K A Y L A
Os dias se passaram de forma arrastada e aquele nome ainda vinha em minha mente. Tony! Todas as noites eu sonhava com aquela lembrança e todos os dias Alice vinha me fazer companhia. Ela sugeriu que eu escrevesse uma carta para que ela entregasse à Tony. No começo, fiquei um pouco confusa, pois não fazia ideia do que escrever, mas meu último sonho me deu bastante coisa para pensar.
Eu estava parada lendo alguns arquivos antigos sobre a época em que uma empresa fabricava armas. Eu pisquei por um momento e o Tony apareceu de armadura. Eu tinha uma espada e tentei atingí-lo, mas graças a Deus sua armadura o protegeu. Nós dois lutávamos, mas eu não sabia o motivo. Eu não queria machucá-lo, mas parecia que não tinha controle sobre meu corpo ou minha mente.
Depois de dois dias isolada pensando, me sentei à escrivaninha e abri meu novo caderno em branco. Pensei no que escrever, mas depois de meia hora tudo fluiu e eu escrevi uma pequena carta.
— Já posso entrar?
A voz de Alice soou gentil e eu olhei para a porta, onde ela tinha uma bandeja com meu almoço e um sorriso no rosto. Eu sorri educada de volta e ela entrou, pondo a bandeja na escrivaninha.
— Você ficou sozinha por dois dias. — ela observou
— Eu precisava pensar.
— Você se lembrou de mais alguma coisa?
— Não. — menti — Só queria pensar no que escrever ao Tony.
— E você conseguiu?
Suspirei cansada e lhe entreguei o envelope lacrado com fita adesiva e cola. Eu não queria que eles soubessem que eu supria sentimentos fortes demais pelo Tony e nem que eles soubessem que eu estava me lembrando do monstro que fui. Eu só queria refazer as coisas. Ou melhor, recomeçar. Fazer a coisa certa.
— Peça para aquele moço de cavanhaque que entregue ao Tony. — ela pegou a carta da minha mão — Talvez ele resista, mas se você insistir, quem sabe?!
— Certo. — ela guardou a carta no bolso — Quer conversar?
— Não, só entregue a ele, por favor.
Assim que Alice saiu, eu almocei e me deitei novamente na cama. Não sei direito quando, mas eu peguei no sono.
Estava numa sala ampla que parecia um laboratório médico. Eu estava deitada numa maca de metal e tinham várias tiras me prendendo. Eu estava nervosa, mas a situação me era familiar.
— Você perdeu o rumo, minha preciosa. — o homem acariciou meus cabelos
— Eu o amo, Mestre. — sussurrei
— O amor estraga as coisas, minha cara. — seu sotaque forte o tornava mais sombrio e, ao mesmo tempo, acolhedor — Está na hora da Víbora voltar.
Um rapaz lhe entregou um caderno de capa vermelha e ele abriu, passando as folhas devagar, aumentando o meu tormento.
— Por favor, Mestre. — eu lhe suplicava
— Privet. — ele começou a dizer
— Não...
Minha voz morreu no instante em que eu acordei. Quase caí da cama, com o impacto, mas permaneci sentada e suada. Eu precisava descobrir o que aconteceu comigo.
T O N Y
— Ela mandou você entregar ao Tony. — Wanda me deu um envelope
— O que é isso?
— Ela escreveu pra você. Quer dizer, para o Tony. — ela saiu
Parei sozinho no meio da minha oficina e, relutante, abri o envelope. Dentro dele, uma pequena carta escrita à mão.
Tony, aqui é... Bom, não sei direito o meu nome, mas todos insistem em me chamar de Carol. Estou completamente confusa e curiosamente sem memória. Há três semanas que acordei num lugar esquisito com muitas pessoas dizendo que fiz coisas terríveis.
A questão é que me lembrei de você. Estranhamente, você é o nome que minha mente insiste em gritar. Me lembro de dois momentos cruciais: primeiro, estamos felizes; segundo, estamos brigando. Um tentando ferir o outro e, por algum motivo, eu quero e tenho que ferir você, embora eu não queira.
Em todos os momentos, você está usando uma armadura vermelha e reluzente. Está lindo, tenho que concordar. Uma pena é eu não poder ver seu rosto, mas isso não me impediu de lembrar o forte sentimento que tenho por você.
Eu não me lembro de nada, mas gostaria de me desculpar se te fiz algo que o deixou magoado. Não sei ao certo o que aconteceu e com que gravidade, mas eu peço que me perdoe e que me ajude. Por favor, Tony, você é o único que talvez possa me ajudar a me lembrar de alguma coisa.
Espero que me perdoe.
Sem assinatura, ela termina a carta e eu me pergunto até onde esse jogo vai. Não é possível que isso vá continuar me atormentando desse jeito.
— Estou quase terminando a tradução de mais uma página do diário dela. — a voz de Bruce me faz notar que não estou mais sozinho
— Até agora descobrimos que ela tinha a missão de pegar os arquivos dos armamentos e me seduzir. — amasso a carta e jogo na lata de lixo
— Tony, já está bem claro que ela estava sendo usada.
— Sim, claro. Como quiser. — dou de ombros
— Eu estava pensando em ler algumas páginas do diário para que ela se lembre. O que você acha?
— Eu acho que Ross está demorando muito para vir buscá-la.
— Quer mesmo mandá-la para a prisão Balsa?
— Nós já vivemos isso antes. Se escondermos um soldado da Hidra, teremos uma guerra.
— Então você não sente mais nada por ela? Não acha que a antiga Kayla ainda esteja lá?
— Não é da minha conta. — dou de ombros
— Vamos comigo ao quarto dela? Quero ler para ela.
— Vai você, Bruce. Tenho muito o que fazer.
K A Y L A
O careca me encarava um pouco nervoso, mas parecia curioso.
— Então você pediu que me chamassem. — ele observou
— Diretor Fury, correto?
— Eu não sou diretor de mais ninguém.
— Não seja modesto. Tá na cara que você manda em todos aqui de forma indireta.
— Então você me chamou para dizer que eu mando em tudo?
— Não. Eu te chamei porque quero aquele diário de volta.
— O diário que te fez surtar só de chegar perto?
— Esse mesmo.
— Por que você o quer?
— Porque eu sei que ele é meu.
— Então você se lembrou de tudo.
— Quase tudo. — suspirei — O suficiente para saber que sou a assassina que vocês procuram.
— Ah, a Víbora apareceu. — ele sorriu vitorioso
— O suficiente para saber, também, que não estava em perfeito estado mental. Alguém controlou a minha mente.
— E você quer o seu diário para se lembrar de mais. — ele concluiu
— Exato. — concordei
— Tenho excelentes planos para você, Víbora. Junte-se a nós.
— Já me controlaram uma vez, não vou deixar que aconteça de novo.
— Certo. — ele se levantou — Mais tarde trarei seu diário e depois pensaremos nos planos.
+ + +
4 de março de 2017 — sábado
Hoje Tony me chamou para sair, mas eu não quis ir. Não quero que ele assuma o nosso quase-namoro para a mídia. Se ele fizer isso, o Mestre saberá que me envolvi demais na missão e irá me apagar de novo.
Ontem, protagonizei um assassinato, mas dessa vez, não fui eu quem matei. Mestre torturou um rapaz que descobriu e destruiu todo o nosso "estoque" de soldados aprimorados. Descobri que o maldito caderno vermelho não estava com ele e que perdi a chance de contar a verdade ao Tony e fugir. Agora, que o Mestre tem o caderno de volta, ele me tem também.
Respirei fundo e encarei a única página do diário que me deram. Isso não me ajuda em quase nada. Só confirma que eu era uma vaca louca que seduziu um homem, se apaixonou por ele e, no final, o traiu.
Amassei a folha impressa e joguei em cima da escrivaninha. Eu estava estressada e a janela me mostrava que o lindo dia de sol havia sido substituído por um dia cinzento, com o céu repleto de nuvens carregadas que impedem que a luz do sol chegue límpida até meu quarto.
Fiquei um tempo olhando o céu, até que vi um traçante brilhoso vermelho. Não era um avião, tinha o formato de um homem. Tony estava ali e eu precisava dar um jeito de fugir.
Fechei os olhos por alguns instantes e busquei toda a minha raiva interna. Senti as pontas dos dedos formigarem e um calor crescer em mim. Com um golpe único com a ajuda da cadeira, a janela do quarto se quebrou e uma sirene começou a ecoar no local. Sem dar importância, eu subi na cama e pulei para a parte de cima do armário, logo passando espremida pela janela estreita. Caí desajeitada em uma grama macia, mas que não deixou de machucar as palmas das minhas mãos.
O sistema de segurança deles é forte, pois quando me levantei, tinha muita gente à minha volta usando uniformes esquisitos. Alice estava lá, divando numa roupa escarlate.
Nada daquilo me importava, pois Tony estava planando em minha frente, virado para mim com a mão direita aberta, pronto para me atacar.
— Tony! — gritei
— Carol — a Ruiva trajando um macacão de couro me olhou — Assim, não. Volta pro quarto.
— Tony!
Gritei e corri até ele, que permanecia planando graciosamente à minha frente.
Me pus embaixo dele e ele ficou parado me encarando por baixo do capacete de metal.
— Veio me ajudar? — pergunto
— Não, eu moro aqui.
Franzi o cenho. Ele estava ali o tempo todo? Tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
— Quem é você? — pergunto confusa
Por um momento, achei que ele não fosse me responder. Ele permaneceu em silêncio.
— Tony. — um homem baixinho de óculos o olhou
— Quem é você? — repeti
Ele baixou e pôs os pés de lata no chão. Ficou frente à frente comigo.
Eu dei um passo em sua direção e ele não recuou. Me aproximei mais e toquei sua armadura com as pontas dos dedos. Algumas lembranças retornaram, me causando uma pontada fraca na cabeça. Nós dois dançando na sala, eu descalça e ele com a armadura. Eu parecia feliz.
— Por favor, quem é você? — sussurro
O capacete se abriu e, no susto, eu recuei um pouco. Perplexa, me sentindo tola, ridícula.
Ele estava ali o tempo todo. O meu Tony era o Tony Stark.
— Tony... — sussurrei e senti meu corpo cair para frente