5. Sarah

624 Words
O almoço virou uma bagunça gostosa. Mariana servia todos como se o mundo fosse acabar, e os irmãos falavam ao mesmo tempo, rindo e se provocando. A casa transbordava vida. Kevin subia no colo de um e de outro, cheio de energia, até que parou de novo com o pai. Caique o ajeitou no colo, calado, só observando. Ele quase não falava, mas o jeito como olhava o filho bastava. Tiago contava uma história antiga, e todos riam. Mariana interrompia pra mandar alguém pegar mais arroz, e Luísa reclamava do calor. Aquele caos era bonito de ver, e completamente diferente de tudo o que eu conhecia. Lara cutucou meu braço, sorrindo. — Viu só? Eu disse que era bom estar aqui. — É... parece outra vida — murmurei. Caique passou por trás da mesa, levando o prato pra cozinha. O perfume dele ficou no ar por um instante, e eu olhei sem querer. Ele não notou, ou fingiu não notar. E eu voltei a encarar o prato, disfarçando. Mariana se sentou por fim, limpando as mãos no avental. — Aqui ninguém come pouco, hein. — E sorriu pra mim. — Enche o prato, filha. Aqui ninguém passa vontade. Sorri de volta. Pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de ficar. Talvez ali, no meio do barulho e da bagunça, existisse um pedacinho de paz que eu não sabia que procurava. O almoço seguiu com brincadeiras, piadas internas e vozes se sobrepondo. Bento e Davi começaram uma guerra de guardanapo, Mariana ameaçava bater nos dois com a colher de p*u, e até o pequeno Kevin entrou na disputa, jogando arroz no próprio cabelo. Eu só observava. Comia devagar, em silêncio, absorvendo tudo. A naturalidade com que aquela família se amava me deixava desconfortável e, ao mesmo tempo, estranhamente confortável. Era como estar em um filme e, por alguma razão, eu tinha sido convidada pra sentar no fundo da cena. Caique voltou da cozinha e se encostou na parede, de braços cruzados, só vigiando a bagunça. Os olhos dele, sempre atentos, sempre sérios, passavam por todos. Incluindo eu. Mas, como sempre, olhei pro lado antes que fosse notado. Lara ria com a boca cheia, contando uma história antiga da época da escola. Eu lembrava daquele dia. Eu estava lá. Mas na lembrança dela, eu nem aparecia. Era sempre assim. Mesmo perto, eu era invisível. — Tá tudo bem? — Mariana me perguntou, do nada, enquanto me servia mais suco. Assenti com um sorriso educado. — Tá sim. Obrigada. Ela me olhou por mais tempo do que eu gostaria. Como se enxergasse o que eu escondia. Como se sentisse. Mas não insistiu. Só apertou de leve o meu ombro e seguiu servindo os outros. Mais tarde, quando a mesa estava vazia e a louça amontoada, me levantei pra ajudar. Lara tentou impedir, mas Mariana já tinha aceitado minha ajuda com um sorriso tranquilo. — Obrigada por isso — falei, lavando um prato. — Pelo quê, menina? — Por me deixar aqui. — A gente não "deixa" ninguém. Quem entra nessa casa é recebido. Você é da casa, entendeu? Engoli em seco. Só assenti. No fim da tarde, Lara me levou até o portão. O céu estava alaranjado, o ar quente. As vozes da casa ainda ecoavam, mesmo de longe. Kevin gritava, Davi xingava alguém, e Mariana brigava com todos ao mesmo tempo. — E aí, curtiu? — Lara perguntou, parando ao meu lado. — Mais do que eu devia. Ela sorriu. — E amanhã? Quer vir de novo? — Não sei. Acho que não vai dar! Foi m*l, Lara! — Tá bom. Eu insisto de novo. Rimos. Mas por dentro, algo tinha mudado. Uma fresta tinha se aberto, uma porta que eu nunca soube que existia.
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