18. Sarah

1335 Words
O dia tinha passado arrastado. Cada hora na farmácia parecia pesar mais que a anterior, e o corpo, ainda dolorido dos empurrões do meu pai, doía no final do expediente como se eu tivesse carregado sacos de cimento nas costas. Cheguei em casa no fim da tarde, sentindo a tensão voltar assim que coloquei os pés na rua estreita. A mesma rua. A mesma calçada. A mesma porta. Me preparei pra fingir. Pra baixar a cabeça. Pra não responder se me perguntassem qualquer coisa. Mas, pra minha surpresa, quando virei a esquina, o que me esperava não era grito. Era a voz da Lara. — Oi, tia! — ela disse, animada, acenando com a mão como se tudo estivesse normal. Ela estava encostada no portão, com o celular na mão e uma expressão de quem estava ali há tempo suficiente pra deixar claro que não aceitava ser ignorada. Meu pai apareceu logo atrás da janela da sala. O olhar dele atravessou a grade com raiva. Ele nunca escondeu o que achava da Lara. Sempre disse que ela era "perdida", "folgada", "m*l exemplo", que se eu andasse com ela ia acabar "com as pernas abertas" igual ela. A presença dela ali, sorrindo e dizendo "Oi, tia", fez a expressão dele fechar na hora. Ele abriu a porta, devagar, já com o cigarro no canto da boca. — Essa daí de novo, é? — ele disse, com veneno na voz. — Vim chamar a Sarah pra tomar sorvete com o Kevin — Lara respondeu antes mesmo de eu respirar. — Coisa de criança. Ela merece, né? Ele me olhou como se estivesse contando até dez por dentro. — Você tem serviço pra fazer em casa. E olha a hora. — Já fiz, pai — murmurei, sem levantar os olhos. Ele ficou em silêncio por um segundo. Não falou mais nada. Só me encarou, depois deu uma baforada pro lado e fechou a porta com força. — Achei que ia me cuspir fogo — Lara sussurrou, puxando meu braço. — Você é doida. — E você precisa sair. Vai ou vai? Suspirei, olhando pro portão fechado atrás de mim. Lara sorria com aquela leveza que eu não sabia sentir. Sorvete, ela disse. Mas ali, naquele momento, aquilo parecia ser exatamente o que eu precisava. Nem que fosse por meia hora. — Tá bom — murmurei. — Vamos. Lara me puxou pela mão antes que eu mudasse de ideia. Não foi delicada, foi decidida. Como se soubesse que, se me desse tempo demais, eu voltaria correndo pro quarto e me trancaria lá dentro por puro reflexo. — Pega só uma blusa — ela disse, baixinho. — Tá ventando lá em cima. Entrei de novo, rápida, tentando não fazer barulho. A casa tinha aquele cheiro de sempre: cigarro velho e comida requentada. Meu pai não falou nada da sala, mas eu sentia o olhar dele acompanhando cada passo meu como uma mira. Fui pro meu quarto, peguei uma jaqueta fina e enfiei o celular no bolso. Nem olhei no espelho. Eu já sabia que a maquiagem tinha feito seu trabalho: esconder o que era possível. Quando desci, minha mãe estava perto da pia, lavando louça em silêncio. Ela não levantou o rosto, mas o olhar dela foi até mim por um segundo, um daqueles olhares que pediam desculpa sem coragem de falar. Eu desviei. Saí antes que o ar ficasse pesado demais. Lara já estava no portão, como se estivesse protegendo minha saída com o próprio corpo, e falou alto de propósito: — Tia, a gente vai ali rapidinho, tá? Já já eu trago ela! Meu pai não respondeu. Só ouvi o som seco da televisão aumentando de volume. Lara revirou os olhos e me puxou de novo, agora andando com pressa. — Ele é sempre assim? — ela perguntou, sem olhar pra mim, mas com a voz um pouco mais baixa. — Ele... é. — Foi o máximo que consegui dizer. Ela segurou minha mão com mais força por um momento, como se quisesse dizer alguma coisa, mas escolheu não. Lara falava muito, mas tinha horas que ela entendia que falar era pouco. A gente foi descendo a rua, virando a esquina e pegando o caminho que levava até onde o carro dela estava estacionado. Eu andava com o corpo tenso, esperando ouvir alguém me chamar de volta. Esperando a porta abrir, um grito, qualquer coisa. Mas nada aconteceu. Quando entrei no carro, foi como se eu tivesse atravessado uma fronteira invisível. — Pronto — Lara disse, ligando o motor. — Agora respira. Eu só encostei a testa no vidro por um segundo. O ar dentro do peito estava preso fazia tempo demais. — Kevin tá onde? — perguntei. — Tá em casa, com a minha mãe. Mas ele tá em modo "eu quero sorvete" desde cedo. — Ela sorriu. — E ele não para de perguntar por você. Senti um aperto estranho no meio do peito, mas não era r**m. Era... diferente. — Ele gosta de todo mundo — respondi. — Não. — Lara me cortou. — Ele gosta de você de um jeito diferente. Ele te escolheu, Sarah. Criança faz isso. E criança não escolhe gente r**m. Eu olhei pra ela, sem saber o que responder. O carro subia as ruas, e a cada curva eu sentia meu corpo soltando um pouco, como se a distância da minha casa afrouxasse algo em mim. Quando chegamos na casa grande, o portão já estava aberto. O som de risada vinha lá de dentro, e o cheiro de comida ainda estava no ar, misturado com perfume e aquele tipo de tranquilidade que parecia injusta de tão fácil. Kevin apareceu correndo antes mesmo de eu entrar direito. — TIA SARAH! Ele se jogou em mim com força, braços apertando minha cintura, e eu quase perdi o equilíbrio. Segurei ele no susto e ele levantou o rosto com aquele sorriso inteiro. — Você veio! Você veio! Vamos tomar sorvete? — Vamos — respondi, e minha voz saiu mais leve do que eu esperava. Mariana apareceu logo atrás, limpando as mãos num pano de prato. — Olha ela aí... — disse, me olhando como se estivesse me avaliando por dentro. Não com julgamento. Com cuidado. — Entra, filha. Tá ventando. Vocês vão onde? — Levar o Kevin pra tomar sorvete — Lara respondeu por mim. — Pra ele parar de encher o saco. — Ei! — Kevin protestou. — Eu não encho saco. Eu só peço. Mariana riu e ajeitou a gola da minha jaqueta. — Vai, então. Mas volta cedo. Eu assenti, e foi quando senti algo no ambiente mudar, como se a casa respirasse diferente. Caique apareceu na sala. Não sei se ele já estava ali ou se tinha acabado de chegar. Só sei que ele surgiu com aquela presença silenciosa, camiseta escura, cabelo cortado rente, olhar sério. Parou no meio do caminho, primeiro olhando pro filho grudado em mim e depois olhando pra mim. Foi rápido, mas foi inteiro. Kevin soltou minha cintura e correu até ele como se o mundo fosse seguro só porque o pai estava ali. — Papai! A Sarah veio! Vamos tomar sorvete! — Vai com a Lara — Caique respondeu, sem tirar os olhos de mim por um instante que durou mais do que devia. — Cê tá com dinheiro aí? Lara ergueu a mão. — Tô, chefe. Não precisa mandar boleto. Ele deu um meio sorriso mínimo e passou a mão no cabelo do Kevin. — Se comporta. — Eu sempre me comporto! — Mentiroso. Kevin gargalhou, e eu senti a garganta apertar. Não de medo. De uma coisa que eu não estava acostumada: vontade de ficar ali mais um pouco. Mas Lara já abriu a porta e me puxou de novo. — Bora antes que a sorveteria feche e você volte a ser uma chata arrependida. Saímos. Kevin pulando entre nós duas, falando sem parar e eu segui junto, tentando não pensar no olhar de Caique me acompanhando até eu desaparecer pelo portão.
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