Olá, Jean. Fico feliz que ainda se lembre de mim. Obrigada pela convite. Eu gostaria mesmo de retornar ao restaurante e experimentar uma nova rodada de sopa borsch. Beijos.
Liv Meier
A neve continuava a cair, cobrindo silenciosamente as ruas de Moscou. Enquanto observava através das janelas os flocos dançando no ar, senti um arrepio percorrer meu corpo. Não era apenas o frio do inverno russo que me fez tremer, mas sim a incerteza do futuro e o fato de Jean me escrever rapidamente quando o questionei sobre o nosso primeiro encontro.
Olá, Liv. Como eu poderia esquecer você? Lembra do baile, quando tocou 'The Miracle', dos Stylistics, e o Ulisses cantou 'The sun belongs to the sky, the leaf belongs to the tree, the grape belongs to the vine and you belong to me'?
Jean Grigorev
Ontem foi um daqueles dias em que me peguei refletindo. Desde o diagnóstico, recordo perfeitamente os estágios do luto e percebo que tenho experimentado todos eles em intensidades variadas. Neguei, recusando-me a aceitar que minha vida está perto do fim. Mas a realidade é implacável e, aos poucos, confrontei a gravidade da situação. A raiva veio, uma mistura de indignação e frustração diante da injustiça da vida. Por que eu? Por que agora? Por que tão jovem?
A barganha seguiu na forma de promessas silenciosas feitas ao universo, na esperança de que algum tipo de milagre pudesse acontecer. Mas a doença progrediu, e a aceitação finalmente se instalou, trazendo uma estranha sensação de paz. Aceitar minha própria morte não é fácil, mas aconteceu.
Enquanto os meus pensamentos transbordam, sinto a presença reconfortante dos filhotes comigo. Eles me olham com olhos inocentes e amorosos, como se soubessem instintivamente que eu estou precisando de companhia, porém, não a deles.
Respirei fundo e me levantei da poltrona, decidida a não deixar que a tristeza me consumisse. A vida é preciosa demais para ser desperdiçada em lamentos e angústias constantes. E se meu tempo neste mundo é limitado, então farei questão de aproveitá-lo enquanto houver fôlego em mim.
Quando a tempestade passou, eu saí em um passeio pela neve, deixando para trás os muros do apartamento e me aventurando pelas ruas silenciosas da cidade. O ar frio queimava minhas bochechas e minha respiração formava nuvens de vapor à volta, porém nada disso tirou minha coragem.
Eu me permiti lembrar dos bons momentos. As alegrias simples e a felicidade pura que experimentei, mesmo nos dias mais sombrios. Lembrei dos risos, dos amigos queridos, das viagens emocionantes que fiz e das paixões. Lembrei das pessoas que deixaram uma marca indelével em meu coração. O meu avô me ensinou a ser forte. Minha mãe e os meus alunos, cujo amor pela dança me inspirou e me deram forças nas manhãs mais cinzentas.