Florela:
Os dias passaram sem muito alarde os turistas na favela ousavam mais do que deviam, tirando foto onde não deviam, olhando com aquela curiosidade b***a de quem nunca precisou dividir a vida com a falta.
Eu, sentada no meio-fio com Breninho, tentava esquecer o aperto no peito com um pão com mortadela e uma Coca-Cola gelada era o que tinha e, naquele instante, parecia até luxo.
A graça frouxa daquele momento quase me fazia sorrir mas o calor... ah, o calor tava c***l pingava da testa, grudava na roupa, fazia o corpo cansar duas vezes mais rápido esses dias têm sido tensos, sem novidade, só aquela espera silenciosa pela resposta do chefão todo mundo comentava, especulava diziam que o novo líder não era mole, que ia mudar tudo mas ninguém sabia ao certo.
Foi aí que um menino apareceu correndo ofegante um envelope amassado na mão suada.
— xx: É pra oficina o dono mandou
Ele disse, entregando direto pro Breninho.
Meu estômago virou suei frio.
— O que é isso?
Perguntei, mesmo sem querer saber.
—Breninho: Os novos termos... e os valores
Falo com a cara travada, do jeito que ele fica quando algo não cheira bem.
Engoli seco meu pai não tava ali tinha ido medir a pressão ainda bem esse calor só fazia ele sofrer, e se ele visse aquilo ali, naquela hora, talvez passasse m*l de vez.
Pegamos o envelope e abrimos devagar, como se fosse uma bomba e no fundo, era.
Nova taxa nova porcentagem pra repassar. Nova lista de “serviços autorizados”. Nova regra de silêncio a oficina agora respondia direto ao chefe novo, e não tinha mais aquela margem de manobra que meu pai sabia costurar.
—Breninho: Vai dar r**m eles vão apertar a gente.
— A gente quem? porque eu não vou baixar a cabeça pra qualquer um que apareça com papel e ameaçazinha.
Mas, por dentro, eu tremia.
Porque ali, naquele envelope, eu senti que muita coisa ia mudar e que nem eu, nem meu pai, nem a oficina estavam prontos pra esse novo jogo esperei meu pai voltar. Quando ele chegou, suado, meio ofegante, ainda limpando o rosto com um pano encardido, entreguei o envelope sem dizer nada ele leu calado, linha por linha, como se cada palavra pesasse um quilo.
— Gomero: Esses caras tão achando que mandam em tudo…Mas fazer o quê? A gente não vive no mundo das escolhas aqui, ou aceita, ou some.
Claro que ele não gostou ninguém gostaria. Mas não ficou outra opção precisávamos seguir trabalhando as contas não esperam, e a oficina era tudo que a gente tinha.
Fingi estar calma continuei o resto do dia como se nada tivesse acontecido passei peça, ajudei com o óleo, dei lanche pro Dinho que colava todo dia só pra ver os motores de perto mas, por dentro, minha cabeça não parava o calor, a tensão, tudo fazia meu sangue ferver.
Quis ficar aqui para ele não me ver sair cedo ele não desconfio desde meus nove anos, sempre passei mais aqui do que no barraco, na noite, deitada na minha cama improvisada entre peças velhas e ferramentas penduradas, tomei a decisão.
Eu ia subir o morro pensei bem e era a única maneira.
Não era pra fazer escândalo, nem pra ameaçar ninguém mas eu precisava falar. Não com o subchefe, aquele que só repete ordem feito eco eu queria falar direto com o chefe queria olhar nos olhos de quem achava que podia ditar o futuro da minha vida e da oficina do meu pai com um envelope amassado.
Era arriscado? Era mas eu cresci ouvindo o barulho de motor, não de tiro e talvez por isso mesmo eu nunca aprendi a ter medo da hora errada.
No dia seguinte, acordei cedo amarrei o cabelo numa trança apertada, vesti meu macacão azul, sujo de graxa, e coloquei no bolso a chave de f***a que meu pai me deu quando eu era pequena.
Respirei fundo e, antes de sair, deixei um bilhete:
"Vou conversar. Se eu não voltar, já sabe quem procurar."
E subi asso por passo, com o coração disparado e a coragem saindo pelo olhar.
Subi o morro sozinha.
Não levei arma, só minha chave de f***a no bolso e o coração apertado no peito. O calor ainda tava pesado, o céu meio nublado, e o cheiro de queimado vinha de longe, talvez de algum lixo ou só do clima seco e nervoso do dia.
O caminho era conhecido, mas o destino, não a cada passo, o barulho do mundo ia mudando menos risadas, menos panela batendo, mais silêncio um silêncio que não é paz é aviso.
De longe, já dava pra ver a barreira.
Não era só de madeira e metal era feita de olhares duros, de dedos no gatilho, de caras que não sorriem era a fronteira invisível que todo mundo da favela conhece a linha que separa os moradores dos vilões.
Quem mora ali sabe que não é bem separação é mistura forçada, convivência forçada mas naquele pedaço específico do morro, ali sim, era outra coisa era onde só subia quem tinha permissão, ou quem não se importava em voltar.
Eu me importava mas subi mesmo assim.
—xx Ei, garota!
Gritou um dos olheiros, erguendo a mão e apontando o fuzil de leve, só pra marcar presença
— xx:Tá perdida?
— Tô não vim falar com o chefe com o chefe não com os recado.
Ele me mediu dos pés à cabeça viu meu macacão sujo, a trança apertada, a mancha de graxa no rosto não falei mais nada. Fiquei ali parada, firme, segurando o olhar dele.
—xx: Espera aí
Ele disse, levando a mão ao rádio.
Um minuto. Dois. Cinco.
O tempo ali não era o mesmo tempo de cá embaixo era mais pesado, mais lento, mais incerto.
Depois de um silêncio tenso, ele me olhou de novo.
—xx: Vai. Mas se fizer gracinha, não desce.
Balancei a cabeça e segui o coração disparado, mas o passo firme ia falar com o chefe ia mostrar que aqui embaixo também tem voz.
E que a filha do Antônio da oficina não era só graxa e martelo era pulso e coragem também.