O domingo amanheceu abafado, o tipo de calor que gruda na pele e parece não ir embora nem com banho frio. Eu já estava acordada fazia tempo, mas fingia que dormia só pra ganhar uns minutos de silêncio. O som do ventilador misturado com o barulho da rua era o único companheiro que eu aceitava nas manhãs de folga.
Até que o toque do celular me fez suspirar fundo. Lara. De novo.
Atendi sem entusiasmo.
— Oi.
— Oi, nada! Tô indo te buscar.
— Buscar pra quê?
— Minha mãe fez almoço. A casa tá cheia.
— Então tá bom, aproveita.
— Você também vai aproveitar, porque eu já tô a caminho.
Tentei protestar, mas ela desligou antes. A Lara sempre foi assim: decidida, imperativa e dona de uma energia que parece vir de outra dimensão. A mesma energia que me arrasta pra fora de casa, mesmo quando tudo em mim quer ficar escondido.
Quando o carro dela parou na frente do meu portão, eu ainda tentava achar uma desculpa plausível pra recusar. Mas o sorriso dela, pendurado na janela, não deixava espaço pra fuga.
— Anda logo, Sarah! Você parece uma senhora indo pra missa!
— Eu só não vejo necessidade de fazer festa pra comer.
— Pois devia. A vida é curta e minha mãe cozinha como se o mundo fosse acabar amanhã.
Entrei no carro, ajeitando a bolsa no colo. O caminho até lá foi cheio de curvas e lembranças. Fazia anos que eu não subia até a casa da família dela e, mesmo com o tempo, aquele lugar continuava igual: barulhento, vivo, cheio de vozes e cheiros misturados. O tipo de casa que respira amor, mesmo entre os gritos.
Quando chegamos, o portão já estava aberto e o som de risadas vinha lá de dentro. Lara desceu primeiro, gritando como se o bairro inteiro precisasse saber que ela tinha chegado.
— MÃÃÃE, OLHA QUEM EU TROUXE!
Mariana apareceu na varanda, com o avental sujo de molho e um sorriso que fazia qualquer um esquecer do calor. O cheiro de arroz, feijão e carne cozida vinha da cozinha, misturado ao de pão fresco.
— Meu Deus, menina! Quanto tempo! — ela disse, abrindo os braços.
— Oi, dona Mari — respondi, um pouco sem graça.
— Dona nada. Me chama de Mari, que "dona" me faz parecer velha. Entra, vem ver os meninos, tá todo mundo aí.
E estava mesmo. A casa parecia um formigueiro humano. As vozes se misturavam, a televisão gritava alguma coisa sobre futebol, e o som de risadas se espalhava pelos cômodos. Na sala, Tiago estava com Kevin no colo, fingindo que o neto dirigia o controle remoto como se fosse um carro. O garotinho ria com a boca aberta, mostrando os dentinhos pequenos.
— Olha só quem veio, pai! — disse Lara, apontando pra mim.
Tiago levantou o olhar e assentiu com aquele jeito firme, mas tranquilo.
— Ah, a mocinha sumida. Seja bem-vinda.
Sorri de leve. A figura dele ainda impunha respeito. Mesmo mais velho, continuava com o mesmo olhar que atravessava qualquer um.
Os outros irmãos estavam espalhados pela sala e cozinha:
Bento e Anny, os gêmeos de vinte e dois, discutiam sobre quem ia lavar a louça depois. Davi, com vinte, estava no sofá jogando no celular e rindo alto de alguma besteira. Luísa, aos dezenove, ajudava a mãe a arrumar a mesa, enquanto tagarelava sobre algo que ninguém ouvia de verdade. E Heitor, o caçula de dezoito, estava encostado na parede, com um olhar de quem já planejava fugir da bagunça pra rua.
A família inteira parecia uma orquestra desorganizada, cada um tocando um instrumento diferente e, mesmo assim, tudo soava certo.
Sentei num canto da mesa, meio deslocada, observando. Mariana ia e vinha com travessas, oferecendo comida como quem distribuía abraços. Tiago ria de alguma história do Bento, e Kevin já fazia bagunça tentando alcançar o copo de suco.
Foi nesse caos que ele apareceu.
Caique veio da escada, descalço, camiseta preta e uma expressão que misturava cansaço e atenção. Tinha o cabelo um pouco bagunçado e o olhar afiado como sempre. Parou na porta, observando a cena por alguns segundos antes de se aproximar.
Kevin foi o primeiro a perceber.
— Papai! — o garoto gritou, pulando do colo do avô.
Caique o pegou no ar com facilidade, apoiando-o num braço só.
— Tá aprontando já, hein, terrorista.
— Tô brincando com o vovô!
— Sei. Aposto que o vovô deixou você fazer bagunça.
Tiago riu, batendo na perna.
— A casa é dele, ora. Aqui quem manda é o Kevin agora.
Caique se abaixou pra ajeitar a camiseta do filho e, por um instante, o barulho da casa pareceu diminuir. Ele não olhou pra mim e eu também não me atrevi a olhar por muito tempo. Mas havia algo diferente naquela casa. Uma sensação estranha de segurança que eu não lembrava de sentir em lugar nenhum.
Lara se jogou na cadeira ao meu lado, servindo dois pratos ao mesmo tempo.
— Tá vendo? Eu te disse que cê precisava sair de casa. Aqui é o lugar mais barulhento, mais doido e mais cheio de amor do mundo.
— É... parece mesmo.
— "Parece" nada. — Ela deu uma piscadinha. — Aqui é onde as coisas ruins esquecem da gente por um tempo.
Observei em silêncio. E, pela primeira vez em muito tempo, deixei o som das risadas me alcançar. Deixei o cheiro de comida e o som da vida comum preencher o vazio.
Talvez Lara tivesse razão. Talvez existissem lugares onde a dor ficava menor, mesmo que só por um domingo.