19. Sarah

1177 Words
A gente desceu a rua rindo, com Kevin pulando entre nós duas como se tivesse molas nos pés. Ele segurava minha mão com uma confiança que eu não entendia, e a da Lara com a naturalidade de quem manda no mundo. O vento estava fresco, bom, e a noite tinha aquele cheiro de comida de esquina e perfume que sempre pairava no morro quando começava a ficar tarde. — Tia Sarah, você gosta de sorvete de quê? — Kevin perguntou, olhando pra cima pra me ver melhor. — Eu... acho que de chocolate. — Eu gosto de chicrete. — Chicrete não é sabor. — É sim. Chicrete é rosa. Lara gargalhou. — Ele tá falando de "chiclete", Sarah. Aquele sorvete que tem bolinha. — Ah. Então tá. — Olhei pra ele, fingindo seriedade. — Você tem gosto duvidoso, sabia? — Eu tenho gosto de criança! Lara apertou meu braço, rindo. — Você tá vendo? É por isso que eu trouxe. Pra você lembrar que existe vida além de trabalhar e voltar pra casa com cara de "não fala comigo". — Eu não volto com essa cara. — Volta sim. Você só não percebe. Kevin começou a cantar alguma música inventada, misturando palavras que não combinavam com nada. Eu não consegui evitar o sorriso. A sorveteria ficava numa parte mais movimentada, com umas mesas de plástico na calçada e luzes fortes. Tinha gente conversando alto, criança correndo, casal tirando foto, e um som baixo vindo de uma caixinha no canto. Kevin já entrou puxando a gente como se fosse dono do lugar. — Moço! Eu quero sorvete! — ele anunciou pro atendente, como se aquilo fosse um decreto. O rapaz riu. — Qual sabor, campeão? — Chicrete. E chocolate. E morango. E... — Kevin — Lara cortou. — Você vai escolher dois. — Três. — Dois. — Dois e meio. — Dois. Ele olhou pra mim, pedindo socorro com os olhos. — Dois tá bom — eu disse, tentando ajudar sem piorar. — Se você escolher direitinho, depois você ganha... sei lá... granulado extra. Os olhos dele brilharam. — Granulado! Então eu quero chicrete e chocolate! Lara apontou pra mim. — Viu? Você tem moral. Ele nem me respeita mais. — É porque eu não mando. Eu sugiro. — A diferença é que ele te acha fofa. Eu ele acha chata. O atendente montou o sorvete do Kevin num copão grande demais pra idade dele. Lara pagou antes que eu abrisse a boca pra discutir. Ela me conhecia: eu ia dizer que não precisava, que eu pagava, que era melhor não gastar comigo. — Não começa — ela sussurrou, como se lesse minha mente. — Hoje você só recebe. Pronto. Eu assenti, meio sem jeito. Pegamos uma mesa do lado de fora. Kevin subiu na cadeira, balançando as pernas, e atacou o sorvete como se tivesse passado um ano sem comer doce. — Tá gelado! — ele falou com a boca cheia. — Mas é bom. Lara se jogou na cadeira e cruzou as pernas. — Tá vendo? Isso aqui é terapia. Sorvete e fofoca. — Hoje sem fofoca — eu disse. — Hoje com fofoca sim. — Ela me encarou, sorrindo. — Você sumiu antes. Eu fiquei te mandando mensagem. — Eu dormi cedo. — Sarah... — É sério. Eu só... apaguei. Tava cansada. Ela me observou por alguns segundos, os olhos mais atentos do que o normal. Depois soltou o ar devagar e decidiu não insistir. — Tá. Mas você vai me prometer uma coisa. — O quê? — Que quando você não quiser falar, pelo menos você vai responder "tô viva". Só isso. Pra eu não surtar. Eu engoli seco e assenti. — Eu prometo. Kevin, do nada, apontou a colher pra mim. — Você vai voltar lá em casa amanhã? — Não sei... eu tenho trabalho. — Mas depois do trabalho. — Depois do trabalho eu... vejo. — Eu quero que você more lá. — Ele falou isso com a maior naturalidade do mundo, como se tivesse sugerindo que eu mudasse de canal. Lara arregalou os olhos e soltou uma risada curta. — Kevin, você não pode sair adotando as pessoas assim. — Posso sim. Eu adoto. Eu sou pequeno, mas eu mando. Eu ri, baixinho, e senti uma coisa estranha no peito, não r**m. Só diferente. — Você não manda nada — eu disse pra ele. — Eu mando no papai. — Duvido. — Eu mando. Quando eu faço olho de coelho triste, ele faz tudo. Lara bateu palma, divertida. — Isso é verdade. O Caique vira manteiga com esse menino. Eu não respondi. Só mexi no meu canudo, olhando o gelo boiando no copo. Mas minha cabeça ouviu o nome dele e fez aquele pequeno silêncio interno, como se prestasse atenção demais. Kevin começou a sujar a boca toda de sorvete rosa e marrom, misturando tudo. Lara limpou com um guardanapo e reclamou que ele parecia um "pintor bêbado". Ficamos ali mais um pouco, até ele diminuir o ritmo e começar a bocejar. — Tá com sono, tubarão do céu? — perguntei. — Tô... — ele respondeu, com o olho meio fechado. — Mas eu quero mais. Lara levantou. — Chega. Se você comer mais, você vai vomitar e eu vou te vender. — Não pode vender criança. — Posso trocar por um carregador de iPhone. Ele riu, cansado, e estendeu a mão pra mim de novo. — Vamos embora, tia Sarah. No caminho ele já ia mais quietinho, encostando a cabeça no meu braço de vez em quando. Lara andava do meu outro lado, protegendo a gente do fluxo da rua como se fosse a coisa mais normal do mundo. A volta foi mais lenta. Kevin já não pulava como antes, o corpo pequeno parecia pesado de sono e açúcar. Ele caminhava entre mim e Lara, arrastando um pouco os pés, o copo vazio na mão até Lara tomar e jogar no lixo. — Tia Sarah... — ele murmurou, com a voz mole. — Tô cansado. Eu me abaixei um pouco, segurando a mão dele com as duas. — Quer colo? Ele assentiu na mesma hora, e eu levantei com cuidado. Kevin se encaixou no meu ombro como se fosse o lugar mais natural do mundo, a cabeça pesada caindo perto do meu pescoço. — Tá vendo? — Lara falou baixinho, caminhando do meu lado. — Ele só pede colo pra você e pro meu irmão. Eu tô perdendo espaço nessa família. Eu não respondi. Só ajeitei Kevin melhor, sentindo o calor dele e aquele cheirinho de shampoo infantil misturado com sorvete. A rua estava movimentada, mas não caótica. Luz de poste, som de música vindo de longe, gente conversando em porta de bar. O tipo de noite comum. Até que, virando uma esquina mais abaixo, eu vi primeiro pelo reflexo da luz no cabelo: uma figura encostada na parede, rindo alto, corpo colado em outro. Lara também viu no mesmo instante. O passo dela mudou. Travou meio segundo. E eu entendi antes mesmo de confirmar. Era a mãe do Kevin.
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