Florela:
Hoje é dia de Gre-Nal. Isso quer dizer uma coisa só bagunça na oficina.
Pinga, cerveja, rádio no último volume e os véios gritando feito doidos.
Uns de azul, outros de vermelho, e eu? De macacão suado e com a chave inglesa na mão, tentando manter a sanidade.
—Zé: Ô Florela! Cadê a 13?
Gritou do Gol, com o boné do Grêmio todo sujo de óleo.
— Tá na tua frente, cego!
Gritei de volta, quase tropeçando num cabo de chupeta largado no chão.
Meu pai já tava no canto da oficina, mexendo num motor, com a cara enfiada até o pescoço de graxa e um copo de cachaça do lado o Breninho tava encostado no portão, rindo da treta entre o Tonhão e o Djalma, que discutiam qual time era mais ladrão de campeonato.
- Eu juro, se essa partida terminar empatada de novo, vou jogar essa caixa de vela na cabeça de alguém!
Falei, sem saber se era brincadeira ou ameaça de verdade.
O cheiro de churrasquinho improvisado se misturava com gasolina velha, e uma fumaça estranha saía do escapamento de um Palio que ninguém sabia de quem era.
Gritaria vidro de garrafa rolando no chão. Muita falação e nada resolvido.
E eu ali no meio, a única com foco, correndo de um lado pro outro, alcançando ferramenta, limpando graxa, desviando de copo e xingamento.
—Breninho: Florela, a carne tá no ponto! Gritou
— Tô trabalhando, cäralho! Se quiser me agradar, troca o óleo daquele Gol que tá esperando desde segunda!
A verdade é que na oficina, dia de jogo era quase feriado mas pra mim não.
Porque se o jogo termina, a conta continua. E quem segura o tranco sou eu, com chave de f***a na mão e coragem na alma.
De repente, a gritaria estourou:
— GOOOOOOOOL!
O Tonhão saiu pulando com o copo na mão, o Djalma já derrubou a cadeira, e eu, no susto, larguei a chave de roda pro alto sem nem pensar.
Virei no reflexo, tropecei na caixa de ferramenta aberta e tentei me equilibrar, mas foi tarde demais.
PLÁ!
A chave bateu com força no ombro de um homem que tinha acabado de entrar na oficina ele nem se mexeu eu congelei.
Era um cara alto, forte, braço tatuado, jaqueta preta, óculos escuros espelhados e um rádio preso na calça e, no outro lado da cintura, uma Glock enfiada bem à mostra.
Fiquei muda. Senti o sangue sumir do rosto. O grito do gol virou um zumbido ao longe.
O Breninho arregalou os olhos o Zé do Gol, que berrava feito doido, engasgou com a cerveja só meu pai continuava mexendo no motor, alheio ao caos, como se não tivesse acontecido nada.
O homem virou devagar pro meu lado a chave ainda tava pendurada pela ponta dos dedos dele ele me encarou por cima dos óculos, sério, sem piscar eu engoli em seco.
— Moço… foi m*l, de verdade. Eu… eu não vi você chegando
murmurei, quase num sussurro.
Por dentro, eu já tava rezando tudo que sabia:
"Pai nosso que estais no céu, livrai-me do m*l, da Glock, do rádio e do olhar atravessado desse homem armado no meio da minha oficina, amém.”
Ele olhou a chave… depois pra mim… e deu um meio sorriso. Frio.
— Doguinha: Cuidado aí, mocinha. A próxima pode doer mais.
E jogou a chave de volta, que caiu no chão com um cling seco passou reto, sem pressa foi em direção ao meu pai.
— Doguinha: Antônio… posso falar contigo?
Antônio ninguém chamava meu pai assim. Só gente antiga... ou perigosa meu estômago virou.
— Gomero, quem é esse?
Perguntei baixinho.
Mas meu pai já tava de pé, limpando a mão na calça e olhando sério.
O jogo rolava no fundo, mas aqui na oficina… o verdadeiro jogo acabava de começar o homem ficou ali, no meio da oficina, olhando tudo como quem avalia um cavalo cansado antes do abate.
Passou o olho nas prateleiras tortas, no chão sujo de óleo, nas latas empilhadas, nos carros meio montados, na bancada improvisada com pedaço de porta velha.
Depois me olhou de novo não disse nada. Nem um "bom dia".
— Doguinha: Só vim dar uma olhada no lugar.
A voz dele era baixa, seca
-Doguinha: á que agora é nosso.
Meu pai assentiu com a cabeça, sem muita conversa.
O cara andou devagar, foi até o fundo da oficina, passou o dedo numa peça enferrujada, fez uma careta de desdém e virou as costas saiu como entrou silencioso, perigoso, a Glock ainda brilhava na cintura assim que ele sumiu pela porta, o ar voltou pros meus pulmões.
— Quem é esse cara, pai?
Meu pai respirou fundo, passou a mão no rosto sujo de graxa e respondeu com aquela calma que me deixava mais nervosa ainda:
— Gomero: Esse aí... é o Sub.
— Sub?
—Gomero: Subchefe do morro. Segura os corres da boca enquanto o chefão tá fora.
— E ele que é o novo dono da oficina?.
Ele só assentiu com a cabeça.
Eu fiquei parada no meio da oficina, com a chave de f***a ainda na mão e o coração batendo tão alto que parecia querer sair pela garganta Subchefe, subiu aqui, olhou tudo, e agora a gente tá... por baixo.
Se antes as contas não fechavam, agora era o medo que batia na porta.