O primeiro som que ouvi foi um baque leve na porta, depois passos correndo. Tentei manter os olhos fechados, mas a paz durou menos de três segundos.
— Papai, acorda!
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Kevin já tinha subido na cama como um raio, joelho afundando nas minhas costelas.
— Acorda, acorda! Vamos andar de carro! Eu sonhei que a gente tava correndo e tinha um cachorro gigante atrás e eu tava rindo, mas você tava com cara de bravo, só que depois você também riu! E aí o carro voava!
— Você sonhou tudo isso? — murmurei, a voz ainda rouca.
— Sim! E cê tava sem camiseta igual agora. Só que com capa de herói!
Abri os olhos, tentando entender metade da história. Kevin já estava em pé sobre o colchão, apontando pra janela.
— Olha o sol! Já tá de dia! Vamos, pai. Anda! Anda!
Estiquei o braço, puxei ele devagar e deitei ele do meu lado, segurando pelas costelas como se fosse um saco de batata leve.
— Primeiro: bom dia.
— Bom dia!
— Segundo: ninguém sai sem café. Nem piloto de carro voador.
Ele fez bico, mas não resistiu quando dei um leve aperto na barriga dele, fazendo cócegas.
— Tá bom... mas pode ser pão com chocolate?
— Pão com chocolate e suco de laranja. Nada de sair de barriga vazia.
Ele assentiu, já se jogando do colchão pro chão, correndo em direção ao corredor.
— Vóóóóóó, faz pão pro meu pai também! — gritou, como se a casa precisasse saber que o herói da vez estava acordado.
Fiquei uns segundos sentado na beira da cama, passando as mãos no rosto. O quarto estava quente, abafado como sempre, e o ventilador no canto fazia mais barulho do que vento.
Mais um dia.
Mais uma sequência de rotinas, vozes, problemas pequenos pra resolver, e os grandes que eu ainda nem sabia que iam chegar.
Me levantei, vesti a camiseta jogada na cadeira, passei a mão pelo cabelo cortado rente, fui atrás do meu filho.
Na cozinha, Mariana já estava mexendo no café, a mesa sendo montada por Luísa com pressa, e Kevin girando em volta da mesa, falando sobre o "carro com foguete" que ele queria dirigir comigo.
Mesmo com o caos, a casa ainda parecia o único lugar onde as coisas faziam sentido. E antes mesmo de eu tomar o primeiro gole de café, Kevin já puxava meu braço com força.
— Depois do pão, a gente vai? Só um passeiozinho!
— Depois do pão — repeti. — Mas sem foguete. Hoje a gente fica no chão.
Kevin já estava na cadeira, com a boca cheia de pão e o rosto todo sujo de requeijão, quando eu sentei à mesa. Luísa falava sem parar sobre um vídeo qualquer que viu no celular, e Mariana, como sempre, fazia mil coisas ao mesmo tempo: arrumava a mesa, passava pano no balcão e ainda respondia cada um como se tivesse dez ouvidos.
Me servi de café, coloquei dois pães no prato, e só então o dia começou de verdade.
— Lara me mandou mensagem — Mariana falou do nada, sem tirar os olhos da frigideira. — Disse que a Sarah sumiu.
Parei a mão no ar, com a xícara a meio caminho da boca.
— Sumiu como? — Luísa perguntou, já toda atenta.
— Sumiu tipo "não respondeu mais nada", ué. Foi embora ontem meio estranha e não apareceu mais. Nem falou com a Lara hoje cedo. — Mariana virou o ovo na frigideira. — A menina deve ter ido direto trabalhar ou voltou pra casa e ficou sem celular. Sei lá.
— A Sarah não é muito de sumir assim, né? — Anny entrou na cozinha, amarrando o cabelo, já pronta pra meter a colher.
— Ela tem vida, né? — respondi, dando o primeiro gole de café. — Diferente da Lara, da Luísa e de você, Anny.
— Que gratuito — Anny fez uma careta. — Só porque a gente não vive de resolver BO no morro?
— Porque vocês vivem em torno de si mesmas — retruquei, direto. — Sarah não é assim. Ela se vira. Se afasta. Vai trabalhar, cuidar da vida dela, sem ficar postando frase no status todo dia.
Mariana suspirou, largando o pano no balcão.
— Ela parecia bem aqui... no começo. Depois ficou esquisita mesmo.
— Ela já chegou esquisita — falei. — Só ninguém quis enxergar.
— Esquisita como? — Luísa perguntou, cutucando o ovo com a ponta do garfo.
— Do tipo que se encolhe no canto, que observa tudo, mas não fala nada. A garota vive em modo de fuga. O tempo todo.
A cozinha ficou um pouco mais silenciosa. Só o barulho do ventilador e do Kevin mastigando com gosto.
— Você não gosta dela, né? — Mariana perguntou, casual, mas me olhando de canto.
— Nem conheço — dei de ombros.
— Mas observa.
Não respondi. Continuei comendo, devagar.
— Lara disse que ela nunca passou a noite fora de casa. Que nem em festa com as amigas ela vai — Mariana insistiu. — Se ontem ela ficou aqui e hoje já sumiu, tem alguma coisa errada.
— Ela tem pai? — Luísa perguntou, confusa.
— Tem. E parece que é pior que muito bandido por aí. — Mariana jogou os talheres na pia. — Aquela menina vive pisando leve, como quem pede desculpa por existir. Ela não aprendeu a relaxar.
Kevin puxou minha manga com os dedos sujos.
— A tia Sarah não vai mais vir, pai?
Engoli seco. Desviei o olhar.
— Deve voltar, filho. Quando puder.
Kevin sorriu e voltou pro prato, como se minha palavra fosse lei. Como se o mundo estivesse seguro só porque eu disse que estava.