Houve um tempo em que eu não tinha certeza, mas você acalmou minha mente.
Não há dúvida de que você está no meu coração agora.
Patience | Guns N' Roses
— Ele vai te odiar por isso! — Tentei alertar a Abby sobre a teimosia dela em querer fazer uma festa surpresa pro seu irmão, ao mesmo tempo que eu vasculhava uma pilha das suas roupas no chão da sala.
Abby era uma acumuladora nata, aquele tipo de pessoa que o guarda-roupa é esborratado de roupa, mas quando vai sair diz que não tem nenhuma. Poderíamos passar um dia inteirinho arrumando suas coisas, no caso noite, pois já passa da meia noite e meus olhos pesavam de tanto cansaço.
— Relaxa! Ele vai sobreviver a isso. — Ela dizia sem dar tanta importância pra as psicoses sem sentido do Will. — Só preciso que me ajude a fazer um bolo e uma lista de convidados...
— Espera! Vai ter uma lista? — Perguntei pasma, vendo que realmente ele ia falecer de raiva no dia do seu aniversário. — Quantas pessoas está pensando em convidar?
— Ok. Samantha: cuida do bolo e Abby: cuida sozinha dos convidados. — Sorriu cinicamente.
Logo a preocupação invadiu minha mente, já era tarde e o ele ainda não tinha chegado.
Depois daquela "D.R" feia com a Lise na minha frente no estacionamento do Burgues, eu vim embora sozinha caminhando pela rua, dobrei a fadiga do meu corpo e com certeza ele deve estar chateado comigo agora, por que saiu com toda velocidade na moto.
É lógico que tudo aquilo tinha a ver comigo. Ela quase me fuzilou com os olhos sem contar que foi super desnecessária com aquele seu comentário do "Will fazer uma caridade" em me levar na garupa daquela maldita moto. Eu não tinha pedido uma carona, ELE que tinha me oferecido e foi um erro meu ter aceitado de primeira.
— Já que estamos falando em convidados... — Comecei limpando a garganta, vendo como poderia chegar nesse certo ponto com a minha amiga.
— Huh? — Ela arqueou a sobrancelha, como se já soubesse a pergunta que iria vir. — Quer saber sobre a Lise, né?
Assenti com a cabeça, mordendo os lábios e passando os olhos pelo relógio que já está beirando 1 hora da manhã.
Onde ele está?
— Sam, — Ela engoliu a seco, antes de continuar — Você sabe que tem algo entre eles dois, ficaria meio estranho chamar todo o ciclo de amizade dele e não chamar ela.
— É claro, longe de mim atrapalhar eles dois. — Falei convicta com uma pitada de sarcasmo — Só que... Sei lá! Ela é tão ciumenta assim? — Tentei sondar, da maneira mais sutil possível, por que pra falar a verdade minha consciência está bem pesada e preocupada também, por ele e pelo o relacionamento sádico que nutre com a ela.
— Bem... — Me lançou seu olhar desconfiada. — Não sei, a Lise não é tão minha amiga quanto mostra ser. Ela meio que força a barra pra tá mais próximo dele e ver melhor tudo que ele anda fazendo. Acho que ela só age assim quando tem motivo.
— Will deve dar motivos de sobra pra ela surtar dessa maneira. — Dei de ombros, tentando me confortar.
— Talvez... Mas e você? — Abby me encara com os braços cruzados e eu me senti em um julgamento, potencializando 3x mais a minha culpa.
— Eu não namoro.— Retruquei coçando a testa, incomoda — Não tenho por que me preocupar.
— Não to falando disso mocinha... Estou falando sobre o que tem entre você e o Will. Sam, eu não sou cega e te conheço desde de que nasci, seja sincera comigo. — Abby pediu séria e eu fiquei totalmente sem jeito.
Engasguei com a própria saliva e quase me enfiei no meio da pilha de roupas.
— Não tem nada!
— Sam!? Vai mesmo me esconder?! Eu vi que andam dormindo juntos, sem contar no boquete que eu, por sorte, quase flagrei. Sabe se lá quais pesadelos muito sérios eu iria ter depois de ver a sua boca em ação no p***o do meu irmão! — Minha amiga me olhava ofendida com dois sentimentos misturados: nojo por estarmos falando do seu irmão e tristeza por eu não compartilhar os detalhes da gente com ela.
— Abby, preciso te lembrar que a ideia da gente dividir o mesmo quarto foi sua? Obviamente que dormiríamos juntos. — Gesticulei com os braços dizendo o óbvio motivo de tudo isso ter iniciado, finalmente virando o jogo ao meu favor — Além do mais, você m*l tem tempo pra mim... Desde de que cheguei esse é um dos primeiros e raros momentos que estamos passando mais horas juntas e conversando uma com a outra.
Ela suspirou, ainda com um olhar triste e depois concordou.
— Você tem razão, me desculpe por isso. Prometo que vou ficar mais presente e... — Pausou me apontando um dedo, quase que como uma ameaça — É melhor saber muito bem pra que rumo tudo isso entre você e o Will está indo. Sabe melhor do que ninguém, que eu sempre quis vocês dois juntos. Só não quero que se machuque ficando com ele e sabendo do lance furado dele com outra garota.
Revirei os olhos e assenti com a cabeça, sentindo o impacto profundo da sua sinceridade como uma tapa na cara. Por minha sorte ela mudou de assunto e pro meu azar era um assunto pior do que o anterior.
— E o Luca? Sumiu do mapa?
Luca...
Eu estive tão distraída esses dias, estudando, sorrindo, brincando, conhecendo novas pessoas e trabalhando. Que não tinha lembrado muito dele. Estava apenas vivendo a vida de uma garota universitária, sem cobranças, sem estresses, sem paranoias e sem muitos forçação de barra psicológica. Isso era simplesmente magnífico.
Antes que eu pudesse responder a Abby sobre o Luca, Willian entrou pela sala, cruzando o apartamento com tudo, trombando e derrubando toda a pilha de roupas que eu e a minha amiga tínhamos empilhado nas últimas horas. Eu bufei com mais raiva por ele ter feito isso e minha boca se abriu para xinga-lo, porém eu desisti ao ver seus olhos totalmente diferentes, estavam apagados em puro ódio.
Ele seguiu para o quarto e bateu a porta com toda a força possível a ponto de estremecer todo o ambiente. Abby comprimiu os lábios, balançando a cabeça e sem dizer uma única palavra começou a catar novamente as roupas, como se nada tivesse acontecido.
Meu dedo indicador subiu, como forma de contestação e a minha boca se abriu novamente para falar, porém minha amiga me cortou antes.
— É melhor não... Você sabe.
— Abby, ele não está bem! — Eu disse perplexa por a sua própria irmã tratar aquilo tão banalmente — E você sabe que quando ele está assim...
— Eu sei Sam! — Me cortou de novo.
— Com qual frequência Abby? — Perguntei sem rodeios, por que pra ela está agindo dessa maneira eu poderia confirmar que estava acontecendo todo tempo.
Ela soltou todo o ar pesado dos pulmões e elevou os olhos até o teto branco da sala.
— Algumas vezes no mês. — Respondeu com a voz desconcertada, indicado as lágrimas chegando. — É sempre quando algo foge do seu controle, quando trabalha demais, quando estuda demais, quando ele não consegue lidar com alguma coisa... Já faz algumas semanas que isso não acontece. — Explicou calmamente quando a sua última frase saiu quase como um sussurro — desde de que você chegou ele não tem ficado mais assim...
— Ele precisa de ajuda! — Afirmei, sentindo o velho sentimento de angustia tomar todo meu peito.
— Sam, deve ser por conta do aniversário que está próximo, ou sei lá, algum trabalho da faculdade. Não é nada demais. Só... espera e amanha ele vai estar melhor.
Minha amiga tentou me tranquilizar, mas aquilo não era o suficiente. Eu sabia exatamente o que era aquilo com ele e saber que não poder fazer praticamente nada para ajuda-lo é a pior coisa que dá para se sentir.
Me levantei em um pulo, indo na direção do quarto decidida em ajudar e antes que a Abby tentasse me parar, eu a impedi.
— Me deixa tentar!
— Você sempre tentou, Samantha! Sabe que isso não depende de você, ele é simplesmente é assim. — Ela se meteu na minha frente, aflita. — Você vai se machucar!
— Me deixa tentar, de novo... — Pedi, sabendo que deveria ser a centésima vez que eu enfrentava uma crise dele de ansiedade ao seu lado e me fazendo alheia pro alerta da minha amiga sobre se machucar.
Por vezes eram as mesmas coisas, por outras, eram coisas totalmente novas que fugiam totalmente do nosso controle. Mas eu estava segura do que eu iria fazer, e o motivo? Por que me importo com ele, me importo além do que deveria me importar.
Bati na porta uma, duas, até cinco vezes enquanto o chamava. Ele não respondeu, então decidi entrar, com medo do que ia me deparar.
— Will?
Ele m*l conseguiu levar os olhos até mim, sentado no cama com a postura amofinada sustentando a cabeça com uma mão, mostrando, mesmo que metaforicamente a quantidade de peso que sua mente carregava, repleta de pensamentos fervilhando.
Ele pensa demais e por isso é refém dele mesmo.
O cheiro forte de nicotina invadiu minhas narinas, indicando que já deveria ter fumado uns três cigarros, arrisco dizer. Engoli a seco, sentindo todas as minhas paredes internas serem derrubadas pelo estado complicado em que ele se encontrava.
Sinto medo por imaginar que eu tinha alguma parcela de culpa naquilo, acredito que não seria algo relacionado totalmente a Lise ou qualquer outro problema. Eu o conhecia suficientemente bem, para afirmar, que tinha algo diferente o incomodando.
Observei alguns minutos calada, apenas ouvindo sua respiração cada vez forte e mais afobada, como se precisasse do ar que seus pulmões não bombeavam suficiente e obviamente o cigarro não o ajudaria em nada, só atrapalharia. Ele fechou os olhos e começou a passar a mão sob o peito até o pescoço, como forma de se acalmar. Não podia descartar a possibilidade de tentar fazer alguma coisa para ajuda-lo a melhorar, mesmo que com medo da sua reação.
— Podemos conversar? — Mordi os lábios, nervosa.
Esperei por uma resposta dele, mas ela não veio. Então continuei:
— Eu sei o que tem e...
— Quero ficar sozinho. — Disse friamente antes que eu terminasse a frase.
Não dei ouvidos pra ele e nem pro que o meu subconsciente me avisava, que de fato eu deveria deixa-lo sozinho. Então e me sentei ao seu lado, abraçando meus joelhos contra meu corpo.
— Não vou sair daqui. — Dei de ombros, o olhando de soslaio a sua visão vazia que encarava algum ponto no meio do nada.
— Samantha, — Ele me chamou sério, piscando vagarosamente e por um segundo seus olhos encontraram os meus — Eu quero ficar sozinho! Não me responsabilizo se eu for grosso com você... Eu só... Só quero ficar só.
— Tudo bem, vou ficar mesmo assim, nada me tira daqui — respondi o encarando firme para que ele entendesse que realmente eu não iria deixá-lo sozinho nessa — Nem mesmo sua grosseria.
Seu olhar quebrantou e ele relaxou os músculos, mesmo assim voltou a olhar pro nada novamente, ficando com a visão perdida. Entrelacei meus dedos com os seus e apoiei meu queixo em cima do seu ombro, sentindo cada vez mais de perto a sua respiração forte ir se acalmando.
— Eu não vou falar nada...— Falou baixinho, menos frio, sentindo que eu ainda esperava alguma explicação.
— Eu gosto do seu silêncio. — Eu afirmei aconchegando minha cabeça no seu colo e ele passou o braço em volta do meu pescoço me apertando para um abraço, finalmente baixando a guarda pra mim.
Levei a minha mão até o seu coração e deixei ela pousada ali. Checando seus batimentos que estavam acelerados mais do que deveriam estar dentro do peito. Ele assustou com o meu toque, mas mesmo assim não me impediu.
••••
Afirmo que se passou algumas horas, eu cochilei sendo vencida pelo cansaço e acordei ainda no seu colo. Willian estava na mesma posição, com os olhos vidrados, sem brilho algum, calado, apreciando o silêncio e a escuridão do quarto.
Seu coração estava batendo normal e ele já respirava melhor, mas eu sei que ainda não está tudo bem.
— É foda... — Ele quebrou o silêncio, quando viu que eu despertei e me senti melhor, vendo que ele queria por pra fora a angustia — Parece que nunca vai passar... Eu sinto meu peito apertar e uma dor aparecer, mas eu sei que nada doí, é tudo uma pegadinha fodida da minha cabeça que é toda fodida também. Eu sinto a boca seca, o coração palpitar, minhas mãos soarem e só consigo ter os piores pensamentos.
Me sai dos seus braços e o olhei profundo, afim de enxergar a sua alma e descobrir o real motivo, se é que tinha algum, pra ele está daquela maneira. Porém ele não me olhou de volta, realmente querendo esconder o que havia por dentro dele.
— Está assim por causa da Lise? — Perguntei em um fio de voz, com receio da sua resposta, ainda preocupada.
— Ela é 1% dentro de toda a merda dos meus problemas. — Seus lábios quase se curvaram em um sorriso amargo.
— E qual é o restante?
— Problemas com o trabalho, eu acho.— Falou quase inaudível, franzindo a testa.
Eu ainda não sabia que o Will trabalhava, contudo, eu acho que agora não é momento pra lhe questionar isso.
— Tem mais alguma coisa? — Questionei, tentando fazer com que ele se abrisse totalmente, eu sabia que tinha algo, ou apenas era a verdade batendo na minha porta depois de tanto eu fugir.
— Sam, por que continua tentando? — Willian me perguntou sério, dessa vez segurando o olhar no meu. — Sério, eu quero saber por que você continua fazendo isso?
Meu coração errou uma batida.
— Por que? Eh... — Tentei formular uma frase dentro do meu nervosismo. — Por que Will... Eu...
— Espero que tenha um bom motivo, por que eu sinceramente, desisti de mim mesmo há anos. — Sua frase saiu totalmente infeliz e quis bater sua cabeça na parede por dizer aquilo.
— Não diga isso, Will. Eu preciso te lembrar mais uma vez o cara maravilhoso que você é?
— Sem essa! Não comece... — Me cortou tenso, pude perceber seus olhos ascendendo em um brilho tenebroso.
— Me deixe terminar! — Falei firme, pegando sua mão forte.
— Sam, por favor... — Sua voz saiu banhada de nojo enquanto seus olhos esquadrinhavam meu rosto, cheio de ira — Você entende o quão ridículo isso é? O quão escroto é te ver dizer isso? Logo você?
Minha boca permaneceu aberta meu coração galopava totalmente fora do ritmo dentro do peito e eu tive que me controlar pra não soltar uma lagrima.
— Eu só ia dizer que... — Tentei falar mas ele logo me cortou abruptamente, mais uma vez.
— Que o quê? Que eu sou o fodido que você rejeitou? É isso? Ah! — Ele gesticulou com os braços cheio de amargura. — A senhora perfeitinha, que faz tudo perfeitinho, que age como a filha perfeita, ficando com o cara perfeito, dentro do relacionamento perfeito, tendo a vida perfeita? Vem dá conselhos pra mim? Logo pra mim? — Questionou incrédulo, com o seu maxilar trincado que combinava perfeitamente com postura rígida — Já disse a palavra perfeita? Ou é pouco para descrever a sua pessoa?
A força da ironia misturada com toda a revolta que tinha nas suas palavras, me atingiram de uma maneira catastrófica. Eu sabia que poderia me machucar com alguma coisa ou outra que ele dissesse sem pensar, mas aquilo era demais.
Não penso mais direito, meu coração não se governa mais como deveria se governar.
Por que caralhos eu continuo me importando com ele?
Me levantei do seu lado, limpando todas as malditas lagrimas que insistiam em escorrer por todo meu rosto com as costas das mãos. Olhei para ele ponderando a ideia de falar umas boas verdades na sua cara, mas não tive forças para isso, apenas segui em direção da porta, praticamente correndo dali.
Eu estava vendo outra pessoa, não era o meu Will. Eu me recusava em acreditar que ele poderia falar tanta merda pesada em sã consciência e para não destruir o que sinto por ele, decidi finalmente deixa-lo só.
Só tinha que ter respeitado as barreiras e ter mantido a p***a da distância desde do dia que meus olhos voltaram a se cruzar com os seus, impedindo que a chama viva de sentimentos se ascendesse dentro do meu coração, depois de fodidos 7 anos, malditos e horríveis 7 anos.
A ansiedade é f**a né galera? Quem tem ou quem convive com quem tem, sabe o quanto é punk e difícil de lidar. Enfim, não sou nenhuma profissional da área mas me encaixo no quadro dessas duas situações que citei acima e sei bem do que falo. Vamos tentar ser empáticos e sempre tentar ajudar. <3
Volto na sexta ♡︎
Beijinhos!!!