15. Caique

1159 Words
O sol ainda estava baixo, mas o calor já começava a subir pelas calçadas. Kevin estava no banco de trás, empolgado com o passeio como se fosse a maior aventura do mundo. Tinha escolhido a música: funk leve, batida animada, e cantava desafinado, chutando o ar como se estivesse dançando no banco. — Mais rápido, pai! Faz barulho de motor! — Isso aqui é carro, não nave espacial — respondi, com um canto de sorriso. — Mas pode ser nave também! Se você apertar o botão, voa. Igual no sonho! Balancei a cabeça, mantendo a atenção na rua. A área era nossa, segura, mas isso nunca era garantia de tranquilidade. O trajeto era curto, uma volta pelo bairro, só pra ele matar a vontade. Eu já ia estacionar na praça de sempre quando, virando a esquina, vi uma silhueta familiar. Salto alto. Saia apertada. Top colado. Unha de acrigel. Peruca escovada. A mãe dele. — Merda... — murmurei, pisando mais leve no freio. Kevin se endireitou no banco, os olhos arregalando como se tivesse visto um tesouro. — Mãe! MÃÃÃE! Ele encostou o rosto no vidro, batendo com a palma da mão. — MÃE! TÔ AQUI! É O CARRO DO PAPAI! Ela virou o rosto por meio segundo. Me viu. Viu ele e ignorou. Simples assim. Seguiu andando, rebolando pela calçada como se fosse meio-dia e não tivesse um filho chamando por ela a poucos metros de distância. Nem olhou de novo. Nem desacelerou o passo. Kevin bateu mais forte no vidro. — Mãe? MÃE! POR QUE ELA NÃO OLHOU? PAI! É A MÃE! Estacionei sem responder, o sangue já subindo quente pelo pescoço. Olhei pelo retrovisor. O moleque tinha o sorriso morrendo no rosto. — Ela não ouviu? — perguntou, baixinho. — Ouviu. — Então por que ela não parou? Soltei o cinto sem responder. Saí do carro e fechei a porta com força. Ela já estava virando a esquina, fingindo que não me via. Mas eu não era homem pra ser ignorado. — Ô, Fernanda. — A voz saiu firme, seca. Não gritei. Não precisei. Ela fingiu não ouvir. — Fernanda. Dessa vez, ela parou. Virou devagar, ajeitando a alça do top no ombro, a cara cheia de deboche. — Ah, agora você lembra o meu nome? — ela disse, cruzando os braços. — Ele tá no carro te chamando há dois minutos. Fingir que não viu foi o quê? Pra provocar? — Eu tenho vida. — Não. Você tem um filho. Que te viu. E quase caiu do banco tentando chamar você. Ela bufou, revirando os olhos. — Não começa com drama, Caique. Toda vez a mesma coisa. Toda vez que eu passo por aqui... — Toda vez que você passa por aqui, ele acha que vai te ver. E toda vez, você pisa em cima disso. — Ele tá com você, não tá? A roupa tá limpa, o cabelo tá cortado, tá bem alimentado. O que você quer mais de mim? Aplauso? Dei um passo na direção dela. — Eu quero que você seja mãe, p***a. Ela recuou meio passo, cruzando os braços mais firme. — Não me encosta. — Nem preciso. Só quero que você entenda uma coisa: se você aparecer pra desfilar, pra causar, pra jogar charme pra vagabundo na esquina, faz. Mas não passa na frente do meu filho e finge que ele não existe. Porque da próxima vez, eu não vou falar calmo. Ela manteve o queixo erguido, mas a expressão já não era tão segura quanto antes. — Tá me ameaçando? — Tô te avisando. E aviso só uma vez. Ela ficou em silêncio, mas o peito subia e descia mais rápido. Depois girou nos saltos e continuou andando. Voltei pro carro. Kevin estava sentado com o rosto encostado no vidro, sem sorrir. Entrei e liguei o motor. — Ela não quis me ver, né? — ele perguntou, a voz baixinha. Respirei fundo. — Ela só tava com pressa, filho. — Ah. Tá. Silêncio. Ele não perguntou mais nada. Só deitou no banco e ficou quieto, com os olhos fixos no céu pelo vidro da janela. E naquele momento, o mundo inteiro coube no som do meu filho se calando. E no gosto amargo de saber que ele já estava aprendendo a engolir isso. (...) O clima dentro do carro ainda tava estranho. Kevin, calado no banco de trás, segurava o boneco novo que eu tinha acabado de comprar pra ele. Tinha escolhido com empolgação quando a gente parou na loja. Disse que queria aquele "porque parecia um ninja que voa". Mas agora, o boneco só ficava ali, parado no colo dele, como se tivesse perdido a graça antes mesmo de sair da embalagem. Não falei nada no começo. Dei tempo. Deixei a música tocar baixinho. Peguei o caminho mais longo de propósito. Na segunda parada, comprei um sorvete. Um daqueles que vinham com brinquedo em cima, mais colorido que doce de festa infantil. Entreguei pela janela aberta do banco da frente. — Toma aí. Sorvete de tubarão. Tem até brinquedo na tampa. Ele pegou. — Obrigado. Só isso. Nada de sorriso, nem aquele gritinho que ele sempre dava quando via doce. — Não vai nem abrir? — Depois. Dirigi em silêncio por mais uns minutos, até parar o carro em frente à praça que ele sempre pedia pra ver os pombos. Nem desceu. — Quer ir ali? — Não. Virei pra olhar pra ele. Kevin tinha os olhos baixos, o queixo encostado na mão. O boneco no colo, o sorvete no banco. — Ela não te viu, filho. Mas você sabe que o problema não é você, né? Ele não respondeu. — A culpa não é sua. Ela é assim com todo mundo. Silêncio. Kevin piscou devagar. Depois soltou, quase sussurrando: — Ela me viu sim. Eu sei. Engoli seco, olhando pra frente. A música no rádio mudou. Um funk melódico, baixo, quase triste. — Eu tentei animar você, mas acho que tô piorando — confessei, mais pra mim mesmo do que pra ele. Kevin mexeu no boneco, sem olhar. — Tá tentando. Já é alguma coisa. Quase parei o carro ali mesmo. O que se fala pra um moleque de quatro anos que diz um negócio desses? Dei partida de novo. A voz dele era calma. Mas o olhar, já tinha a mesma coisa que vejo nos homens que passaram por coisa demais cedo demais. E isso me deu raiva, muita! Não só da mãe dele, mas do mundo. Do mundo que se acostuma a ver criança desistindo de se sentir amado. Segui dirigindo, devagar, com a mão no volante e a cabeça longe. E naquele silêncio esquisito, entendi que não dava mais pra tentar tapar buraco com brinquedo ou sorvete. Kevin não precisava de distração. Precisava de estabilidade.De alguém que ficasse e que não fingisse que não viu. E por mais que eu tentasse fugir disso, já sabia: esse alguém ia ser eu. Nem que fosse sozinho.
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