Florela:
Hoje o dia foi corrido na oficina desde que aquele cara que aluga o lugar falou que ia passar o ponto pra outro, a tensão aqui não sai do ar dizem que agora é de um do movimento o futuro? Tá nas mãos de Deus… mas, sinceramente, não acho que Deus queira cuidar da gente o tempo todo.
O Breninho comentou que o pai dele ouviu essa história no bar que o novo dono é gente "do corre" isso significa duas coisas: o aluguel vai subir e a segurança vai cair. Ponto na favela é caro, ainda mais com nome no meio.
Eu fico só sacando as contas e, olha… não batem tem o aluguel do nosso barraco, comida, luz, ferramenta que quebra, parafuso que some, e agora mais esse rolo só de pensar já me sobe um enjoo.
Na aula, os números giram na minha cabeça não vou mentir não prestei atenção em nada só olhei uma hora quando uma menina fez piadinha da minha blusa tinha um furo nem tive tempo de trocar saí tarde da oficina, cheguei por um triz, só tinha essa limpa e, sinceramente?
Não tô indo pra escola desfilar tô vivendo pra estudar se elas não entendem isso, problema delas.
No intervalo, eu e o Breninho sentamos lá no canto do pátio, perto do muro descascado ele dividiu comigo um enroladinho frio e um suco que parecia mais água com corante.
— A conta não fecha, Breno
Falei, olhando pro chão.
-O aluguel do barraco, a oficina, a comida, a luz… esse mês já virou fumaça e nem chegou no fim.
Ele mastigava devagar, olhando os moleques jogando bola lá na quadra.
-Breninho: Meu pai disse que o novo dono do ponto quer subir o aluguel já no mês que vem.
— Lógico, né? É do movimento vai querer tirar grana de tudo favela pra eles é máquina de dinheiro.
Ele me olhou de lado, com aquela cara de quem entende sem precisar dizer muita coisa.
— Breninho: E se a gente cair fora? Vai abrir oficina onde?
-Suspirei dei um gole no suco quente.
— Não sei. Só sei que, se subir muito, não dá meu pai tá se matando de tanto trampo, e mesmo assim tá difícil eu fico girando os números na cabeça, tentando resolver igual na aula, mas ali não tem fórmula, não é só desespero mesmo.
—Breninho: Cê devia era fazer os cálculos na vida real, não no caderno
Ele disse, meio rindo, meio sério.
— E eu faço, Breno todo santo dia.
Ficamos em silêncio a conversa era curta, mas o peso dela ficava ali, entre nós, mais forte que qualquer matéria da escola.
Toco o sinal e nós entramos as meninas sempre olhavam com desdém, mas eu ignorava estava ali para aprender, não para fazer social a aula passou devagar, mas chegou ao fim.
Na saída da aula, eu e o Breninho estávamos encostados no muro, esperando o calor baixar pra descer pro barraco.
A menina que tinha rido da minha blusa mais cedo passou por nós toda montada: cabelo alisado, mochila de marca, tênis branco brilhando como se nunca tivesse pisado no barro me olhou de canto, com aquele sorrisinho torto de quem acha que tá por cima.
Mas foi só dobrar a esquina que a máscara caiu.
Um cara parou de moto bem na frente do portão moto preta, sem placa, barulho forte.
Ele tava com uma corrente de ouro que brilhava mais que o sol, pulseira grossa, relógio que nem sei dizer se era de verdade ou só caro de aparência e o detalhe uma pistola na cintura, bem à mostra, encaixada no moletom aberto.
A menina subiu na garupa como quem entra num carro de luxo nem olhou pra trás.
O cara deu um leve aceno pros moleques do portão, todos se afastaram sem que ele dissesse nada.
O motor roncou e a moto foi embora cortando o beco.
— Tá vendo? essa aí ri da minha blusa furada, mas se pendura num cara que mata e morre fácil.
Ele deu de ombros.
—Breninho: Ela escolheu. Cada um segura o que planta.
— É. Mas tem coisa que só nasce torta mesmo.
Respondi, ainda olhando o rastro de fumaça da moto sumindo.
E eu ali, com minha blusa furada e a alma limpa, pronta pra descer a viela e encarar outro turno de oficina porque pra gente, o luxo é poder dormir sem dever nada pra ninguém.