Depois da faculdade a gente combina de se encontrar no shopping para almoçarmos e comemorar o primeiro dia da faculdade de Kira.
Fui pilotando a minha Harley e Kira foi no carro dela. Eu, com certeza, vou chegar primeiro, pela forma como estou acelerando a moto. O vento batia contra meu rosto e eu sentia aquela sensação de liberdade que só a Harley me dava.
O trânsito não estava dos piores, mas eu não estava com paciência para carros lentos. Desviei de dois deles com precisão, ouvindo buzinas ao fundo, e não me importei. A música tocava no máximo o fone dentro do capacete e deixei a adrenalina guiar.
Em menos de quinze minutos, estacionei no subsolo do shopping. Desliguei a moto, tirei o capacete e soltei os cabelos, sentindo alguns olhares curiosos — não é todo dia que se vê uma garota chegando numa Harley.
Cinco minutos depois, a Kira estaciona o carro dela ao lado da minha moto. Saiu fechando a porta com força, os cabelos pretos curtos balançando enquanto caminhava até mim com a expressão irritada.
— Você está maluca, Ayla? — disse, assim que parou na minha frente. — Como você sai com essa moto disparada sem amor à vida?
Cruzei os braços e levantei uma sobrancelha, tentando não rir dá bronca.
— Estou viva, não estou? — perguntei, arqueando a sobrancelha com um sorriso de canto.
Kira colocou as mãos na cintura, me olhando como se pudesse me matar ali mesmo.
Antes que ela pudesse falar alguma coisa, puxei o braço dela e entrelaçando a minha, ela balançou a cabeça, rindo, e seguimos para dentro do shopping. Enquanto subíamos pela escada rolante, Kira começou a falar animada sobre a faculdade, como se tivesse esquecido do mini-infarto que quase sofreu quando entrou na faculdade.
Enquanto a Kira foi atrás de algo para que possamos comer, procuro a mesa disponível e a encontro, ao lado de um grupo que nem presto atenção e sentei de costas para eles.
Pego o celular do bolso da minha jaqueta, sinto uma queimação nas minhas costas, como se alguém estivesse olhando para mim. Continuo olhando para o meu celular e entro no aplicativo de mensagem e mando a mensagem para o Noah.
“– Ayla:
— O que você está fazendo agora?”
Enviei, bloqueei a tela e deixei o celular sobre a mesa. Mas a sensação persistia, queimando na minha nuca. Irritada, olhei para trás querendo saber quem diabos estava me olhando.
Ele. Bufei.
O mesmo garoto da faculdade. Aquele que sempre me olhava na faculdade. Alto, cabelos castanhos levemente bagunçados, camisa preta simples, mas que marcava bem os ombros largos.
Revirei os olhos, irritada com aquela sensação estranha de ser observada, e voltei a encarar a mesa. Senti o meu celular vibrar na minha mesa, peguei o celular e acendi a tele. Antes que eu pudesse ver o que o Noah me respondeu, a voz atrás de mim me fez pular de susto.
— Ayla, né? — A voz dele soou ao meu lado, firme, grave.
— Sim? — Levantei a cabeça encontrando o garoto parado ao meu lado, abrindo um sorriso de lado, achando que faria algum efeito em mim.
Ele parece aquele garoto tipo popular, e que tem todas as garotas ao seu alcance.
Eu não sou uma delas, não ligo se ele é um garoto lindo ou popular.
Se fosse antes até valeria a pena rolar algum rolo entre a gente.
— Tudo bem? — perguntou se sentando no lugar da Kira.
— Tudo bem? — perguntou, se sentando no lugar da Kira, como se tivesse todo o direito.
Fiquei alguns segundos apenas olhando para ele, sem responder, até soltar um suspiro pesado.
— Você sempre chega assim, sem pedir?
Ele deu de ombros, relaxado, apoiando o braço na mesa.
— Quando a pessoa me chama atenção, sim.
Revirei os olhos, pegando meu celular de volta só para não ter que encará-lo.
— Pois é, perdeu seu tempo.
Ele riu baixo, inclinado para a frente.
— Você fala isso, mas eu já te vi me olhando na faculdade.
Arregalei os olhos, soltando uma risada curta, irônica.
— Te olhando? Não confunda não, eu só reparo quando alguém me encara como um psicopata pelos corredores.
O sorriso dele vacilou por um segundo, mas logo voltou com a mesma pose de autoconfiança.
— Então reparou.
— Reparei, sim. — apoiei o queixo na mão, sem disfarçar a ironia. — E não gostei.
Ele pareceu surpreso, mas não desistiu.
— Você é diferente. Isso me deixa curioso.
— Pois trate de se acostumar com a curiosidade — respondi seca, me levantando um pouco da cadeira para ver se encontrava Kira no meio da praça de alimentação. — Porque não tem nada aqui pra você.
Ele me olhou com aquele sorrisinho presunçoso de novo, mas não respondeu. Apenas ergueu as mãos em rendição e se afastou da mesa.
Suspirei aliviada e senti o meu celular vibrar na minha mão.
Era o Noah.
“ – Noah:
— Trabalhando, infelizmente”
“ – Ayla:
— Já almoçou? Não quer vir aqui almoçar no shopping, comigo e Kira?”
Sinto um vulto vir em direção ao meu rosto, antes de ele se aproximar do rosto no meu eu levanto o braço aplicando um pequeno golpe de defesa, empurrando o meu antebraço no seu pescoço, fazendo assim ele se afastar e aproveitando de me levantar apressadamente.
— Você está maluco? — o empurrei.
Ele se aproxima de novo, forçando mais a barra.
Escuto a risada dos amigos dele atrás de mim.
Antes que eu possa me defender, a mão grande pousa no ombro do garoto apertando forte, o garoto faz careta de dor.
Olho para o dono da mão e não consigo deixar me segurar e morder os lábios ao olhar a mão grande e o braço forte sendo esmagado pelo terno sob medida.
Noah. Suspirei.
Me sentei de volta à mesa, e deixando o Noah lidar com o garoto. Kira chega no mesmo momento com a bandeja dos nossos pedidos, olhando assustada para o Noah rosnando para o garoto, e volta os olhos para mim, querendo uma explicação. Só dei de ombro.
— Não tem medo de morrer? — rosnou puxando a camisa do garoto com a outra mão, o garoto tentou disfarçar a dor, mas o maxilar travado denunciava.
Os amigos do garoto, levantam para ajudar.
— Eu... eu só estava brincando... — murmurou, tentando se soltar.
Noah não disse nada. O olhar frio e impiedoso dele era suficiente para calar qualquer desculpa. O aperto no ombro do garoto aumentou só um pouco, o bastante para arrancar outro gemido e fazer os amigos dele recuarem, sem a mesma coragem de antes.
— Se tentar encostar nela de novo, vai descobrir o que é dor de verdade. — Noah falou, a voz baixa, grave, carregada de ameaça.
— Noah, solte-o. — pedi firme, erguendo os olhos para que ele me olhasse. — Não vale a pena.
Os olhos dele se voltaram para mim, chamas vivas de ciúmes queimando em cada detalhe do olhar. Por um instante, achei que ele fosse ignorar meu pedido e quebrar o ombro do garoto ali mesmo.
Mas, devagar, como se estivesse testando a própria paciência, Noah abriu a mão e o soltou. O rapaz cambaleou para trás, massageando o ombro, sem coragem de encarar nenhum de nós.
— Sai daqui — Noah rosnou, e a simples ordem bastou para que ele e os amigos desaparecessem no meio da praça de alimentação.
Ficamos só nós dois, em meio ao barulho de pessoas que fingiam não ter visto nada. Meu coração ainda martelava no peito, mas não consegui evitar.
— Você não precisava disso. Eu já estava me defendendo.
Ele deu um passo em minha direção, o maxilar rígido, a respiração pesada, como se estivesse tentando se controlar.
— Ele encostou em você. — A voz saiu grave, carregada de fúria. — Isso já é mais do que suficiente.
— Você com ciumes desse jeito só me deixa excitada. — ele rosnou de novo, dessa vez por outro motivo, é de excitação. — Queria ver como você me foderia cheio de raiva.
Me levantei e aproximei dele sentindo o perfume amadeirado.
Ele travou a mandíbula, os olhos faiscando, como se cada músculo dele estivesse em guerra entre me afastar ou me jogar sob o ombro e me levar para casa.
— Ayla... — minha pele arrepiou ao ouvir meu nome escapar rouco da boca dele, como um aviso.
Inclinei o rosto, chegando perto o suficiente para sentir o calor da respiração dele contra a minha boca.
— Vai fazer o quê, Noah? — sussurrei, passando o dedo lentamente pelo contorno da lapela até o nó da gravata. — Vai me punir por provocar?
Um som baixo, quase um grunhido, vibrou no peito dele. Os dedos se fecharam em punho, e por um segundo achei que ele fosse ceder à raiva. Mas ele apenas inclinou a cabeça, os olhos me prendendo como algemas invisíveis.
— Você não sabe com o que está brincando. — murmurou, mas a forma como a voz falhou me fez sorrir.
— Sei exatamente. — respondi, me erguendo na ponta dos pés e roçando os lábios de propósito perto do canto da boca dele, sem encostar. — E é por isso que eu quero.
Ele me puxou para si mesmo pela cintura, me beijando com raiva.
— Esse não é o momento, Ayla — o m****o dele acha o contrário.
— Sei que vocês estão no meio do mundinho de vocês, e esquecem que estão no meio da praça de alimentação de um shopping. — A voz atrás de mim, apagou o meu fogo rapidinho, deixando a minha bochecha queimando de vergonha pela nossa performance pornográfica.
……
Depois da Kira dá a desculpa de quem tinha esquecido de um compromisso para nos deixar sozinhos. Decidimos dar um passeio pelo shopping, aproveito e dou um pulo na loja de pet.
Escolho as roupas simples, das cores neutras para o Storm, é alguns brinquedos.
Assim que saímos da loja, demos de cara com a Sandra.
Que alargou um sorriso lindo para o Noah.
— Noah — abraçou, mais do que devia.
O meu ciúme queima como brasa, gosto da Sandra, mas continua sendo uma ex.
Sandra estava linda, impecável como sempre, o sorriso iluminado só para ele.
— Quanto tempo! — ela exclamou, passando as mãos pelos braços dele como se fosse o direito dela.
Revirei os olhos, apertando mais forte a sacola com as coisas do Storm, como se aquilo fosse me dar algum autocontrole.
Noah, por outro lado, não pareceu tão entusiasmado. Ele correspondeu ao abraço, mas rápido demais, e logo deu um passo para trás.
— Sandra. — disse sorriu com educação.
Ela fingiu não perceber a distância que ele colocou entre os dois.
Sandra se tocou que eu estava aqui e me abraçou rapidamente.
— E essa sacola? Você tem algum cachorro, Ayla? — perguntou depois de se afastar de mim.
Senti o braço de Noah deslizar pela minha cintura, firme, me puxando para perto.
— Sim. — a voz dele saiu carregada de significado. — Estamos cuidando do Storm. — e completou — Juntos.
Sandra forçou outro sorriso, mas os olhos dela denunciaram o incômodo.
— Bom... foi bom ver vocês. — disse por fim, se despedindo com uma polidez ensaiada. — Até mais, Noah. Ayla.
Ela se afastou com o mesmo salto de confiança de sempre, mas eu sabia que não tinha gostado nada do que viu.
Noah ainda me segurava pela cintura, os dedos firmes demais para serem casuais.
— Está com ciúmes? — ele perguntou, com a voz baixa, divertida.