— A noite foi boa, mocinha? — A voz da minha mãe veio carregada com aquele tom típico de repreensão.
— Foi muito boa — respondi num tom empolgado demais por conta do café, ou foi por causa do Noah?
— Ayla, você saiu da sua própria festa de aniversário, e ninguém sabia pra onde você tinha ido — disse, agora visivelmente chateada. — Mandei seu pai deitar, ele ficou muito desapontado, mocinha.
— Perdão, mãe — murmurei, me aproximando para abraçá-la. — A senhora sabe que eu não gosto de comemorar muito o meu aniversário.
— Eu sei — ela retribuiu o abraço com ternura. — Mas muita gente sentiu a sua falta, viu?
— E pelo cheiro... — disse, aspirando de leve perto do meu cabelo — já imagino com quem a senhorita estava.
Senti meu rosto pegar fogo na hora.
Ela se afastou um pouco, me olhando de cima a baixo.
— Eu e seu pai deveríamos ter uma conversinha com ele? — perguntou segurando nos meus braços.
— Nem pensar! — Soltei rápido demais, dando um passo pra trás, quase tropeçando no tapete da sala. — Mãe, por favor. Não faz isso.
Ela arqueou uma sobrancelha, com aquele olhar que dizia “não me subestime, mocinha”.
— Só estamos preocupados, Ayla. Vocês têm uma certa diferença de idades.
— Eu sei — suspirei. — Mas, por favor, me deixe lidar com isso do meu jeito, tá bem? Estamos indo com calma.
Ela me analisou por mais alguns segundos antes de soltar um suspiro resignado.
— Tudo bem. Mas se ele te magoar — semicerrou os olhos pra mim como uma promessa — Vai ter dois problemas lidar: comigo e com seu pai.
— Ele não vai— falei, com mais certeza do que eu mesma esperava.
………
— Bom dia! — exclamei ao chegar na cozinha.
— Bom dia, querida! — respondeu minha mãe com um sorriso nervoso, lançando um olhar lateral para o meu pai, que continuou encarando o jornal à frente, sem sequer me dirigir um olhar. — Parece animada hoje.
A pontada de culpa veio de imediato.
Por ter deixado meu pai chateado ao sair da festa sem aviso.
— Pai... — chamei baixinho, tentando encontrar seus olhos.
Nada.
Ele continuou estático, focado no jornal que claramente nem estava lendo.
— Pai, olha pra mim — insisti, dando a volta na mesa e parando ao lado dele.
Ele suspirou alto, só então ergueu os olhos.
Estavam decepcionados, um pouco zangados.
— A gente preparou aquela festa para você, Ayla — disse, por fim. — Não é o tipo de coisa que se abandona no meio. Não sem uma palavra.
Engoli em seco, me sentindo de novo com dez anos.
— Eu sei, pai. Me desculpa. De verdade. Eu só... — respirei fundo.
— Só quero saber se você está bem — perguntou me interrompendo, voltando a olhar pra frente.
— Sim, muito — respondi me aproximando e dando um beijo na testa. — Tem café? — perguntei, tentando mudar o clima.
— Claro — respondeu minha mãe, indo pegar uma caneca. — Mas da próxima vez… avisa que vai sumir, tá bom?
— Prometo. — pegando a caneca.
Meu celular vibrou em cima da mesa.
Me estiquei devagar para pegar, tentando disfarçar o interesse repentino.
“ – Noah.
Acordou com saudade ou também está tentando entender o que aconteceu ontem?"
Senti um sorriso escapar antes que eu pudesse segurar.
Tentei disfarçar, tomando um gole do café, como se fosse a coisa mais importante do mundo.
— Quem é? — perguntou minha mãe, com a voz casual demais.
— Ninguém — respondi rápido demais.
Ela arqueou uma sobrancelha.
Meu pai nem disfarçou o resmungo contido.
Suspirei ao ouvir a voz atrás de mim.
— Bom dia! — exclamou uma voz fina demais.
Ah, ótimo.
Definitivamente, o dia que estava bom, acabou de ficar péssimo.
— Bom dia — murmurei sem direcionar um olhar na sua direção.
……….
— Você tem a obrigação de me contar tudo o que aconteceu ontem, quando você sumiu! Eu vi o Noah indo exatamente na mesma direção que você disse que ia pra “espairecer” — Kira falou tudo em um fôlego só, com os olhos arregalados de pura curiosidade acumulada.
— Primeiramente, respira — falei, com toda a calma que eu não estava sentindo. — E segundo, eu não sei do que você tá falando.
— Ah, você acha que eu nasci ontem? — ela rebateu, indignada, com as mãos na cintura. — Conta outra!
— Ainda não sei do que você tá falando — repeti, me sentando na cama, tentando conter o riso.
Ela cruzou os braços, me olhando como se pudesse arrancar a verdade da minha alma só com o olhar.
— Ayla... — começou num tom de ameaça teatral. — Se você não me contar, vou perguntar diretamente a ele.
Arregalei os olhos, fingindo indignação.
— Você não teria coragem.
— Quer testar? Porque eu sei onde ele mora — ela ergueu a sobrancelha, me desafiando.
— Kira! — reclamei, me jogando em cima dela pra impedir. — Você é insuportável!
— Só faço o que precisa ser feito! — gritou, rindo enquanto tentava se esquivar de mim.
Acabamos as duas rindo, caídas na cama, e eu sabia que não ia ter como escapar dessa conversa.
— Tá... — dei um suspiro, cobrindo o rosto com as mãos. — Mas você promete que não vai surtar?
Ela se ajeitou, animada como se estivesse prestes a ouvir um segredo de novela.
— Prometo. Agora fala tudo. Com detalhes. Não me venha com versão resumida. — Sentou-se de joelhos na cama, me encarando com olhos famintos por fofoca. — Desembucha, criatura.
Me virei de lado, encostando a cabeça no travesseiro e suspirando como quem tá prestes a revelar um segredo de Estado.
— A gente se beijou.
Ela soltou um gritinho agudo e bateu palminhas
— Eu sabia! Me conta tudo, agora, com detalhes, tempo verbal, intensidade do beijo, respiração ofegante, tudo!
— Eu devia ter ficado calada — murmurei, cobrindo o rosto com as mãos.
— Tarde demais. Vai. Começa do início — afastou a minha mão do rosto.
Sentei na cama, ajeitando o cabelo nervosamente.
— Tá. Depois que eu saí da festa, fui andar… e acabei sendo encontrada pelo o Noah. Ele se ajoelhou e massageou o meu pé... — contei quase todos detalhes, menos a parte s****l.
Kira já tava me encarando com um brilho malicioso nos olhos.
— E...?
— E depois disso, voltei pra casa e encontrei minha mãe me esperando na sala — finalizei.
Ela bufou, decepcionada por não ter ganhado mais.
— Já é alguma coisa — disse, se dando por satisfeita. — Eu vivi por esse momento! Finalmente! Depois de toda aquela tensão s****l absurda!
Caí na risada. Sincera.
— Então… vocês estão juntos agora? Tipo, oficialmente? — ela perguntou, cheia de expectativa.
— Ainda não — respondi, com um meio sorriso. —A gente tá levando as coisas com calma. Eu acabei de fazer 18, ele saiu de um relacionamento há pouco tempo... Ainda é cedo para rotular qualquer coisa.
— Você esperou por 3 anos por essa oportunidade, e vai com calma? — falou com uma certa indignação — Se eu fosse você eu ia com tudo.
— 3 anos atrás eu era só uma garota, Kira — falei, com mais firmeza do que imaginei que teria. — Hoje eu tenho outra cabeça, outra visão. Prefiro que tudo aconteça no tempo certo. Se for pra dar certo, vai dar.
— Já descobriu o que estava acontecendo com ele e a cobra no seu aniversário? — perguntou curiosa.
— Não faço a mínima ideia — suspirei me coçando de curiosidade — Ele fez de tudo para desconversar sobre ela. Uma coisa eu tenho certeza, foi algo sério.
………..
O celular vibrou sobre a mesa, ao lado do meu notebook. Estava tentando me concentrar no trabalho da faculdade, então só lancei um olhar de esguelha e ignorei, determinada a não me distrair.
Mas a segunda vibração me venceu.
Peguei o celular e o coloquei bem na minha frente, querendo saber quem diabos estava mandando mensagem àquela hora da noite.
Foi quando vi as horas na tela e percebi o quanto de tempo eu já estava ali, sentada em frente ao notebook, desde que a Kira foi embora.
A notificação aparece da tela do meu celular com o nome do Noah em negrito, o meu coração deu aquele solavanco do meu peito.
“ – Noah:
— Acordada?”
A primeira mensagem.
“ – Noah:
— Estou com saudades…”
Prendi a respiração ao ler a segunda
“ – Noah:
— Sei que está acorda Cuore. A luz do seu quarto está acesa.”
Mordi o lábio, sentindo o calor subir pelo rosto. Ele estava olhando para minha janela?
Foi o que ele perguntou sua i****a.
Pensei revirando os olhos pela minha própria pergunta estúpida.
“ – Ayla:
— Também estou com saudades.”
Logo em seguida, outra mensagem apareceu.
“ – Noah:
— O que você está fazendo para demorar tanto para me responder?”
Arqueei a sobrancelha, já com uma resposta afiada na ponta dos dedos.
“ – Ayla:
— Por que eu deveria te responder essa pergunta, papai?”
Deixei o deboche escorrer pelas palavras, imaginando a expressão dele ao ler aquilo.
A resposta não demorou nem cinco segundos.
“ – Noah:
— Cuidado com esse tom, Cuore. Você sabe que provocações têm consequências.”
Engoli em seco, mas mantive o sorriso no rosto. Era exatamente isso que eu queria.
“ – Ayla:
— Tá me ameaçando, Noah?”
“ – Noah:
— Tô te avisando.”
“ – Ayla:
— Se eu dizer que eu quero saber quais são as consequências?
O calor subiu pelas minhas bochechas e fui obrigada a desviar o olhar do celular, tentando manter o foco no notebook.
Foi em vão…
Pego o celular e vejo se ele já respondeu.
A mensagem foi visualizada, mas ele demorou a responder. Sabia que estava cutucando uma fera adormecida, e no fundo, era exatamente isso que eu queria.
A resposta finalmente chegou:
“ – Noah:
— Então se prepare, Cuore. Porque quando eu for, não vou parar pela metade.
Mordi o lábio, sentindo o estômago revirar com aquela mistura de ansiedade e desejo.
“ – Noah:
— Desce.”
Franzi a testa.
“ – Ayla:
— Como assim?”
“ – Noah:
— Abre a porta. Tô aqui.”
Fiquei encarando a tela por alguns segundos. Nos segundos seguintes, já estava calçando o chinelo.
E saí do quarto com passos silenciosos. A casa estava em silêncio.
E ele estava ali, em frente à minha casa, encostado em um carro qualquer, estacionado na rua.
— O que diabos você está fazendo? — falei, me aproximando, tentando disfarçar o nervosismo.
— Alguém precisava te lembrar do que acontece quando provoca demais. — Ele deu um passo em minha direção, o cheiro dele invadindo meu espaço.
— E o que acontece? — arrisquei, com a voz um pouco trêmula.
— Você quer mesmo saber? — murmurou, os olhos fixos nos meus lábios.
Engoli em seco. Sua mão deslizou até a minha cintura, firme, possessiva.
— Nós dois sabemos que eu quero saber, não fujo, de que seja lá o que for.
— Nós dois sabemos que eu quero saber — respondi, firme — Não fujo, seja lá o que for.
Aproximei meu rosto do dele, sentindo a respiração quente quase tocar sua pele. Respirei devagar, provocando, sem chegar a encostar os lábios nos seus.
Ele fechou os olhos por um instante, absorvendo minha proximidade e o calor que eu emanava.
Quando abriu, o olhar dele estava intenso, quase ardendo.
— Você gosta de brincar com fogo, Cuore — murmurou, com voz baixa e rouca.
Sem hesitar, ele se inclinou e juntou os nossos lábios, e rosnou me puxando pela cintura, como se quisesse me fundir a ele.
Meu coração disparou e me perdi naquele beijo, sentindo o desejo crescer, e só restava o calor do toque, a eletricidade que corria entre nós. Minhas mãos subiram lentamente, entrelaçando-se em seus cabelos, enquanto ele aprofundava o beijo.
Quando finalmente nos separamos, nossos olhos se encontraram, cheios de promessas e desejos.
Noah se aproximou do meu ouvido e sussurrou, quase inaudível:
— Isso cuore, é só o começo.