A moto subiu o último trecho do morro num ritmo mais lento. Eu conhecia cada buraco daquele asfalto quebrado, cada esquina m*l iluminada, cada janela que se fechava quando alguém passava de capacete mesmo que, no meu caso, fosse desnecessário.
Sarah continuava calada na garupa, sentada reta, como se tivesse medo até do vento. Não encostava em mim. Nem mesmo nas curvas mais fechadas. Dava pra sentir o esforço que ela fazia pra existir o mínimo possível. Como se até aceitar carona fosse culpa.
Quando parei perto da viela que dava acesso à casa dela, ela desceu antes mesmo que eu desligasse o motor, ajeitando a mochila no ombro e puxando a blusa pelo punho, cobrindo o braço como quem fazia isso por reflexo.
— Obrigada — disse, com a voz baixa, os olhos fixos no chão de cimento irregular.
Eu assenti com a cabeça, ainda segurando o guidão.
Ela virou pra sair, mas eu chamei antes:
— Sarah.
Ela parou. Virou só o rosto, sem coragem de encarar por completo.
— Posso te perguntar uma coisa?
Ela hesitou, depois assentiu com um movimento quase invisível.
— Por que você vive como se tivesse que pedir desculpa por estar aqui?
O silêncio depois da pergunta foi maior do que qualquer resposta.
Sarah piscou devagar, o queixo tensionando. Por um instante, achei que ela fosse falar alguma coisa. Mas não falou. Só respirou fundo, como quem engole uma verdade que arde, e deu de ombros.
— Porque às vezes... parece que eu tenho mesmo.
E antes que eu pudesse dizer mais nada, ela virou e entrou no beco estreito, desaparecendo na escuridão da viela. Sem olhar pra trás. Sem dar tempo de continuar a conversa.
Fiquei ali por alguns segundos, com o motor ainda ligado e o gosto amargo da resposta dela preso na garganta.
Às vezes, a pior parte de enxergar alguém é perceber que ninguém mais enxerga.
Fiquei parado na viela por alguns segundos depois que ela sumiu. Ainda dava pra ouvir os passos dela nas pedras, ecoando fraco no beco. A frase que ela disse martelava na minha cabeça, mesmo enquanto eu girava o guidão da moto de volta pro caminho da boca.
"Porque às vezes... parece que eu tenho mesmo."
Era o tipo de coisa que não se responde com palavra. Só com presença. E eu tinha BO pra resolver antes de me deixar levar por pensamento demais.
Cheguei na principal, onde os meninos já estavam em posição. A movimentação era menor do que eu esperava, mas o rádio tava pipocando com informações desencontradas desde o começo da tarde.
Uma possível abordagem da polícia no morro vizinho tinha feito alguns dos nossos soldados largarem posto e sumirem por medo, moleque novo demais no corre, sem preparo. E tinha uma entrega atrasada que ninguém sabia onde foi parar.
Encostei a moto, cumprimentei com o queixo dois dos meninos que estavam na entrada da viela, e fui direto pra parte de trás da laje onde o movimento se organizava.
— Quem tá com o rádio 9-2? — perguntei assim que cheguei.
— Era o Rafael, mas ele sumiu. Disse que foi ver a namorada.
— A entrega da noite passada chegou?
— Chegou, mas só metade. Tão dizendo que foi erro de conta, mas eu acho que alguém tirou do pacote.
Respirei fundo, coçando a nuca com a ponta dos dedos.
— Cadê o Deco?
— Na parte alta, com o menor que tá vindo do São Carlos.
— Manda descer. Quero todo mundo aqui embaixo até meia-noite. Se tiver alguém fazendo entrega no meio da pista sem autorização, eu mesmo quebro.
— Tranquilo, chefe. Vou chamar.
Resolvi tudo em pouco mais de uma hora. Coloquei dois dos novatos pra revezar rádio, dei aviso direto pra quem tava vacilando com horário e deixei claro que da próxima vez não ia ter conversa. Não gritava. Nunca precisei.
Aos poucos tô herdando o morro do meu pai, começou com umas tarefas boba, contar dinheiro, ele me levando junto quando ia cobrar quem devia.
Fui vendo o jeito que ele falava pouco e metia terror de monte. E quando menos percebi eu já era uma copia mas novo dele, errei muito até chegar no hoje.
Fernanda mesmo foi um erro quando achei que um dia ela era uma mulher que ia fecha 100% comigo, igual minha mãe e meu pai. Mas só não me arrependo dela porque querendo ou não, meu filho veio desse erro.
Sei que todo mundo fala que eu sou meu pai, que eu era igualzinho a ele. Mas meu jeito é outro, mais direto, mais pesado quando precisava. Respeito não se cobra no grito, se impõe no silêncio.
Na volta, já era madrugada.
O morro começava a sossegar de novo. Algumas janelas ainda tinham luz, mas a maioria das vozes já dormia. O ar estava mais fresco. O som dos grilos se misturava com o ronco leve da moto subindo o caminho de casa.
Passei pela rua de Sarah de novo. A porta da casa dela estava fechada, mas uma lâmpada fraca na entrada ainda estava acesa. Não sei por quê, mas olhei duas vezes antes de continuar.
Cheguei em casa com a cabeça cheia.Desliguei a moto, guardei onde sempre guardo. A casa já estava escura, mas a luz da cozinha ainda acesa, minha mãe sempre deixava.
Subi devagar, sem barulho. Kevin devia estar dormindo.Tirei a camiseta no caminho, deixei pendurada na maçaneta do quarto.
O corpo doía. Mas era outro peso que incomodava.
Sentei na beira da cama, com a luz apagada, só o clarão da rua entrando pela janela. Encostei os cotovelos nos joelhos, mãos entrelaçadas, cabeça baixa.
Resolvi o BO da noite. A entrega foi ajustada. Os moleques vacilão enquadrados. Mas nada daquilo saía da minha mente.
A Sarah e a forma como ela falou, o jeito que ela andava. A merda que ela carregava por dentro e fingia segurar com a ponta dos dedos.
Ela tava desmoronando em silêncio e agora que eu vi, não tinha como fingir que não vi.