Bilhete

1091 Words
Quarta-feira, 5 de janeiro de 2022, amanheceu nevando em Moscou. Os rapazes vieram fazer os serviços logo bem cedo. Eles não parecem tão dispostos como ontem. Também pudera, está bastante frio lá fora. Hoje tirei um tempo para escrever em meu diário. Não sei se algum dia alguém vai ler esses textos, mas resolvi escrevê-los para deixar algo registrado depois de minha morte. Se, de alguma forma, eu sobreviver, guardarei o caderno como prova de que milagres existem. O meu dia foi interessante. Comi kasha com flocos de aveia no café da manhã, ouvi algumas músicas melancólicas e ganhei dois filhotes de Husky Siberiano do meu melhor amigo, Simon. Ele são lindos, dóceis e amáveis. Eu e Simon conversamos sobre a Síndrome de Lers-Hausen. E sobre a possibilidade ínfima de remissão da doença. Brincamos com os cachorros e assistimos alguns documentários na televisão. De tarde, fiquei um pouco sozinha e resolvi ler Elisabeth Kübler-Ross. Ela propôs uma descrição muito boa a respeito dos cinco estágios do luto pelos quais passamos ao lidar com a perda e a tragédia. Geralmente, pacientes com doenças terminais tendem a entrar em autodepreciação e precisam se apoiar em alguma coisa. Dessa forma, passar por cinco estágios do luto é a última chance para sermos felizes, mesmo sabendo que o nosso fim se aproxima. É doloroso aceitar que morrerei com vinte e dois anos de idade. Tenho medo de pensar na possibilidade de não conseguir viajar pelo mundo, dançando nos melhores palcos. Tenho medo de não conhecer pessoas incríveis, medo de perder minhas séries preferidas que serão lançadas somente no ano que vem. Até mesmo o simples fato de não acordar de manhã para observar o movimento das crianças nas ruas me assusta. Coisas que antes pareciam normais, tem um significado diferente agora. Sinceramente, não sei o que esperar da morte. Não acredito que exista alguma coisa além dela... pessoas, sol, nuvens, manhãs... Vejo a vida como um fio condutor da inexistência. E a inexistência não pode ser explicada. Ela não é dura, nem gélida, muito menos sofrível. É simplesmente tão vazia que ninguém consegue descrever com clareza. Pense, aconteceram muitas coisas durante a minha e a sua inexistência. Dinossauros nasceram e morreram. Plantas nasceram e morreram. As civilizações aprenderam a controlar o fogo. Houve guerras e revoluções tecnológicas, até que finalmente fomos colocados neste mundo. Não pareceram milhões de anos. Nós não sentimos o tempo correr. Não sentimos frio, nem calor. Não vimos, nem ouvimos barulhos. Nós simplesmente fomos colocados aqui, por algum motivo. Se é que exista alguma motivo. E a única certeza que temos é que vamos voltar para onde viemos, para tentar habitar uma região que talvez não possa ser habitada. Não me alegra morrer tão jovem. Eu quis me apegar a religião, eu quis acreditar em Deus. Só que a minha fé é racional e quanto mais penso na inexistência, mais sinto medo dela. Eu sou um milagre, ou apenas uma evolução do acaso que sobreviveu, e agora o universo está cuspindo? — Ele escreveu um lembrete de aniversário para mim — falei. — Liv, espero que Albert tenha dedicado boas palavras para você, amiga — respondeu Simon —, principalmente depois de deixá-la plantada naquele restaurante. — Não estou falando de Albert. Estou falando de Jean. — Jean Grigorev? — Esse mesmo. — O garoto que você beijou no fundamental? — Uhum. — Está brincando? Ler o bilhete de Jean me consolou. Eu não consegui disfarçar minha surpresa. Foi como se a neve tivesse parado de cair para que o sol brilhasse. Como se o tempo estivesse parado só para nós dois. A felicidade que senti naquele momento fez alimentar o meu ego, me fez acreditar que o garoto que amei um dia, estava mais perto do que nunca. Que o seu dia seja especial e cheio de coisas boas. A partir desta data, que Deus ilumine o seu caminho a cada manhã, trazendo bons momentos felizes. Parabéns pela pessoa incrível que você é! Feliz Aniversário, Liv! Jean Grigorev — Você ainda gosta dele, não é? — disse Simon, ao me ver corar. — Gostava, quando tinha quatorze anos. — Não é o que parece. — A mensagem foi apenas um uma cordialidade do Bunker. Ele trabalha lá agora. — Não diga... — É. Como garçom. Simon fez cara feia ao ouvir eu dizer a palavra "garçom". Ele não era rico, mas a sua família tinha influência para colocá-lo em empregos que não exigissem dois terços de seus esforços por noite. Na verdade, Simon odiava trabalhar em algo que exigisse qualquer esforço de sua parte. Quando nos conhecemos na aula de música, ele fez questão de repetir que seria cantor de ópera e ganharia dinheiro fazendo apenas alguns duetos semanais. Depois que a minha euforia passou, eu comecei a pensar com mais clareza sobre Jean. A mensagem que escreveu vinha com um presente de aniversário anexado, oferecendo um jantar, como forma de agradecimento pelos dois anos em que frequentei o Bunker. Isso fez eu deduzir que ele tinha o meu número por causa da base de clientes do restaurante, e não como qualquer tipo de interesse amoroso. Não demorou muito para que os meus próprios pensamentos me autossabotassem. Eu imaginei Jean escrevendo o mesmo bilhete e enviando para outras clientes que também fizeram aniversário no mesmo dia que eu. E a minha empolgação foi embora. Elisabeth escreveu sobre os cinco estágios do luto, por isso decidi escrever a respeito dos três estágios da felicidade. Não quer dizer que estou no mesmo nível que ela, nem nada, só estou passando o meu tempo. A minha tese é que a euforia se assemelha a aceleração de um carro parado, súbito e agressivo. Ela se torna o ponto chave de nossas escolhas. Dependendo do que o universo escolher para nós, as nossas escolhas nos levarão a um futuro bom ou caótico. Esse momento tão curto, que não nos permite raciocinar, é quase como o nosso destino. Foi a euforia que fez Jean e eu nos aproximarmos de novo. Estar dopada pela felicidade acabou me dando coragem para que eu mandasse uma mensagem respondendo o seu cortês bilhete. Uma coragem que geralmente não tenho em meu estado mais puro e normal. Depois começamos a diminuir o ritmo, talvez nosso cérebro deixa de produzir adrenalina suficiente para nos mantermos em um estado de torpor. Imagine uma criança ganhando seu brinquedo predileto. Ela pula, canta, comemora e passa o dia apreciando o brinquedo. Mas com o passar do tempo se torna só mais um em sua coleção.
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