Lembranças

1231 Words
Antes de interpretarmos a peça de Khalil Gibran, a minha relação com Jean era apenas de colegas distantes. Nós nos falávamos brevemente, mas nunca tivemos nenhuma conversa duradoura durante um ano inteiro. Nunca participamos dos mesmos grupos de escola, da mesma roda de amigos ou algo que nos conectasse fisicamente. Eu tinha os meus amigos e ele tinha os dele. Lembro como se fosse hoje, quando nos vimos pela primeira vez. Era setembro de 2014, a segunda semana de aula do último ano do ensino fundamental. Eu estava ansiosa em ver a minha turma, principalmente porque todos os alunos se conheceram antes de mim e aquilo me dava medo de terminar o ano letivo sozinha. Jean estava em pé, escorado os cotovelos sobre a carteira, conversando com uma garota que mais tarde descobri se tratar de Angelina, a sua ex-namorada. Ele parecia encantador desde o começo, sempre mantendo o controle da voz e dominando as conversas. Os traços de seu rosto não eram pesados, nem leves. Era um misto dos dois. Ou talvez apenas eu enxergasse daquela maneira. Talvez eu criei aquele personagem em minha mente. Talvez Jean fosse perfeito demais para ser verdade. Mas sei que é difícil pensar dessa forma sendo tão jovem. Eu só queria viver a minha paixão de adolescência. Beijá-lo e namorá-lo. Casar e ter filhos. Morar em uma casa bem bonita e sermos felizes. Eu estava apaixonada muito antes da peça O Príncipe e a Bailarina, e o beijo que aconteceu na frente do palco foi apenas o empurrão que desabrochou meus sentimentos. Fazer amigos também parecia uma força tarefa para mim, uma espécie de calvário. Os meus três primeiros dias de aula se resumiram a copiar o texto no quadro e responder a chamada do professor. Depois o sinal de ir embora tocava e ninguém ouvia minha voz durante a manhã inteira. Só comecei a fazer amigos no segundo semestre, mas naquela altura todos pareciam muito íntimos. Tinham as fofoqueiras que sentavam no meio sala e falavam sobre festas, namorados e sexo. Os nerds que sentavam nas primeiras carteiras. A turma dos pop stars, quase uma ordem secreta de meninos e meninas liderados para a discórdia. E tinha a turma de Jean Grigorev, a dos garotos... bem, até hoje não sei como defini-los. Não eram nerds, bad boys ou populares. Era um grupo de cinco meninos que gostavam de jogar hóquei no gelo, na pista do colégio. Sinceramente, nunca entendi por que Jean gostava tanto daquele esporte. Não parecia divertido, muito menos empolgante. Pelo contrário, sempre aconteciam brigas com os times das outras turmas e vez ou outra alguém saia machucado. Louise, a primeira amiga que fiz no nono ano, não concordava comigo. Quando mencionei que torcia para o Lokomotiv, ela disse que hóquei no gelo era muito mais divertido que futebol. No entanto, o seu gosto por hóquei se dava mais pela paixão secreta que ela sentia por Simon, o goleiro do time da nossa sala, do que por qualquer outra coisa Apesar de tudo, Louise era legal, uma menina loira de cabelos ondulados e óculos de grau redondo, com um temperamento difícil. Gostava de conversar e fazer piadas com todo mundo. E não era o tipo de garota que levava desaforo para casa ou que seria esquecida tão facilmente. Eu nunca a esqueci. Ela me levou algumas vezes para assistir as partidas de hóquei e foi durante a final do campeonato escolar que tive a primeira conversa com Jean. Naquele dia, ele passou pelo corredor e foi direto para o bebedouro, evitando a arquibancada e a sua ex-namorada Angelina. Jean e Angelina namoraram por dois anos e terminaram no fim de dezembro, oito anos atrás. Talvez ela fosse muito imatura, já que estava sempre preocupada em parecer perfeita... Em manter as aparências acima de qualquer coisa, inclusive de sua própria saúde mental. Além do mais, Angelina tinha quinze anos de idade e Jean tinha dezessete. Por mais que as garotas amadureçam primeiro que os rapazes, era uma diferença considerável, levando em conta seus históricos. Enfim, o certo é que eles terminaram e somente por esse motivo eu estou aqui contando a minha história. Ou melhor, a nossa história. Eu não sei se Jean gostava de mim. Às vezes via ele me encarando, sem sinais claros de interesse. O nosso momento mais íntimo foi quando ele passou as mãos em meus cabelos e me perguntou se eu estava bem, em um dia que passei m*l e preferi ficar com a cabeça escondida entre as folhas do caderno. O seu toque foi um alento, quase um remédio. Se pudesse descrever a sensação, seria parecida com a de tomar banho quente em um dia muito frio, depois ir se agasalhar. Por muito tempo, não questionei o motivo de ele ter me beijado na peça. Fingi que tudo estava dentro do roteiro, como se eu não tivesse lido sua fala em nenhum lugar. Para mim, todas as explicações deveriam partir de Jean. Eu esperava que isso fosse acontecer em algum momento depois das férias. Em meus pensamentos, eu repetia o diálogo do príncipe de Birkasha me dando as mãos, imaginando que um dia, Jean Grigorev também fosse confessar o seu amor. Isso não aconteceu. As aulas voltaram em abril e eu não o vi. Todos os dias eu procurava com olhares de paixão, entre a gritaria dos alunos, e não o encontrava. Quando os professores faziam a lista de chamada e eu não ouvia a voz do garoto, era como se tivessem me dado um soco no estômago bem forte ou como se todas as manhãs tivessem perdido o brilho. Na primeira semana depois do recesso, ele também não esteve presente. Eu queria acreditar que estava doente. Talvez estivesse de atestado médico ou ajudando o seu pai na oficina, afinal. Mas o tempo passou e as minhas esperanças de vê-lo se foram. Quando soube que Jean se transferiu para um outro colégio, em uma outra cidade, eu fiquei doente, literalmente doente. Minha cabeça doía, tive febre e nenhuma vontade de sair de casa. Pode parecer loucura, mas quando estamos apaixonadas é assim, a paixão nos cega. A paixão não é, e nunca será como o amor. Ela é um entorpecente viciante, um ato de submissão, muitas vezes desnecessário. É fácil falar que paixão é coisa de criança quando já somos adultas e entendemos as coisas de um jeito mais maduro. Porém, para uma menina de quatorze anos, ninguém nunca será tão bom e belo quanto a nossa primeira paixão. Nós não temos tempo de torná-lo imperfeito. Zeramos seus defeitos e o tornamos um verdadeiro princípe. Depois que a família de Jean se mudou para São Petersburgo, foi um choque para mim aceitar que nunca mais o viria de novo. Eu pensei que perdi a maior chance da minha vida de ser feliz e demorei alguns anos para esquecê-lo. Só soube que tinha lhe esquecido para valer quando olhava suas fotos e não sentia mais o mesmo frio na barriga, as mesmas borboletas no estômago, o mesmo coração acelerado. Ou quando não me pegava mais pensando e rindo sozinha. Aos poucos, as lembranças do colégio ficaram para trás. Eu fiz novos amigos, terminei a faculdade, conheci novas pessoas, algumas das quais me arrependo de ter conhecido, e engatei um namoro que acreditei ser o amor da minha vida. Mas uma coisa inesperada aconteceu. Eu o reencontrei.
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