Capítulo 7

2070 Words
— A noite foi boa, mocinha? — A voz da minha mãe veio carregada com aquele tom típico de repreensão. — Foi muito boa — respondi num tom empolgado demais por conta do café, ou foi por causa do Noah? — Ayla, você saiu da sua própria festa de aniversário, e ninguém sabia pra onde você tinha ido — disse, agora visivelmente chateada. — Mandei seu pai deitar, ele ficou muito desapontado, mocinha. — Perdão, mãe — murmurei, me aproximando para abraçá-la. — A senhora sabe que eu não gosto de comemorar muito o meu aniversário. — Eu sei — ela retribuiu o abraço com ternura. — Mas muita gente sentiu a sua falta, viu? — E pelo cheiro... — disse, aspirando de leve perto do meu cabelo — já imagino com quem a senhorita estava. Senti meu rosto pegar fogo na hora. Ela se afastou um pouco, me olhando de cima a baixo. — Eu e seu pai deveríamos ter uma conversinha com ele? — perguntou segurando nos meus braços. — Nem pensar! — Soltei rápido demais, dando um passo pra trás, quase tropeçando no tapete da sala. — Mãe, por favor. Não faz isso. Ela arqueou uma sobrancelha, com aquele olhar que dizia “não me subestime, mocinha”. — Só estamos preocupados, Ayla. Vocês têm uma certa diferença de idades. — Eu sei — suspirei. — Mas, por favor, me deixe lidar com isso do meu jeito, tá bem? Estamos indo com calma. Ela me analisou por mais alguns segundos antes de soltar um suspiro resignado. — Tudo bem. Mas se ele te magoar — semicerrou os olhos pra mim como uma promessa — Vai ter dois problemas lidar: comigo e com seu pai. — Ele não vai— falei, com mais certeza do que eu mesma esperava. ……… — Bom dia! — exclamei ao chegar na cozinha. — Bom dia, querida! — respondeu minha mãe com um sorriso nervoso, lançando um olhar lateral para o meu pai, que continuou encarando o jornal à frente, sem sequer me dirigir um olhar. — Parece animada hoje. A pontada de culpa veio de imediato. Por ter deixado meu pai chateado ao sair da festa sem aviso. — Pai... — chamei baixinho, tentando encontrar seus olhos. Nada. Ele continuou estático, focado no jornal que claramente nem estava lendo. — Pai, olha pra mim — insisti, dando a volta na mesa e parando ao lado dele. Ele suspirou alto, só então ergueu os olhos. Estavam decepcionados, um pouco zangados. — A gente preparou aquela festa para você, Ayla — disse, por fim. — Não é o tipo de coisa que se abandona no meio. Não sem uma palavra. Engoli em seco, me sentindo de novo com dez anos. — Eu sei, pai. Me desculpa. De verdade. Eu só... — respirei fundo. — Só quero saber se você está bem — perguntou me interrompendo, voltando a olhar pra frente. — Sim, muito — respondi me aproximando e dando um beijo na testa. — Tem café? — perguntei, tentando mudar o clima. — Claro — respondeu minha mãe, indo pegar uma caneca. — Mas da próxima vez… avisa que vai sumir, tá bom? — Prometo. — pegando a caneca. Meu celular vibrou em cima da mesa. Me estiquei devagar para pegar, tentando disfarçar o interesse repentino. “ – Noah. Acordou com saudade ou também está tentando entender o que aconteceu ontem?" Senti um sorriso escapar antes que eu pudesse segurar. Tentei disfarçar, tomando um gole do café, como se fosse a coisa mais importante do mundo. — Quem é? — perguntou minha mãe, com a voz casual demais. — Ninguém — respondi rápido demais. Ela arqueou uma sobrancelha. Meu pai nem disfarçou o resmungo contido. Suspirei ao ouvir a voz atrás de mim. — Bom dia! — exclamou uma voz fina demais. Ah, ótimo. Definitivamente, o dia que estava bom, acabou de ficar péssimo. — Bom dia — murmurei sem direcionar um olhar na sua direção. ………. — Você tem a obrigação de me contar tudo o que aconteceu ontem, quando você sumiu! Eu vi o Noah indo exatamente na mesma direção que você disse que ia pra “espairecer” — Kira falou tudo em um fôlego só, com os olhos arregalados de pura curiosidade acumulada. — Primeiramente, respira — falei, com toda a calma que eu não estava sentindo. — E segundo, eu não sei do que você tá falando. — Ah, você acha que eu nasci ontem? — ela rebateu, indignada, com as mãos na cintura. — Conta outra! — Ainda não sei do que você tá falando — repeti, me sentando na cama, tentando conter o riso. Ela cruzou os braços, me olhando como se pudesse arrancar a verdade da minha alma só com o olhar. — Ayla... — começou num tom de ameaça teatral. — Se você não me contar, vou perguntar diretamente a ele. Arregalei os olhos, fingindo indignação. — Você não teria coragem. — Quer testar? Porque eu sei onde ele mora — ela ergueu a sobrancelha, me desafiando. — Kira! — reclamei, me jogando em cima dela pra impedir. — Você é insuportável! — Só faço o que precisa ser feito! — gritou, rindo enquanto tentava se esquivar de mim. Acabamos as duas rindo, caídas na cama, e eu sabia que não ia ter como escapar dessa conversa. — Tá... — dei um suspiro, cobrindo o rosto com as mãos. — Mas você promete que não vai surtar? Ela se ajeitou, animada como se estivesse prestes a ouvir um segredo de novela. — Prometo. Agora fala tudo. Com detalhes. Não me venha com versão resumida. — Sentou-se de joelhos na cama, me encarando com olhos famintos por fofoca. — Desembucha, criatura. Me virei de lado, encostando a cabeça no travesseiro e suspirando como quem tá prestes a revelar um segredo de Estado. — A gente se beijou. Ela soltou um gritinho agudo e bateu palminhas — Eu sabia! Me conta tudo, agora, com detalhes, tempo verbal, intensidade do beijo, respiração ofegante, tudo! — Eu devia ter ficado calada — murmurei, cobrindo o rosto com as mãos. — Tarde demais. Vai. Começa do início — afastou a minha mão do rosto. Sentei na cama, ajeitando o cabelo nervosamente. — Tá. Depois que eu saí da festa, fui andar… e acabei sendo encontrada pelo o Noah. Ele se ajoelhou e massageou o meu pé... — contei quase todos detalhes, menos a parte s****l. Kira já tava me encarando com um brilho malicioso nos olhos. — E...? — E depois disso, voltei pra casa e encontrei minha mãe me esperando na sala — finalizei. Ela bufou, decepcionada por não ter ganhado mais. — Já é alguma coisa — disse, se dando por satisfeita. — Eu vivi por esse momento! Finalmente! Depois de toda aquela tensão s****l absurda! Caí na risada. Sincera. — Então… vocês estão juntos agora? Tipo, oficialmente? — ela perguntou, cheia de expectativa. — Ainda não — respondi, com um meio sorriso. —A gente tá levando as coisas com calma. Eu acabei de fazer 18, ele saiu de um relacionamento há pouco tempo... Ainda é cedo para rotular qualquer coisa. — Você esperou por 3 anos por essa oportunidade, e vai com calma? — falou com uma certa indignação — Se eu fosse você eu ia com tudo. — 3 anos atrás eu era só uma garota, Kira — falei, com mais firmeza do que imaginei que teria. — Hoje eu tenho outra cabeça, outra visão. Prefiro que tudo aconteça no tempo certo. Se for pra dar certo, vai dar. — Já descobriu o que estava acontecendo com ele e a cobra no seu aniversário? — perguntou curiosa. — Não faço a mínima ideia — suspirei me coçando de curiosidade — Ele fez de tudo para desconversar sobre ela. Uma coisa eu tenho certeza, foi algo sério. ……….. O celular vibrou sobre a mesa, ao lado do meu notebook. Estava tentando me concentrar no trabalho da faculdade, então só lancei um olhar de esguelha e ignorei, determinada a não me distrair. Mas a segunda vibração me venceu. Peguei o celular e o coloquei bem na minha frente, querendo saber quem diabos estava mandando mensagem àquela hora da noite. Foi quando vi as horas na tela e percebi o quanto de tempo eu já estava ali, sentada em frente ao notebook, desde que a Kira foi embora. A notificação aparece da tela do meu celular com o nome do Noah em negrito, o meu coração deu aquele solavanco do meu peito. “ – Noah: — Acordada?” A primeira mensagem. “ – Noah: — Estou com saudades…” Prendi a respiração ao ler a segunda “ – Noah: — Sei que está acorda Cuore. A luz do seu quarto está acesa.” Mordi o lábio, sentindo o calor subir pelo rosto. Ele estava olhando para minha janela? Foi o que ele perguntou sua i****a. Pensei revirando os olhos pela minha própria pergunta estúpida. “ – Ayla: — Também estou com saudades.” Logo em seguida, outra mensagem apareceu. “ – Noah: — O que você está fazendo para demorar tanto para me responder?” Arqueei a sobrancelha, já com uma resposta afiada na ponta dos dedos. “ – Ayla: — Por que eu deveria te responder essa pergunta, papai?” Deixei o deboche escorrer pelas palavras, imaginando a expressão dele ao ler aquilo. A resposta não demorou nem cinco segundos. “ – Noah: — Cuidado com esse tom, Cuore. Você sabe que provocações têm consequências.” Engoli em seco, mas mantive o sorriso no rosto. Era exatamente isso que eu queria. “ – Ayla: — Tá me ameaçando, Noah?” “ – Noah: — Tô te avisando.” “ – Ayla: — Se eu dizer que eu quero saber quais são as consequências? O calor subiu pelas minhas bochechas e fui obrigada a desviar o olhar do celular, tentando manter o foco no notebook. Foi em vão… Pego o celular e vejo se ele já respondeu. A mensagem foi visualizada, mas ele demorou a responder. Sabia que estava cutucando uma fera adormecida, e no fundo, era exatamente isso que eu queria. A resposta finalmente chegou: “ – Noah: — Então se prepare, Cuore. Porque quando eu for, não vou parar pela metade. Mordi o lábio, sentindo o estômago revirar com aquela mistura de ansiedade e desejo. “ – Noah: — Desce.” Franzi a testa. “ – Ayla: — Como assim?” “ – Noah: — Abre a porta. Tô aqui.” Fiquei encarando a tela por alguns segundos. Nos segundos seguintes, já estava calçando o chinelo. E saí do quarto com passos silenciosos. A casa estava em silêncio. E ele estava ali, em frente à minha casa, encostado em um carro qualquer, estacionado na rua. — O que diabos você está fazendo? — falei, me aproximando, tentando disfarçar o nervosismo. — Alguém precisava te lembrar do que acontece quando provoca demais. — Ele deu um passo em minha direção, o cheiro dele invadindo meu espaço. — E o que acontece? — arrisquei, com a voz um pouco trêmula. — Você quer mesmo saber? — murmurou, os olhos fixos nos meus lábios. Engoli em seco. Sua mão deslizou até a minha cintura, firme, possessiva. — Nós dois sabemos que eu quero saber, não fujo, de que seja lá o que for. — Nós dois sabemos que eu quero saber — respondi, firme — Não fujo, seja lá o que for. Aproximei meu rosto do dele, sentindo a respiração quente quase tocar sua pele. Respirei devagar, provocando, sem chegar a encostar os lábios nos seus. Ele fechou os olhos por um instante, absorvendo minha proximidade e o calor que eu emanava. Quando abriu, o olhar dele estava intenso, quase ardendo. — Você gosta de brincar com fogo, Cuore — murmurou, com voz baixa e rouca. Sem hesitar, ele se inclinou e juntou os nossos lábios, e rosnou me puxando pela cintura, como se quisesse me fundir a ele. Meu coração disparou e me perdi naquele beijo, sentindo o desejo crescer, e só restava o calor do toque, a eletricidade que corria entre nós. Minhas mãos subiram lentamente, entrelaçando-se em seus cabelos, enquanto ele aprofundava o beijo. Quando finalmente nos separamos, nossos olhos se encontraram, cheios de promessas e desejos. Noah se aproximou do meu ouvido e sussurrou, quase inaudível: — Isso cuore, é só o começo.
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