança apertada, macacão sujo de graxa e uma folha na mão. A filha do Gomero. Sozinha.
Um dos meus, o Braga, encarou ela de cima a baixo, com aquele ar de superioridade que ele sempre tenta manter mas bastou o olhar dela direto, sem piscar pro Braga virar o rosto como moleque flagrado fazendo besteira.
Quase ri...
A menina era desafiadora olhar afiado ombro erguido.
Sorri de canto, disfarçado gosto de gente assim gente que sobe sem rastejar.
— Então é você...
Falei, descendo o tom da voz, só pra ver se ela mantinha a postura.
E manteve nem piscou.
—Florela: Sou eu!
— Veio questionar o novo contrato?
perguntei, já abrindo espaço na mesa pra ela mostrar o que tinha.
Ela não esperou convite sacou a folha e esticou no tampo um papel todo rabiscado à mão, cheio de números, horários, valores, anotação na margem a letra meio torta, mas os cálculos… afiados.
Tinha ali a rotina da oficina, os gastos fixos, as margens de lucro, até as interrupções quando o fluxo da comunidade aumenta. Tudo explicado tudo na linha.
—Florela: Isso aqui é a real
Ela disse, batendo o dedo na folha
-Florela: com esse valor que vocês estão pedindo, a gente quebra eu e meu pai e vocês perdem mais do que ganham.
O silêncio bateu forte na sala olhei pra ela. Depois olhei de novo pra folha.
Corajosa e esperta.
Do tipo que faz conta com graxa na mão.
— Você subiu até aqui pra me dizer isso?
Ela me encarou.
—Florela: Subi porque prefiro falar olhando no olho do que ficar obedecendo papel.
Soltei o ar pelo nariz respeito não se pede. Se impõe e ela impôs.
Pensei por uns segundos, depois puxei a folha pra mim queria reler com calma, com cabeça fria não por medo por estratégia.
Porque talvez, só talvez, valesse mais ter essa menina como aliada… do que como inimiga.
Peguei a folha, dei uma olhada rápida de novo, só pra ver se era tudo isso mesmo e era a garota sabia o que dizia os números batiam.
Mas não podia ser tão fácil ninguém entra aqui, joga papel na minha mesa e sai achando que mudou as regras não sem mostrar se aguenta a pressão.
— Quantos anos você tem mesmo?
—Florels: Dezesseis.
— Dezesseis
repeti, com um sorriso torto
. — E já sobe aqui falando de planilha, operação, impacto financeiro… Tô impressionado.
Ela cruzou os braços, esperando o próximo movimento.
— Sabe o que eu fazia com dezesseis?
- Com dezesseis, eu já carregava corpo pra dentro de carro, dava ordem pra homem barbado, e fazia gente sumir por menos do que um atraso de pagamento.
Ela não reagiu nem um tremor só aquele olhar de quem ouve, mas não se dobra.
— E mesmo assim ..
continuei, levantando da cadeira e indo até ela
-tô aqui, ouvindo uma garota de dezesseis anos me dizer que o valor que eu coloquei no papel tá errado.
Fiquei de frente perto queria ver se ela recuava não recuou.
— Você tem coragem. Isso eu respeito. Mas coragem sem consequência é só burrice. Então me diz se eu mandar dobrar o valor, o que você faz?
Ela respirou fundo o olhar dela acendeu como faísca.
—Florela: Dobrar o valor é quebrar a oficina e se quebrar a oficina, vocês perdem o ponto mais antigo do morro meu pai sempre pagou certinho, mesmo quando era outro comando vocês sabem disso se quiserem jogar sujo, joguem mas vão perder mais do que eu.
Silêncio.
Gostei não era só boca.era cabeça.
Fiquei ali por uns segundos, encarando ela como se estivesse diante de um espelho do passado lembrei do pai dela. Gomero. Forte, mas justo largou tudo pra criar a filha e agora a filha subia o morro pra proteger ele.
Sentei de novo encostei na cadeira puxei um cigarro, mas nem acendi só fiquei olhando.
— Tá bom, Florela vou pensar você me deu mais do que desculpa me deu lógica mas esse jogo não se joga só com papel.
Aponto com o dedo:
— Quero ver o que você faz se eu disser “não”. Porque nem sempre quem tá certo vence e isso, você ainda vai aprender.
Fiquei ali esperando. Achando que ela ia gaguejar, agradecer, ou descer a cabeça.
Mas não a menina me olhou de cima a baixo, daquele jeitinho dela, meio calada, meio calculando, e soltou:
—Florela: E você? Quantos anos tem?
Franzi a testa aquela pergunta me pegou fora do script soltei uma risada curta, tipo quem estranha, mas responde.
— Vinte e sete. Por quê?
Ela respirou fundo, e aí veioseco, direto, sem dó como quem prega a chave de f***a no coração da verdade.
—Florela: Vinte e sete sabe o que é triste? Um cara de vinte e sete anos, sentado num trono feito de medo, jogando de Deus num lugar onde só tem gente tentando sobreviver.
Fiquei quieto o peso da fala bateu mais forte que ameaça.
—Florela: Você podia ser inspiração, podia ser ponte mas tá virando muro. Só que muro, uma hora, cai. E quando cair, espero que não leve gente boa junto.
Ela deu um passo pra trás, mas sem virar as costas.
—Florela: Você disse que eu ainda tenho que aprender mas deixa eu te falar uma coisa saber dizer não pra quem quer tudo é mais difícil do que apertar gatilho eu não subi aqui pra ganhar eu subi pra mostrar que a gente ainda existe e que se tiver que cair, a gente cai em pé.
Deu meia-volta, devagar sem pressa sem medo e saiu da minha sala deixando um silêncio que eu não ouvia há muito tempo.
Fiquei ali parado, olhando pro papel ainda sobre a mesa. A letra dela. Os números. A coragem. O olhar.
Dezesseis anos. E já mais inteira que muito homem velho nesse jogo.