Quase uma década se passou desde a minha formatura do ensino fundamental. Para mim o tempo passou mais depressa do que imaginei. Um dia eu era só uma garota catarrenta brincando na chuva, pulando amarelinha nos dias de sol, de repente eu me tornei uma mulher cheia de responsabilidades.
Durante esse tempo, eu não fui intensa como gostaria. Não conheci novos países, não aprendi novas línguas, nem mesmo realizei os meus sonhos. Eu só... vivi, enquanto muitos colegas de turma se casaram e construíram famílias. Não quero pensar muito sobre o futuro. Se eu viver mais sete vezes que isso, serei uma senhora de bengalas e cabelos brancos.
— Boa noite, srta. Meier — o maître do Bunker me recepcionou.
— Boa noite, Ivan — respondi.
— Deseja reservar algum pedido?
— Agradeço.
Fazia algum tempo que não nevava em Moscou. Naquele 14 de fevereiro, o termômetro marcava 3⁰C, um frio tolerável para a época do ano, mas a síndrome de Raynaud me obrigou a usar luvas e gorros pelo resto da noite. Muitas pessoas foram comemorar o Valentine's Day com presentes e abraços calorosos. O restaurante Bunker parecia duas vezes mais cheio que de costume. Apesar de ser inverno, eu consegui aproveitar a data mais romântica do ano recordando o último verão. Sempre no dia 14, muitos de nós deixávamos para trás o luto das famílias que perderam seus filhos na guerra, a coragem dos soldados que morreram lutando para defender o seu país e a dor de Mariupol. Dessa forma, a culpa que carregávamos da destruição ucraniana e o ressentimento da destruição de nossa própria economia dava lugar a esperança de um futuro melhor.
Ainda que a Rússia seja tradicionalmente associada a solidão, admiramos os nossos amigos, respeitamos o amor, a fidelidade e o afeto. Para muitos, a guerra nos tornou monstros, mas o Valentine's Day era a prova viva que nossos verdadeiros sentimentos afloravam em ocasiões especiais.
Liv, sinto muito... não vou poder encontrá-la hoje. Peça a Ivan que debite todos os saldos da minha conta.
Albert
Foi uma ideia i****a jantar no Dia dos Namorados sem o meu namorado. Albert era engenheiro e tinha que revisar o projeto da empresa, no fim de semana. Então ficou de me encontrar no restaurante às 7 e pediu que eu reservasse nossas mesas com antecedência. Eu cheguei no Bunker muito adiantada, após fazer as contas e concluir que demoraria uns vinte minutos até o garçom preparar as porções de borscht. O tempo foi passando e as mesas se encheram de casais apaixonados. Depois das 7, liguei para Albert e ele não me atendeu. Gravei mensagens de voz e não obtive respostas. Só percebi que ele realmente não viria quando me retornou, meia hora depois, para cancelar o encontro. Não houve explicações de sua boca, apenas uma resposta curta e direta.
Acabei descobrindo que Albert era apenas um namorado comum, que acreditei ser o melhor namorado de todos. Eu acreditei que nos casaríamos um dia, talvez pelo medo de terminar sem ninguém, talvez para tentar enganar a mim mesma. Não aconteceu. Não porque ele jogou fora os meus discos de Kraftwerk e pintou os meus cabelos de açafrão. Simplesmente porque não éramos compatíveis, não éramos iguais... tínhamos objetivos diferentes.
Albert nunca gostou de dança, ritmo e música, nunca demonstrou entusiasmo no balé. Na verdade, ele já não demonstrava entusiasmo em nada do que eu fazia. Não tinha mais o mesmo brilho nos olhos daquela época em que nos conhecemos. Eu também senti que a nossa relação acabou caindo na rotina. Ao sábados e domingos ele vinha me ver. Durante a semana conversávamos por ligação. E depois tudo se repetia de novo, e de novo.
Desde que nos conhecemos no Hipódromo Central, aquele foi o primeiro Valentine's Day que não passamos juntos. E também foi o pior jantar da minha vida. Afinal, além do nosso aniversário de namoro, era o meu aniversário. Não fiquei triste quando Albert contou que não poderíamos nos divertir como os outros casais, tirar fotografias da praça à noite e contar histórias malucas sobre Halloween. Eu conseguiria viver numa boa com o marasmo de um relacionamento imperfeito, ser uma professora comum, vivendo uma vida comum. Na verdade, fiquei triste quando ele me deixou plantada na mesa do Bunker, enquanto todos comemoravam os seu encontros.
A três mesas de distância da minha, uma mulher bonita e elegante, acompanhada de seu marido, me olhava. Outras pessoas também me olhavam, de forma discreta. Eu queria ir embora, deitar na minha cama e dormir. Pensei em dizer ao maître que Albert não viria mais, pensei em cancelar o pedido e sair correndo pelas ruas, de tanta vergonha. Mas quando as porções de borscht terminaram de ser feitas, eu não pude pensar em mais nada. Um misto de surpresa, timidez e euforia tomou conta de mim quando olhei o garçom. Jean não havia mudando tanto. O rosto, apesar de mais cansado e menos convidativo do que minha memória guardava, continuava igual. Assim como o cabelo cor de creme, curto e repicado. Ele vestia um colete social branco para a ocasião e uma gravata preta. Nós conversamos um pouco sobre o cardápio, depois ficamos nos encarando, sem saber se deveríamos relembrar o tempo de escola ou agir como se nunca tivéssemos nos conhecido. Escolhemos a segunda opção.
— Desculpe incomodá-la. Teremos o show para casais, a partir das 9. — disse Jean — Você pode...
— Ficarei até às 8.
— Deseja mais alguma coisa?
— Não, obrigada.
— Tudo bem. Com licença. — Jean colocou um cartão na minha mesa e saiu para verificar os outros pedidos. Após anotar um por um, entrou na cozinha e trouxe as bandejas. Depois de servi-las, ele foi para perto do balcão, onde estava Ivan. Os dois disseram alguma coisa que não ouvi, Jean concordou com o maître e fez um gesto de longe para que eu esperasse mais um pouco. Eu deixei a gorjeta em cima do cardápio, pedi desculpas e fui embora chorando, sem saborear uma colher sequer de borscht.
Albert justificou sua ausência no Bunker jogando a culpa no chefe, dizendo que a empresa não lhe deu tempo suficiente para terminar o projeto. Eu acreditaria, se fosse i****a. E se não tivessem fotos suas daquela noite no perfil do i********: de um colega seu, junto com uma dúzia de homens segurando litros de vodca nas mãos. Além do mais, a própria irmã de Albert confessou que ele estava em pub, no sábado. Quando nos vimos de novo, não toquei no assunto do pub. Eu só olhei em seus olhos e disse que não éramos mais namorados.
Albert fez questão que eu desse explicações. As mesmas explicações que ele nunca me dava. Não aceitou o fim do nosso relacionamento. Disse que eu estava sendo apenas egoísta e até questionou a minha fidelidade. Terminar tudo acabou sendo mais doloroso do que imaginei. Doloroso o suficiente para que eu desejasse não namorar pelo resto do ano. Porém, reencontrar Jean acabou mudando muita coisa.