K A Y L A
Era um lugar bonito, com uma grande TV e um amplo sofá. Ao fundo, uma música animada tocava preenchendo o ambiente e dando um toque a mais ao momento. Eu bebia uísque e dançava animada com os pés descalços no tapete.
Quando um homem de metal entrou, eu não tive medo. Aliás, sorri bem grande e dei um selinho na boca de metal do capacete da armadura.
— Olá, baby. — sua voz era animada — Fazendo a festa sem mim?
— Só esquentando as coisas. — eu sorri sentindo seus braços de metal me envolverem — E você? Quando chegou?
— Há exatos trinta segundos. Pensei em fazermos uma festinha particular, o que você acha?
— Acho uma ótima ideia, mas tem que ser com o Tony e não com essa lata de sardinha. — impliquei
— Ah, então você quer o Tony? — sua voz transmitia divertimento
— Exatamente. — sorri
— Seu desejo é uma ordem, senhorita.
Tony, Tony, Tony.
Tony. Tony. Tony.
Tony? Tony? Tony?
Tony! Tony! Tony!
Acordei assustada e suada. Não pude reprimir um grito agoniado e desesperado, do fundo da garganta. Eu estava com sede e muito ofegante.
Me sentei na cama e observei minha nova cela. Era pequena, porém muito mais acolhedora que a outra. Tinha uma cama de solteiro com lençóis brancos e limpos, uma escrivaninha de madeira com seis pequenas gavetas que estavam todas vazias — eu me dei o trabalho de checar ontem, antes de dormir — e ficava ao lado direito de quem entrava pela porta, uma cadeira simples de madeira que agora tinha uma pequena pilha de roupa. Atrás da cabeceira da cama, tinha um armário de madeira que também estava vazio e, ao lado esquerdo do armário, tinha a porta que dava para o pequeno banheiro. Na parede que a cama estava encostada, tinha uma janela grande de comprimento, mas não tão larga. Fiquei de pé na cama ontem, para tentar ver algo. Só dá para ver o céu e o alto de algumas árvores.
Eu me levantei e caminhei até a cadeira da escrivaninha. Naquela pequena pilha de roupas tinha um moletom fechado cinza de capuz, duas calças de moletom nas cores cinza e preto — aquelas esquisitas com cadarço na cintura —, dois pares de meias cinzas, três blusas de mangas curtas cinzas e algumas peças íntimas. Bacana. Pelo menos eu tiraria esse uniforme horroroso do lugar onde eu estava.
Caminhei devagar até o pequeno banheiro e vi uma toalha ali. Tomei um banho morno e fiquei uns vinte minutos ali debaixo do jato de água. Após vestir uma nova muda de roupa, sequei os cabelos com a toalha e a estendi no blindex do box.
Não havia muito o que fazer. No relógio de ponteiros que estava no alto da parede, acima da porta, dava que eram 8h35min. Eu não sabia como seria o meu dia, mas sabia que seria um tédio total.
Me sentei na cama e cruzei as pernas, repousando as mãos nos joelhos. Eu não sabia se sabia meditar, mas talvez eu saiba, então vale a pena tentar. Fechei os olhos e respirei fundo, recostando as costas na parede. Foram longos minutos de completo silêncio. Quem é Tony? Por que só me lembrei dele? Se ele era meu namorado, por que não veio me procurar? Será que eu o matei?
O barulho da porta sendo destrancada tomou minha atenção, mas eu não me dei ao trabalho de abrir os olhos. Talvez seja a Ruiva de novo, querendo me fazer mais perguntas.
— Bom dia.
O sotaque me fez abrir os olhos e encarar a moça bonita que colocava uma bandeja de café da manhã na escrivaninha, enquanto algum agente trancava a porta novamente.
— Bom dia. — respondi baixo
— Espero que não esteja acordada à muito tempo, pois só pude trazer seu café agora. — a moça de sotaque fofo se desculpou
— Tá tudo bem. — dei de ombros — Não achei que fosse receber comida. Não acho que mereço isso.
Um silêncio pairou e ela ficou me analisando. Por um momento, me perguntei se ela podia me decifrar e ver minha alma — se é que, depois de todos aqueles crimes, eu ainda tenha uma alma.
— Que bom que as roupas lhe serviram bem. — ela sorriu educada, ainda de pé
— São suas?
— É, são. — ela confirmou
— Obrigada. — agradeci — Você me conhecia?
Ela hesitou um pouco, pensando no que responder.
— Não, eu sinto muito. — ela suspirou logo após a frase e soube que ela mentia
— Que pena. Eu acho que me lembrei de alguma coisa.
— Do que? — ela me olhou em expectativa
— Deixa pra lá. — olhei para outro canto do quarto e fiquei quieta
— Eu trouxe uma escova de dentes e uma escova de cabelo. — ela disse tirando os objetos dos bolsos traseiros — Se você quiser eu... Posso te ajudar a pentear essa juba. — eu a olhei — Seus pulsos estão machucados das algemas e talvez você precise de ajuda. Esse seu cabelo é lindo demais pra parecer um ninho de pombo.
Acabei rindo da maneira como ela falou, o que deu espaço para que ela se aproximasse de mim e se sentasse na cama. Eu escorreguei para a beira e me virei para a cabeceira da cama, me segurando na mesma. Em silêncio, a menina passou a escova pelos nós do meu cabelo, desfazendo cada um com paciência e ternura. Nenhuma palavra foi dita, até minha curiosidade vir à tona.
— Qual o seu nome?
Ela permaneceu em silêncio por tanto tempo, que cheguei a pensar que ela não fosse responder.
— Meu nome? — ela questionou
— Não precisa dizer o de verdade, se não quiser. Eu só queria dar um nome ao seu rosto.
— Que nome você acha que combina comigo? — ela questionou
— Não sei. Não me lembro de muitos nomes.
Ela deu uma risada fofa e controlada que me fez sorrir.
— Que tal Alice? — ela perguntou
— Parece bonito e combina um pouco com você.
— Carol também é bonito.
— Mas não é o meu nome e não combina comigo. — dei de ombros
O silêncio voltou de novo, enquanto ela desembaraçava meus fios um pouco rebeldes.
A questão anterior me veio à mente de novo. Quem era Tony? Bom, tava na cara que ele era meu namorado, mas será que ele é do m*l assim como dizem que eu sou?
— Quem é Tony, Alice?
A moça não disse nada, mas a escova se parou em uma mecha do meu cabelo. Julguei que talvez ela estivesse pensando no que dizer. Será que ela sabia quem ele era?
— Você se lembrou de algo relacionado a ele? — sua pergunta interrompeu meu diálogo mental
— Eu tive um sonho...
Eu comecei a dizer, mas fiquei muda por um tempo. Me virei para Alice e ela baixou as mãos, repousando-as em suas pernas. Me senti segura com ela, então contei do meu sonho.
— Foi uma lembrança em forma de sonho, sabe? Nós dois estávamos conversando bem alegres e íntimos. Pode parecer loucura, mas ele estava usando uma armadura de metal.
— Uma armadura de metal? — Alice franziu o cenho
— Eu sei, parece loucura. — suspirei
— Não, não é. — ela sorriu — Por incrível que pareça, não é estranho.
— Mas eu não vi o rosto dele. Acha que consegue achá-lo? Talvez ele me ajude. Não sei se ele era do m*l assim como estão dizendo que eu sou, mas eu senti algo, sabe?
— Eu conheço alguém que talvez possa trazê-lo aqui.
— E você consegue falar com esse alguém agora?
— Posso tentar, mas não vai ser fácil. Olha, toma seu café e eu vou ver se ele está disponível.
— Certo. — eu sorri animada e a deixei terminar de me pentear
T O N Y
— Não, Wanda! Não me interessa o que ela te disse, eu não vou vê-la!
— Tony, ela lembrou de você, mas a cabeça dela só lembrou de um momento em que você estava de armadura. Ela não se lembra do seu rosto. — Wanda explicou — O que que custa ajudá-la?
— Quem garante que ela não está mentindo? Nenhum exame cerebral deu perda de memória. Isso pode ser um jogo.
— Não vejo como isso possa ser um jogo. — Bruce disse
— Ela não se lembra do seu rosto, Tony. — Steve me olhou — Você é só um nome pintado de vermelho e dourado na mente dela.
— Ela disse que sentiu algo quando sonhou. — Wanda lembrou — Ela sabe que vocês tiveram um namoro.
— Um quase namoro! — corrigi — Além do mais, em breve ela vai para a prisão Balsa e não será mais problema nosso.
— Tony, não te custa nada ir lá. — Sam me olhou — Se ela sofre do mesmo problema que o Barnes sofre, então há algo bom dentro dela.
Eu bufei.
— Tony. — Bruce me chamou e eu o olhei — Engole esse ego.
Ter o Banner ao meu lado era ótimo. Ele era bom ouvinte e falava a língua dos nerds, o que me poupava muitas explicações. Mas, tê-lo ao meu lado também era como ter uma consciência fora do corpo. Ele sempre sabe um jeito de me fazer ouví-lo.
Lá estava eu. Em frente à porta do quarto onde Kayla-Carol se encontrava. Os dois agentes que tomavam conta da porta me saudaram e logo fizeram o favor de abrir a porta.
Quando eu entrei, ela estava sentada na cama numa posição de meditação. Me perguntei se ela conseguia meditar, se estava tentando se lembrar de algo ou se apenas estava cochilando sentada. Ela nem se deu o trabalho de abrir os olhos, enquanto os agentes fechavam a porta atrás de mim.
Meu corpo todo enrijeceu na presença dela. O coração, órgão traiçoeiro, fez o favor de acelerar tanto que me perguntei se ela era capaz de ouví-lo. Ah, Pepper, que saudades que sinto. Você não me tinha como missão, mas não aceitava minhas armaduras. Quando encontro alguém que me aceite por inteiro, descubro que ela é uma assassina.
— Ele não vem, não é, Alice?
Sua voz soou cansada e ela permaneceu de olhos fechados. Quem é Alice? A mulher tá surtada agora?
Deve ser o nome falso que Wanda deu, seu anta!, minha mente brigou.
— Alice me contou que se lembrou de Tony. — seus olhos se arregalaram para mim — Vim para ajudar. — engoli o bolo que se formou em minha garganta
— O senhor o conhece? — ela me olhou em expectativa
— Melhor do que gostaria. — murmurei e puxei a cadeira de madeira para me sentar, mantendo uma distância boa entre nós
— Sabe onde ele está agora? Quer dizer, ele pode vir me ver? Verdade que somos namorados?
Pisquei um pouco e pensei enquanto a enxurrada de perguntas me atingia.
— Quase namorados. — corrigi
— Ele é criminoso, assim como estão dizendo que eu sou? Quer dizer, ele ajuda o m*l?
— No começo, indiretamente, sim. Mas ele é outra pessoa agora. Um cara do bem.
— Acha que isso pode acontecer comigo? — eu a olhei confuso — Quer dizer, eu não me lembro, mas se fiz tanta coisa errada, posso me regenerar, não é? Fazer a coisa certa.
— Não se trata de fazer a coisa certa. Você tem que pagar pelo que fez.
— Mas eu não me lembro de nada. — ela se defendeu
— O fato de não se lembrar, não apaga o que você fez. — tentei não gritar
— Eu o magoei? — ela perguntou e me perguntei se ela sabia quem eu era — O Tony. Sabe dizer se eu o magoei?
— Não sei de nada. — levantei pronto para sair
— Acha que ele pode vir me ver?
— Acho que não será possível. — bufei — Com licença, mas eu preciso voltar para minhas ocupações.
Bati na porta e logo os agentes a abriram. Eu respirei fundo e fui saindo.
— Eu acho que o amo. — ouvi ela dizer
— Ele também achava que te amava. — sussurrei e bati a porta
Nunca mais vou entrar naquele quarto. Nunca mais!!!
— Sexta-Feira.
— Sim, chefe.
— Ligue para o Ross e veja se o alojamento na prisão Balsa já está pronto para receber a Víbora.
— Ligando...
+ + +
19 de julho de 2016 — quarta-feira
Faz uma semana que estou me readaptando à este mundo. O Mestre disse que tenho uma missão para cumprir para o bem da humanidade e que, por isso, precisei conhecer e me aproximar de Tony Stark — um gênio desta geração.
É a primeira vez que escrevo em um diário — eu acho — e a ideia foi do Mestre. Segundo ele, me ajudaria a lembrar de algo, caso minha mente precisasse de mais uma manutenção.
Hoje, fui à uma festa beneficente de uma organização que ajuda crianças carentes. Conheci muitas pessoas e o Mestre permitiu que eu usasse meu nome de batismo nessa missão. Segundo ele, atrairia menos desconfiança. Uma das pessoas que conheci, foi o tal gênio Tony Stark, que foi um cavalheiro e me arrancou várias risadas. Era engraçada a maneira como ele dizia ver a vida e não perdeu a oportunidade de me elogiar.
Eu ainda não sei qual é o motivo desta missão, mas será agradável ficar ao lado de Tony. Ele parece ser uma ótima pessoa.
Ah, o Mestre quis me levar para treinar ontem, antes de me dar este diário. Segundo ele, eu era a melhor e eu duvidei dele. Claramente, eu estava errada, pois quando os agentes vieram para cima de mim, meu instinto tomou conta e eu abati dois agentes sozinha. Me senti poderosa. É estranho não me lembrar de nenhuma missão anterior, mas o Mestre me diz que é necessário. O mundo pode estar em perigo.
Precisei me controlar para não zunir aquele monitor longe. Tudo não passou de uma missão. Eu fui uma missão.
— Bom, aqui já dá pra ver que a Hidra comanda a mente dela. — Bruce constatou
— E que esse tal de "Mestre" a fazia acreditar que estava do lado certo da lei. — Steve comentou
— Como foi com ela hoje? — Nat, após passar o dia fora, quis saber
— Ela teve um sonho com o Homem de Ferro, pediu papel e caneta e não se opôs a nada. — Sam relatou
— Alguém conversou com ela?
— Ela ficou me dizendo o que achava da lembrança que teve. — Wanda deu de ombros
— Sei. — Natasha pareceu pensativa — Pretende voltar a vê-la, Stark?
— Não. — disse simples e fui para minha oficina
Enchi um copo de Bourbon e me sentei no sofá de couro que havia ali, perto de minhas invenções. Eu me sentia um pouco mais calmo. Consigo adivinhar perfeitamente o que foi que Kayla-Carol se lembrou.
***
Eu pousei na sacada da Torre e ouvi uma música animada vindo da sala. Nem me importei em tirar a armadura. Apenas entrei em casa e vi Kayla cantando e dançando descalça na sala. O copo em sua mão e sua animação denunciavam sua leve embriaguez e eu sorri ao vê-la fazer o Moonwalker.
— Olá, baby. Fazendo a festa sem mim? — sorri apesar dela não poder ver
— Só esquentando as coisas. — eu a abracei — E você? Quando chegou?
— Há exatos trinta segundos. — ela sorriu — Pensei em fazermos uma festinha particular, o que você acha?
— Acho uma ótima ideia, mas tem que ser com o Tony e não com essa lata de sardinha. — ela implicou
— Ah, então você quer o Tony?
— Exatamente. — ela sorriu
— Seu desejo é uma ordem, senhorita.
Tirei parte por parte da armadura, deixando o rosto por último. Quando o capacete se abriu, ela me beijou e eu apertei sua cintura. Seria uma longa noite e eu aproveitaria para me embriagar um pouco também.