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Esperança

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Blurb

Liv Meier é uma grande professora de dança em Moscou. Um dia após o seu aniversário, ela recebe uma ligação de um número desconhecido para integrar o Balé Bolshoi. A vida parecia perfeita: sua mãe havia se reconciliado com seu pai, a vontade de continuar trabalhando aumentava e finalmente surge a descoberta de um grande amor. Porém, tudo parece escapar de seus dedos quando ela descobre uma doença em estado terminal. Começa então uma corrida contra o tempo pelo milagre da sobrevivência, se é mesmo possível sobreviver.

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A bailarina e o príncipe
— Um dia, Kate Durton, uma bailarina muito bela, veio a corte do príncipe de Birkasha. Ela foi aceita na corte e dançou a música da flauta, da cítara e do alaúde. Kate dançou a dança das chamas e do fogo, a dança das espadas e da lança. Ela dançou a dança das flores e do vento. E ao terminar, virou-se para o príncipe e fez uma longa reverência — disse Angelina, interpretando a narradora da peça de Khalil Gibran. Quando a cortina se abriu, eu fui ao centro do palco para atuar como a bailarina. A primeira coisa que veio em mente foi "O Lago dos Cisnes". O Cisne n***o fazendo piruetas suaves, subindo e descendo nas pontas do pés para criar fouettés maravilhosos. Eu ensaiei aquela coreografia repetidamente até os meus pés incharem e precisarem de um repouso semanal em uma banheira gelada, ainda longe da perfeição. Mas aquela peça era a oportunidade perfeita para fazer o movimento mais difícil do balé e conseguir os aplausos do público. Encarei os professores, abri os braços e pressionei a ponta da sapatilha do pé de apoio no solo. Fiz o primeiro giro com a outra perna inclinada. Durante o segundo intervalo, eu me endireitei no ar e me movi para a esquerda, buscando mais impulso para os outros fouettés, para encantar, impressionar e fazer mais giros que qualquer bailarina já fez na história. Porém, no fim da apresentação, cometi o deslize de cair. O público me aplaudiu, mas eu sabia que não tinha sido a minha melhor performance. — ... Então a bailarina virou-se para o príncipe e fez uma longa reverência — Angelina voltou a ler a peça, morrendo de rir ao me ver esparramada no chão. — E ele pediu que a bailarina viesse para mais perto. Desejei que as cortinas se fechassem para que eu sumisse e pudesse chorar até a maquiagem escorrer pelo meu rosto. Eu desejei que aquele dia fosse para sempre esquecido. — Linda mulher, filha da graça e do encantamento, de onde vem a tua arte tão nobre? — Jean me levantou, interpretando o príncipe, e limpou as lágrimas dos meus olhos. — Como gestiona todos os elementos em seus ritmos e versos? Paralisada na frente do príncipe, não respondi simultaneamente a sua voz, ainda tentando compreender como tudo aconteceu. Tentando entender como minhas pernas não executaram o que pedi. — Como gestiona todos os elementos em seus ritmos e versos? — O príncipe repetiu. — Majestade, respostas eu não tenho as vossas perguntas! — afirmei, conseguindo me recompor. — Somente conheço... a alma do filósofo vive em sua cabeça, a alma do poeta vive em seu coração, a alma do amor vive em sua garganta, mas a alma desta dançarina tola habita em seu corpo! O público bateu palmas mais forte que antes. Houve assovios e sussurros. Eu dei as mãos a Jean para encerrar a peça. Ele segurou minha cintura e me deu um beijo que não estava no roteiro. E as cortinas se fecharam para o príncipe e a bailarina pela última vez, pela última vez. Interpretar Kate Durton foi um misto de emoções, de altos e baixos. Acabou sendo um momento e um lugar marcante da minha vida, onde dei o primeiro beijo adolescente. Não faço ideia quantas meninas se apaixonam pelo garoto que lhe beijou pela primeira vez. Dizem que é comum. Outras dizem que não. O certo é que marca como uma cicatriz que se torna difícil de esquecer. No começo é estranho, depois lúdico. Os cabelos castanhos de Jean Grigorev balançavam em forma de caracóis, o sorriso namorador, os olhos em forma de amêndoas me fizeram entender por que ele foi escolhido para ser o príncipe de Birkasha. Beija-lo em uma ocasião qualquer me faria entrar numa fase que só nós podemos sentir. No entanto, beija-lo sob vestes reais, com suas gentis mãos me convidando a levantar, e toda aquela aura brilhando a nossa volta..., eu me apaixonei. Eu não decidi ser bailarina por acaso. Os elementos musicais sempre fizeram parte da minha história. Quando pequena, as pessoas não me perguntavam o que eu queria ser, geralmente elas me diziam o que eu ia ser. Era comum para mim improvisar dentro de casa, no colégio ou em qualquer lugar que tivesse um simples rádio de pilha e uma música tocando. O meu pai não queria que eu fizesse balé. Talvez ele pensasse que eu teria que me exibir de pernas para cima, enquanto um monte de homem me olharia sem parar. A minha mãe desejava que eu fosse médica, mas ficou contente quando me formei em dança. E eu fiquei feliz quando ela entendeu meus sentimentos. Para falar a verdade, eu nunca quis ser médica. Eu nunca tive vocação como ela. O meu talento sempre foi dançar. Eu tinha pernas longas e uma grande flexibilidade. Eu amava tudo que o meu corpo podia fazer. As pessoas diziam que eu realmente era talentosa para ser um bailarina profissional. Eu posso ensinar a arte da dança e encanta-los como meus passos. Mas não sou a primeira-bailarina de uma grande companhia famosa. Esses pensamentos ficaram para trás. Eu amadureci e entendi que a vida não é um mar de rosas. Nem todas as meninas serão a primeira. Ser coadjuvante também faz parte do processo. Cada vez que assisto as competições, minha régua do talento desaparece. Tenho as minhas crises de identidade, de pensar que não sou suficientemente talentosa ou que não consigo fazer tantas acrobacias. Aos poucos, o sonho de entrar num companhia clássica transformou-se apenas em um objetivo comum. Quando entrei na faculdade, desisti de ser uma bailarina profissional. Eu estava velha demais para o balé, mesmo sendo ainda tão jovem. No fim das contas, eu me tornei uma professora interessante, lecionando em um salão modesto, fazendo amigos e laços duradouros. Na pior das hipóteses, tive que morar em um apartamento alugado e ser mãe de alguns bichinhos, ganhando um salário que m*l dava para pagar as contas do mês. Uma vida simples e alegre. Só que uma coisa voltou a minha mente: as lembranças do tempo de colégio. Eu me sentia culpada por não conseguir realizar o meu sonho de adolescência. Eu me sentia frustrada por saber que todo bullying que sofri ao longo da minha vida não foi recompensado. Eu sacrifiquei o meu corpo, na esperança de fazer parte de uma companhia. As marcas me moldaram. Três cirurgias nos joelhos e transtornos psicológicos. O medo de engordar me levou a desenvolver anorexia e TOC. Por mais que eu estivesse magra, eu tinha medo de comer. Eu vomitava, fazia exercícios físicos exagerados e depois ia na frente do espelho observar quantos quilos ganhei. Ouvi coisas ruins sobre minha aparência, sobre o quanto minhas pernas eram magras. Dizer que isso não me afetou é engano. Principalmente quando os comentários vinham das bocas dos meninos. Eu notava como eles olhavam diferente para minhas amigas, só para minhas amigas. Isso me ajudou a enxergar os relacionamentos de uma outra forma e me fez acreditar que todas as chacotas foram uma motivação extra para alcançar algum lugar de destaque no mundo.

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