Capítulo 8

2000 Words
— Você está bem? — perguntei, lembrando do que amanhã significava para ele. Ele desviou o olhar para frente, o maxilar travado, como se a pergunta fosse um peso. — Não quero falar sobre isso — respondeu, a voz rouca. Engoli as palavras que estavam prestes a sair. Era a mesma expressão do ano passado, perdido nos próprios fantasmas. O abracei de lado, me arrependendo de ter perguntado. Estávamos sentados no degrau da escada, em frente à porta da casa de Noah. O silêncio entre nós parecia mais pesado. — Tudo bem — murmurei, com cuidado. — Só... não tenta enfrentar isso sozinho, tá? Os olhos dele desviou da frente, voltando para os meus, carregados de uma dor antiga, profunda demais para caber ali. — Amanhã faz 20 anos, Ayla — confessou, num sussurro quase quebrado. — 20 anos desde que tiraram eles de mim. Senti meu peito apertar. — Noah... — chamei baixinho, sem saber como curar uma ferida que nunca cicatrizou. Ele sorriu de canto, mas havia amargura no gesto. — Não precisa dizer nada, Cuore. Eu tô bem... — fez uma pausa curta, respirando fundo. — Faz tanto tempo que aprendi a lidar. Só… — começou — Só ainda sinto raiva. Muita raiva. — A intensidade naquelas palavras me fez prender a respiração. Antes que eu pudesse reagir, ele completou, quase num pedido: — Só fica aqui comigo, ok? — E, sem esperar resposta, passou o braço pela minha cintura e me puxou para perto. O silêncio se estendeu pela noite. Confortável, mas ainda carregado de algo pesado. Os pingos da chuva nos fez pular da escada de susto, e quando levantei os olhos, o céu já estava coberto, anunciando a tempestade que vinha. — Tem um presente te esperando lá dentro. Virei a cabeça girando do céu para o Noah, tão rápido que quase torci o pescoço. — Você já não me deu um? — perguntei, me lembrando do anterior. Ele riu baixo, inclinando-se na minha direção. — Aquilo não conta como presente oficial. Se acostume, Cuore, pretendo te mimar, e muito. — Você vai me estragar desse jeito — retruquei, o coração acelerado, tentando adivinhar o que ele tinha aprontado desta vez. Ele sorriu de lado, misterioso, e se levantou, me estendendo a mão. — Vem. Quero ver a sua reação. Levantei com o coração disparado, tentando imaginar o que poderia ser. Assim que entramos na sala, ouvi um som que me fez parar no mesmo instante. Um latido. — Não… — sussurrei, levando as mãos à boca, incrédula. Um filhote enorme de pastor alemão correu na minha direção, abanando o r**o. Me agachei no chão, gargalhando enquanto ele pulava em mim, lambendo meu rosto sem cerimônia. — Noah! — gritei, sem conseguir conter a emoção. — Você tá brincando comigo?! Ele é lindo! Ele ficou encostado na porta, com aquele sorriso orgulhoso que só ele tem. — Feliz aniversário, Cuore. Ele é todo seu. Qual vai ser o nome dele? Uma trovoada estourou bem na hora, iluminando minha mente com a resposta. — Storm — declarei o nome, rindo. Senti as lágrimas brotarem nos olhos enquanto abraçava aquele amontoado de pelos e alegria. — Eu não acredito nisso! — murmurei, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Esse é o melhor presente do mundo! — Espero que o Storm cuide de você quando eu não estiver por perto — respondeu, e minha garganta apertou com a seriedade na voz dele. Mal sabia eu que, depois daquela frase, o Storm seria o meu guardião, por longo tempo. ……… No dia seguinte, eu apresentei o Storm, que estava abanando o r**o, aos meus pais. Que, pelo visto, já sabiam muito bem da surpresa de Noah. — De quem é esse pulguento? — a voz de Shirley estrondou pela casa antes mesmo de eu chegar à sala. Antes que eu pudesse responder, escutei um rosnado baixo vindo de Storm, direcionado para ela. Levantei as sobrancelhas surpresa. Parece que meu cachorro tem faro para gente com bom caráter… ou a falta dele. — Storm! — Chamei firme, antes que ele resolvesse se transformar em um campo de batalha. Minha mãe ergueu uma sobrancelha, mas não comentou nada. Em vez disso, pegou a bolsa que estava no sofá. — Meninas, eu e o seu pai vamos sair para ir ao mercado. Se comportem — avisou, enquanto meu pai fazia um carinho rápido na cabeça de Storm. Quando a porta se fechou atrás deles, olhei para Storm, que ainda mantinha o olhar desconfiado na direção de Shirley, me fuzilava com os olhos. — De onde você pegou esse pulguento? — perguntou, a voz carregada de veneno que já não me atinge. Sorri de lado, ajeitando a coleira de Storm antes de colocar a guia. Antes de segurar, respondi sem pestanejar: — Diferente do lugar onde te acharam. No serpentário, no meio do ninho de cobras. O silêncio que se seguiu foi quase tão delicioso quanto a expressão dela. Sai em direção a porta segurando a guia, pegando a minha bolsa de faculdade em cima do aparador do corredor, pegando o meu celular. Não confio em deixar o Storm sozinho aqui em casa com ela. Será que o Noah, permitiria deixar Storm em sua casa? Respirei fundo e disquei o número. Ele atendeu rápido. — Cuore? Está tudo bem? — a preocupação na voz dele me fez sorrir. — Estou bem — eu o garanti. — Só preciso de um pequeno favor. — Lancei um olhar para Storm, que, pelo tamanho, não tinha nada de pequeno. — Do que você precisa? — perguntou, agora soando mais tranquilo. — Tem como eu deixar o Storm na sua casa, preciso ir à faculdade e depois ir me encontrar com a Kira. — perguntei. — Não precisa nem perguntar, você tem a chave, Cuore — respondeu de imediato, mas a voz dele soou curiosa. — Não tem ninguém em casa? Está com medo de deixar Storm sozinho? — Shirley está aqui. Não confio em deixar ele com ela — respondi, firme. Ele soltou uma risada baixa. — Tá com medo do Storm morder ela? Me falaram que ele é tranquilo, pode confiar. — Não é nele que eu não confio, é nela. — soltei, sem esconder a amargura. Fiz uma pausa, deixando o silêncio pesar do outro lado da linha antes de acrescentar: — Você deveria conhecer a sua “melhor amiga”. — A sua irmã não faria nada contra pessoas inocentes, Cuore. — Engoli em seco. Ele realmente não a conhece. — Mas você pode fazer o que quiser lá em casa, Ayla. — Ok. Vou levar potes para água e comida dele — falei, já me virando, para subir os lances da escada, voltando para casa.. — Não precisa levar nada — interrompeu, me fazendo parar no meio do caminho. — Tem tudo que ele precisa lá. Franzi a testa, surpresa. — Você já tinha se preparado para isso? — perguntei, tentando não sorrir. Ele soltou uma risada baixa. — Digamos que eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, Storm ia virar meu hóspede. Mordi os lábios, tocada pela naturalidade com que ele lida com tudo. Sempre tem uma resposta, sempre parece saber o próximo passo. — Vou deixá-lo aí e sair, estou atrasada — murmurei, lançando um olhar para Storm, que me encarava com aquela expectativa canina, como se esperasse meu comando. — Tudo bem. Boa aula, Cuore — respondeu, e quando percebi que ele ia desligar, minha voz saiu antes. — Noah... obrigada. Por tudo. O silêncio do outro lado durou só um segundo, antes que ele pudesse falar alguma coisa desliguei a chamada. — Parece que você já tem um lugar para ir amigão — falei me agachando, e passando a mão nas pelagens dele. ………. O vento cortava meu rosto enquanto eu acelerava a Harley pela estrada quase vazia. Aquela sensação de liberdade, misturada com um frio na barriga viciante, me fazia esquecer por alguns minutos do resto do mundo. Estacionei no campus da Newport University, o ronco do motor ainda ecoando pelo estacionamento. Antes mesmo de tirar o capacete, vi Kira encostada no capô de um carro, celular no ouvido, expressão impaciente. Meu bolso vibrou dentro da jaqueta de couro vinho e sorri, imaginando a cena. Atendi. — Alô! — falei, divertida. — Onde diabos você tá, Ayla?! — a voz dela veio carregada de impaciência, enquanto jogava o cabelo para trás com um movimento teatral. Olhei para o lado, mordendo o sorriso. — Olha pro lado, sua dramática. Ela virou devagar, e a expressão irritada se desfez em puro alívio. — Estamos atrasadas, Ayla! — reclamou, vindo apressada na minha direção enquanto eu pulava da moto. — Como você consegue pilotar isso com esses saltos? Seguiu meu olhar para os coturnos pretos, com salto robusto, e balançou a cabeça como quem desiste de entender. Mas, antes que eu pudesse responder, ela emendou: — Por que demorou? Suspirei, segurando seus ombros e me abaixando levemente para ficarmos olho no olho. Ela parecia prestes a entrar em pânico. — Kira, respira. — Eu não quero entrar sozinha — murmurou, apertando os lábios. — Você sabe que eu odeio isso. Sorri de canto, puxando-a para perto e cruzando nossos braços. — Você não vai entrar sozinha — garanti, caminhando com ela para a entrada. — Só tive um pequeno contratempo. Depois eu conto. Ela franziu a testa, curiosa, mas se deixou guiar. — Noah me deu um filhote de pastor alemão. — O quê?! — gritou tão alto que fez metade do corredor virar na nossa direção. Kira se encolheu imediatamente, corando — Tive que arrumar um jeito de deixar ele longe da Shirley, não confio nela perto dele, ficando em casa. — comentei com os braços ainda entrelaçada a ela. — O que fez? — perguntou, ainda olhando ao redor como quem queria se distrair do nervosismo. Hoje foi o primeiro dia dela aqui. Eu sabia o peso disso. Kira tem um histórico complicado com “vida escolar” — traumas que ela me contou, anos de bullying, em silêncio. Desde então, cada porta nova é um gatilho. — Deixei ele na casa do Noah. — respondi, sentindo-a enrijecer quando um grupo de caras com uniforme do time passou perto, rindo alto. Olhares curiosos se voltaram para nós, mas ela não percebeu que o motivo de olharem para ela é pela beleza. Inclusive um deles, aquele que sempre me olha fixamente toda vez que passo pelo corredor, finjo que não percebo. Segurei seu braço com um aperto suave, chamando sua atenção. — Ei... relaxa. Ninguém aqui vai morder você, tá? Ela respirou fundo, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Espero que você esteja certa — murmurou, enquanto eu a puxava para fora da mira daqueles olhares. Por dentro, eu só conseguia pensar que, se Noah descobrisse o jeito que um deles olhava para mim, ele ia querer comer alguém vivo. Depois de deixar a Kira na sala direcionada a ela, eu prossegui para minha sala que é em outro bloco. Engenharia mecânica. Qualquer experiência que viesse era bem-vinda, então escolhi matérias que se conectam ao meu objetivo maior: aviões. Futuramente, quero cursar Engenharia Aeronáutica. Meu pai sonha em me ver seguindo os passos dele e que eu trabalhe junto com ele e Noah, e futuramente comande a empresa que o meu tataravô reergueu junto com o seu melhor amigo, tataravô de Noah. A herdeira mais velha já deixou claro que prefere viver entre festas e luzes de balada, queimando dinheiro. Então, cabe a mim. Não reclamo pelos futuros que foram postos para mim. Na verdade, sempre gostei de andar pelos corredores da empresa da minha família, de ver a equipe mexendo nas máquinas, criando projetos que ganham vida no céu. O cheiro de óleo, o som metálico, as pranchetas cheias de cálculos, tudo isso me fascina desde criança. E eu quero isso. Quero ver algo que eu mesma projete voando, rasgando nuvens.
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