Caneta:
Meu vulgo é Caneta não por escrever poesia, mas porque cada movimento meu deixa marca ao contrário de muitos, não me criei só no barulho da Glock eu venho na mente, na estratégia, na frieza subi o morro com agilidade, visão, e porque ninguém pensou como eu pensei.
Tenho 27 anos, pele marcada de história, corpo fechado, olhar que lê a alma forte, sim mas é no silêncio que eu mais imponho. Diferente dos chefes comuns, eu trago uma pegada diferente elegante, precisa, misteriosa.
No alto do pico, onde só os que sabem ver além do óbvio conseguem chegar, estou eu. Porque poder de verdade... não é só quem atira, é quem sabe quando não precisa.
Comando o tráfico do morro com meu braço direito, o Douglas vulgo Doguinha.
Enquanto eu penso, ele executa onde eu falo baixo, ele impõe no grito crescemos juntos, mas cada um entendeu seu papel. Eu sou a mente, ele é o impacto.
Ele conhece cada viela como se tivesse nascido nelas e talvez tenha mesmo o que eu traço no pensamento, ele cumpre no tempo.
Aqui no alto, ninguém sobe sem ser visto. Porque onde tem visão, tem comando.
E onde tem Caneta e Doguinha... o morro cala e respeita.
A noite tava quieta, mas minha cabeça, não.
Do alto da sala, eu via as luzes do morro piscando, como se tivessem tentando me dizer alguma coisa era ali que eu respirava, pensava, traçava o morro inteiro dorme mais tranquilo quando eu tô acordado.
Tava girando a caneta entre os dedos vício antigo quando ouvi a porta abrir não precisei nem olhar só tem um que entra assim, com passo firme, mas sem pressa. Doguinha.
Ele veio direto, como sempre celular numa mão, papel na outra, olhar de quem já leu o terreno antes de pisar.
— Doguinha: Chefe… os caras da Maré mandaram recado, ele disse querem abrir rota nossa no porto seco caminhão entra e sai sem fiscalização mas querem 20%.
-Vinte. Eles acham que estão lidando com quem?
Peguei o papel, li por cima o silêncio na sala pesava mais que qualquer discurso o rádio tocava um samba antigo.
— Vinte é muito eles tão acostumados com amador a gente não é isso.
Doguinha deu aquele sorriso de canto, como quem já esperava.
— Doguinha: Já preparei outra proposta quinze por cento e proteção na descida. Com isso, a gente entra com mais força no centro só precisa dar o aval.
A mente dele trabalha rápido a minha, um pouco mais fria.
— E se recusarem?.
— Doguinha: A gente fecha com os de Rocha Miranda dez por cento mais arriscado mas a carga chega.
Fui até a estante, servi um gole de uísque. Preciso sentir o peso da decisão antes de falar.
— Fecha com a Maré quinze por cento mas deixa claro que é agora… ou nunca e avisa os de Rocha Miranda pra ficarem em standby se alguém piscar… a gente troca o tabuleiro.
Doguinha assentiu, já digitando com ele, a execução é certa.
Voltei pra janela.
O morro continua pulsando mas agora, sou eu quem dita o ritmo.
Ele já ia saindo quando virei de leve a cabeça, ainda olhando o morro pela janela.
— Doguinha... e os novos pontos? Já viu a gomeria?
Ele parou no meio da passada, como se soubesse que essa pergunta ia vir.
-Doguinha: Vi sim. Lugar discreto, mas movimentado oficina de dia, conversa fiada de noite a menina lá... trabalha bem, mas não é só mão de graxa não tem olho esperto vê mais do que devia.
Isso me fez franzir o cenho gente que vê mais do que devia... ou vira aliado ou vira problema e problema no meu terreno, só respira se eu deixo.
— Tem alguém por trás?.
—Doguinha: O velho, pai dela cara fechado, quase não sai da oficina mas rola boato que o tal Gomero já teve ligação com gente grande e o ex sub do morro anda batendo ponto por lá de vez em quando coincidência, chefe?
-Coincidência não existe.
Quero nome, rotina, e o que entra e sai daquela gomeria nos últimos quinze dias. Disfarçado sem alarde não mexe com a menina nem o pai ainda só observa.
Doguinha assentiu, dessa vez mais sério.
Quando eu uso "ainda", ele entende o peso ele saiu sem dizer mais nada. E eu voltei a girar minha caneta a gomeria...um lugar pequeno demais pra chamar atenção.
E talvez por isso mesmo... seja o que mais merece.