6. Caique

664 Words
O sol ainda nem tinha se decidido se aparecia quando eu levantei. A casa estava num raro silêncio, o tipo que só existe antes das vozes dos meus irmãos tomarem conta de tudo. Kevin dormia espalhado na minha cama, com o rosto grudado no travesseiro e uma perna caída pro lado de fora. Levantei devagar, sem fazer barulho. Desci a escada, sentindo o cheiro do café que a minha mãe já tinha deixado pronto. Mariana sempre acordava antes de todo mundo. Mesmo depois de sete filhos, ela ainda achava força pra cuidar da casa como se fosse um quartel, mas com carinho no lugar de bronca. Na cozinha, meu pai estava sentado, mexendo no celular. Sem camisa, com o cabelo despenteado e o braço jogado sobre a mesa como se fizesse parte dela. — Café tá quente — disse sem levantar os olhos. Peguei a caneca, servi sem falar nada, e sentei em frente a ele. Silêncio. Mas nunca desconfortável. O convívio entre eu e ele era feito disso: poucas palavras, olhares que diziam mais que frases. E ainda assim, às vezes ele sentia necessidade de falar, como se algo dentro dele precisasse ser passado adiante, mesmo que ele odiasse isso. — Aquela menina — ele disse, do nada — a amiga da Lara... Sarah, né? Levantei os olhos devagar. — Que tem ela? — A Mariana falou dela ontem à noite. Disse que tem um olhar diferente. — Diferente como? — Triste. Vazio. Mas não de quem sente pena de si mesma. De quem aprendeu a não esperar mais nada de ninguém. Fiquei em silêncio, bebendo o café. Não era a primeira vez que eu notava aquilo também. Mas não era algo que se comentava. Era algo que se absorvia. Meu pai continuou: — Mariana acha que ela carrega coisa demais pra uma menina tão nova. Disse que, quando olha pra ela, sente vontade de proteger. — A mãe sente isso por quase todo mundo. — É. Mas ela disse que com essa menina foi diferente. — Ela falou por quê? — Não. Só disse que foi como se tivesse visto um espelho. E tua mãe não fala essas coisas à toa. Deixei a caneca na mesa, ficando em silêncio. Horas depois, já com o calor pesando o ar e os meninos fazendo bagunça lá fora, eu fiquei na varanda com Kevin no colo. Ele brincava com um carrinho, correndo as rodinhas no meu braço. A rua estava calma, mas movimentada do jeito de sempre. Gente passando, vizinho gritando, criança soltando pipa. E lá no fim da ladeira, vi Lara descendo com ela, Sarah. Não pararam. Estavam indo pra padaria, provavelmente. Vi de longe, mas o jeito de andar da Sarah era o mesmo: pequeno, contido, como quem não quer ser notada. Kevin falou algo, mas eu nem ouvi direito. Olhei até elas sumirem na esquina. Eu sabia que ela conhecia a casa. Sabia que era amiga da minha irmã. Mas tinha algo diferente ali. Não no que ela dizia; ela m*l falava, mas no que ela não deixava escapar. Não era o tipo de garota que pedia atenção. Era o tipo de garota que parecia acostumada a não receber nenhuma. E talvez por isso mesmo, chamava tanto. Mais tarde, Mariana cruzou comigo no corredor com um pano de prato no ombro e uma expressão cansada. Parou e me encarou por um segundo. — Você viu a Sarah com a Lara mais cedo? — Vi. — Ela é boa menina. Mas tá quebrada por dentro. — Quebrou como? — Daquele jeito que ninguém vê. Só sente. E então ela seguiu, como se não tivesse deixado nada importante pra trás. Mas eu fiquei parado ali. Porque mesmo sem intenção, minha mãe tinha dito tudo que eu já vinha sentindo, mas me recusava a admitir. Sarah não era só uma menina qualquer que a Lara trouxe. Ela era... Algo que me fazia parar. Sem que eu soubesse o motivo. Sem que eu quisesse descobrir. Ainda.
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