3. Caique

1118 Words
O calor já começava a subir antes das oito. Lá fora, o sol batia direto na laje. Aqui dentro, o ventilador girava preguiçoso, empurrando mais barulho que vento. Kevin corria pela sala com a fralda torta e a camiseta virada ao contrário, segurando o controle da TV como se fosse uma nave espacial. — Vruuum, vruuuuum, pega, papai! — ele grita, rindo alto. — Tá voando ou fugindo da chinelada? — pergunto, pegando o controle da mão dele e erguendo no alto. Ele pula tentando alcançar, as perninhas curtas se arrastando pelo chão liso. — Devolve! — Tem que pedir por favor. — Pufavô! — ele solta. Eu devolvo. Ele pega, aperta todos os botões, e a TV muda pra um canal aleatório com propaganda de absorvente. Ele nem liga. Continua voando pelo sofá, caindo de propósito, rindo alto. Eu sento no chão, encostado no sofá, braços cruzados, só observando. Não entendo como um moleque tão pequeno consegue fazer tanto barulho em tão pouco tempo. Nem como ele consegue tirar risada até de coisa que nem aconteceu. Mas entendo uma coisa: ninguém vai machucar esse moleque enquanto eu estiver vivo. A mãe dele que vá pra p**a que pariu. Aparece quando quer, grita na rua, reclama da pensão que nunca pediu legalmente, inventa história, joga indireta no baile. Ontem mesmo, mandou áudio dizendo que o Kevin tava "virando fresco" por passar muito tempo comigo. Apaguei sem responder. Ela quer palco. Eu quero paz. Kevin tropeça nos próprios pés e cai sentado. — Ai! — Tá bem? — Tô. Mas o avião bateu. — A culpa é sua. Não sabe pilotar. — Não, papai. É porque tinha um tubarão no céu. Levanto a sobrancelha, encarando ele com um meio sorriso. — Tubarão no céu? — É! Um tubarão voador. Azul. Com dente! Ele abre os braços, faz a cara mais ameaçadora possível e dá um rugido esquisito que provavelmente ele tirou de algum desenho. Eu não respondo. Só deixo ele continuar. Na minha cabeça, o mundo vive em estado de alerta. Mas com ele... é diferente. Ele não sabe de p***a nenhuma ainda. Não sabe que tem gente que sorri pra ele na rua e depois fala m*l da mãe dele nas costas. Não sabe que já nasceu no alvo. Não sabe que o sobrenome dele pesa, mesmo sendo só de sangue. Ele só quer brincar. E comer bolacha. E correr pela casa como se o chão fosse lava. Meu telefone vibra. Pego e vejo a notificação: grupo dos meninos. Coisa do morro. Problema com entrega, possível movimentação na fronteira da área, uma moto estranha que parou duas vezes no mesmo lugar. Respondo com um "to vendo" e guardo o celular de novo. Kevin sobe no meu colo sem avisar, esparramado, suado, com cheiro de leite e shampoo infantil. Encosta a cabeça no meu peito e suspira. — Cê é meu melhor amigo, papai. Fecho os olhos por um segundo. — E você é o único que não me deve nada — respondo, baixo. Ele não entende. Ainda bem. Lá fora, o morro segue como sempre: quente, barulhento, cheio de história atravessada. Aqui dentro, por meia hora, eu tenho silêncio. E ele. Só ele. Kevin ainda tava no meu colo, quase dormindo, quando escutei a voz dele vindo do corredor: — Se eu pisar nesse carrinho, vai voar alguém pela janela! Reconheceria aquele timbre de longe. Tiago. Mas ninguém aqui chama ele assim. Pra todo mundo, é Caveira. Pra mim, é pai. Kevin ergue a cabeça na hora, o olho brilhando. — Vovô! Tiago aparece na sala com o mesmo jeito de sempre: camisa de regata preta, chinelo velho, e uma tatuagem no ombro que já perdeu a cor com o tempo. O cabelo grisalho tá mais ralo, mas o olhar continua o mesmo, aquele tipo que lê a alma e assusta até quem não deve. Assim que vê o neto, a expressão dele muda. O peso sai. Os ombros caem. — Olha ele aí, o terror do bairro. — Ele se abaixa, abrindo os braços. — Vem cá, moleque. Kevin corre e se joga no colo dele, quase derrubando o velho no sofá. — Vovô, tem tubarão no céu! — Tubarão? No céu? — Thiago finge susto. — Então corre chamar o papai, que ele é bom de tiro. Kevin ri alto. A risada dele ecoa pela casa inteira. Eu só observo, meio de longe, com um sorriso que não deixo aparecer de verdade. Ver o Kevin com ele é tipo ver dois mundos que nunca se tocaram tentando se entender. Thiago levanta o neto, senta no sofá e bagunça o cabelo dele com uma mão enorme, cheia de cicatriz. — Cê tá criando certo esse menino, Caique. — Ele fala sem me olhar. — Tá crescendo esperto, ligeiro, sem medo. — Tá crescendo barulhento — respondo. — Melhor barulhento do que calado demais, igual você foi. Kevin se distrai com um brinquedo no chão, e meu pai me encara. O olhar dele é direto, firme, pesado. Do tipo que dispensa conversa. — Te vi sair cedo ontem — ele diz. — Onde foi? — Resolver umas coisas. — Coisas ou problema? — Mesma coisa, às vezes. — Hm. Ele fica em silêncio por um tempo, observando o neto. — Sabe que quando eu te vejo com ele... — ele começa, mas para. — O quê? — Lembro de mim com você. — Isso é bom ou r**m? — É estranho. Kevin vem correndo e sobe no colo dele de novo. — Vovô, você é velho? — Velho não. Sou clássico. — Igual os carros que o papai gosta? — Igualzinho. Só que com mais tiro e menos gasolina. Kevin ri até soluçar. Tiago olha pra mim de novo. — Esse menino vai ser o terror das menininhas. — Espero que não. Fico quieto. Às vezes acho que o silêncio é a única coisa que eu herdei dele de verdade. Lá fora, ouço as vozes dos meus irmãos, o som da casa viva, sempre cheia. Mariana grita algo da cozinha, o cheiro de comida invade a sala, e Kevin corre pra lá atrás da avó. Meu pai fica me olhando mais um tempo. — E aí, filho. — Ele fala mais baixo. — Tá tudo bem contigo? — Tô. — Cê tá diferente. — Tô cansado só. — Cuidado pra não virar igual eu: confundir cansaço com vazio. Ele se levanta, dá dois tapinhas no meu ombro e segue atrás do neto. Eu fico ali. Sozinho de novo. O som da risada do Kevin ecoando pelo corredor é o tipo de coisa que me segura por dentro. Mesmo que o resto do mundo tente me puxar pro buraco.
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