T O N Y
Já faziam umas meia hora que ela estava amarrada na maca de metal. Nada a fazia acordar, mas, segundo Sexta-Feira, ela estava apenas descansando. O baque cerebral foi grande e, talvez, ela se lembre de tudo quando ela acordar. Também há uma possibilidade dela acordar sendo Carol Summers, a Víbora da Hidra.
— Acha que essas amarras podem segurá-la, caso a Víbora acorde? — Nat questiona Banner
— Poderá atrasá-la. — ele responde disfarçando o incômodo de sua presença
— A Hidra já não tinha uma víbora? — Steve questiona
— Espero que ela possa nos responder tudo isso quando acordar. — resmungo bebendo meu bourbon
— Se ela acordar. — Clint diz andando envolta dela — Será que ela tá morta? Essa garota vive desmaiando. — ele dá uns cutucões no rosto da mulher deitada — Vou chamá-la de Bela Adormecida.
— E eu serei a Malévola. — Nat sorri entrando na brincadeira
— Só quero que ela acorde. — Wanda diz tão baixo, que eu só a ouvi por estar perto
— Ela está acordando. — Visão comenta
O silêncio toma toda a sala e, por um momento, só o que se ouve são as respirações agitadas das pessoas presentes. Todos estão em grande expectativa e isso faz minhas mãos suarem.
Quando Kayla-Carol se dá conta de que está acordada, analisa a sala com olhos críticos e seu olhar se pousa em mim. Parece que ela achou o que estava procurando.
— Tony. — ela murmurou
— Com qual Kayla estamos falando? — Steve indagou e eu estremeci discretamente
— No aniversário do Tony, — ela começou a falar — você e eu rolamos a escadaria da Torre porque eu tropecei. Meu vestido rasgou e você corou, porque eu estava usando uma lingerie rendada vermelha, que seria o presente de Tony. Combinamos que isso ficaria entre nós.
— E você acabou de descumprir esse combinado. — ele disse envergonhado, mas com um sorriso torto nos lábios
— Naquela mesma noite — ela olhou para Natasha, que a olhava desconfiada — Você me contou algo sobre... — a ruiva a impediu de continuar
— É bom te ter de volta, Kayla. Por favor, não diga mais nada. — ela lhe dirigiu um breve sorriso
— Podem tirar as amarras? — ela olha para Banner e depois para Steve — Estão muito apertadas.
— Como vamos saber que não tentará algo? — eu finalmente disse alguma coisa e me levantei, caminhando até ela
— Eu poderia dizer que, naquela noite tumultuada, eu e você transamos enquanto você ainda estava quase todo vestido com sua armadura de gala. — todos na sala pareciam segurar o riso e Steve estava desconfortável — Mas vou confiar na sua intuição de que sou eu mesma.
Ficamos em silêncio por mais alguns instantes até que Steve a tivesse desamarrado por completo. Ela, mais uma vez, passou o olhar pelo laboratório de Bruce e se sentou na maca. Os braços estavam levemente marcados, mas isso não pareceu incomodá-la.
— Pode nos responder algumas perguntas? — Steve pergunta
— Antes: — ela se virou para mim, que estava atrás dela — Como soube sobre mim?
— Eu... — gaguejei por um instante e tentei não entrar em pânico — Sexta-Feira me disse que você recebeu visitas enquanto eu não estava. Disse que era Alan Brooke e que eu precisava ver uma coisa. Acessei meu computador e lá tinha um dossiê completo sobre o tal Alan. O que ninguém esperava era que o histórico do verdadeiro Alan Brooke ainda não tinha sido deletado. Só precisei pesquisas um pouco e ligar pontos.
— Eles não apagaram o histórico do verdadeiro Alan? — ela franziu o cenho
— A Hidra não da ponto sem nó. — Steve comentou — Eles queriam que você fosse descoberta.
— Exatamente. — ela assentiu perplexa — Seria mais fácil de fritar meu cérebro se Tony me escurrassasse. — ela pareceu pensativa
— Muito tentadora a ideia de discutir com você e te xingar — eu disse — Mas quando eu cheguei em casa, você tinha sumido.
— Fui dar uma volta quando a Equipe Alfa me "sequestrou". O Mestre falou muito e dizia que desse jeito era melhor, que esse deveria ser o plano A e não o B. Na hora eu não entendi muito, mas agora. — sua voz morreu, dando a entender o que ela queria dizer
— Como se tornou a nova Víbora? — Nat a olha — A Hidra já num tinha uma víbora?
— Madame Hidra veio ao óbito após uma briga f**a envolvendo Wolverine e uma samurai. Eu não tinha apelido algum, mas virei a Víbora Preciosa após seduzir, roubar e m***r o presidente de Sokóvia.
— Então foi você! — Wanda disse algo, após tanto tempo apenas ouvindo. Kayla-Carol encolheu os ombros, como quem se sentia culpada
— E por que Víbora? — Steve perguntou
— Viúva n***a já estava sendo usado. — ela deu de ombros e Natasha sorriu
— Qual era o plano? — Bruce pergunta
— Eles queriam os dados dos antigos armamentos da Stark Enterprises.
— Por que? — foi a minha vez de perguntar
— Brincar de boneca, talvez. — Clint respondeu com ironia
— Eles vão atacar a KGB em nome da S.H.I.E.L.D..
— Isso é besteira! — Fury disse e eu me perguntei se ele acabara de chegar — A SHIELD não existe mais.
— Acha que eles ligam pra isso? — ela o olhou — Eles só precisam de um cavalo de tróia para começar uma guerra.
— Se eles atacarem a KGB, a Rússia inteira irá declarar guerra aos Estados Unidos da América. — Nat observou
— Terceira Guerra Mundial? — Steve a olha
— Provavelmente.
— Foi o que pensei.
— Não enquanto eu for o Homem de Ferro. — deixei o copo de lado
— Eu posso ajudar. — Kayla-Carol sugeriu
— Não, você vai para a prisão. — decretei ficando furioso
— Stark. — Nick me repreendeu
— O que é? — eu o olhei — Ela nos colocou nessa situação.
— E pode nos tirar. — ele concluiu
— Besteira! — rebati
— Querem me enviar para a prisão Balsa? — ela perguntou
— Como sabe sobre a prisão Balsa? — Visão perguntou
— A Hidra sabe de tudo. Ela vê tudo. — ela explicou — Eles estão esperando que me enviem para lá e, assim recuperar-me para a conclusão do plano. Me levar para lá, seria como dar um tiro no próprio pé.
— Admita, Tony. — Steve me olhou — Ela é necessária.
— Fury me fez essa proposta, quando eu estava na minha cela.
— Está trabalhando por conta própria, Fury? — eu o olhei tentando controlar minha fúria
— Então você aceita se juntar à nós? — Nick se aproximou dela, me ignorando completamente
— Não necessariamente a proposta. — ela rebate — Você propôs que a minha parte desmemoriada se juntasse à vocês, para que você me manipulasse. Desta vez, eu estou lhe propondo algo.
— Qual seria a proposta, senhorita Williams? — o projeto de pirata continou agindo como se não estivéssemos ali
— Quero saber se vocês aceitam que a Víbora se junte à vocês temporariamente. — ela nos olha, mas depois volta a encarar o tio do t**a-olho
— Não podemos aceitar. — rebato
— Mas precisamos. — Steve decreta — Bem-vinda à equipe.
— Ah, m***a! — resmungo e me afasto, pegando meu copo de novo
— Mas com uma condição. — Steve continua, ignorando minha "boca suja" — Permita-nos moldar uma nova Víbora.
— Querem me moldar de novo? — Kayla bufou — Não acha que já passei muito por isso?
— Vamos lhe dar opções, Kayla. Usará seus dotes para o bem, agora.
— Tanto faz. — ela deu de ombros — Quando tudo isso acabar, eu vou acabar numa das celas especiais daquela prisão. Mas não é por que vocês vão me colocar lá, vai ser porque eu vou querer estar lá. — ela se levantou, foi até a mesa onde minha garrafa de bourbon estava e se serviu sem cerimônia — Vamos ao trabalho.
+ + +
Eu tentava ocupar a mente mexendo no raio propulsor da minha armadura, enquanto ouvia minha ex-quase-namorada falar sobre algo relacionado ao dia em que ela roubou minha empresa.
— Conta mais sobre suas missões. — Sam, que chegara à vinte e cinco minutos, a olhava curioso
— Bem, pra começar, eu já trabalhei com vocês. Não necessariamente ao lado de vocês.
— Já esteve conosco em campo de batalha? — Capitão perguntou
— Já. — ela confirmou — Tennesse, — ela me olhou rapidamente, enquanto começava a listar — Nova York, Sokóvia, Washington, Inglaterra. Não necessariamente nesta mesma ordem.
— Esteve comigo na minha briga com o Mandarim? — eu perguntei
— Pra quem você acha que o Aldrich trabalhava?
— Achei que ele trabalhava sozinho.
— Tinha parceria com a Hidra, até decidir nos passar para trás.
— Nos passar para trás. — repeti a fala dela — Ainda fala como a arma secreta deles.
Ela suspirou e parou de folhear seu diário. Se virou devagar e me encarou, provavelmente vendo a mágoa em meu olhar. Por um instante, todos se calaram e pareciam entender que aquilo era entre nós.
— Qual é seu verdadeiro nome? — pergunto — Karla, Camila, Lauren... Quantos disfarces você tem?
— Sou Kayla Rose Williams.
— Mentira. — rosnei
— Acredite se quiser, Tony. Sabe que estou falando a verdade.
— Sua víbora mentirosa! — eu gritei
— Stark! — Steve tentou me acalmar
— Você mentiu pra mim! — gritei novamente
— Eu não vou ter essa conversa com você, Tony. Não agora. — Kayla-Carol se negou
— Eu odeio você. — resmunguei
Saindo do laboratório, eu me sentei em um dos degraus da escada ali de fora e encostei a cabeça na parede. Tudo a minha volta parecia rodar e eu sabia que não era só efeito da bebida. Como eu fui t**o! E como minto m*l, também.
K A Y L A
Sentada no muro da sacada, com as pernas penduradas para fora, eu terminava a segunda garrafa de bourbon daquela noite. O resto do dia passou num piscar de olhos, com tanta coisa pra explicar e falar. Não sei direito o que deu na minha cabeça quando decidi me juntar aos Vingadores, mas tenho certeza que tem alguma coisa a ver com poder dormir sossegada. Sem choro antes de dormir, sem pesadelos com minhas vítimas gritando.
— Você não vai pular, vai?
O timbre grave do Capitão me fez sorrir leve, enquanto eu encarava a noite um pouco fria.
— Por que acha isso?
— É que você já bebeu e, uma vez, me fez entender que a ideia de morrer lhe atraía. — mesmo sem me virar, pude notar que ele se aproximava
— E ainda atrai, mas eu dei minha palavra de que ajudaria vocês. — suspirei — Pergunta logo o que veio perguntar. — fui direta
— Você disse que esteve presente em todas as nossas principais missões. Inclusive em Washington. — eu o interrompi
— Quer saber se eu conheci Barnes. — concluí — É. Trabalhamos juntos e eu o treinei algumas vezes.
— Você o treinou?
— A mente dele sempre foi uma zona. Ás vezes, era difícil reativá-lo. — Steve se sentou ao meu lado, mas com as pernas para dentro da construção — Eu o treinei pra enfrentar você, em Washington. A mente dele tava uma bagunça e queriam me pôr com ele na missão. Eu estava lá quando ele se lembrou de você e vi mexerem com a cabeça dele, de novo. — expliquei — Sinto muito.
Eu sei que é ridículo eu dizer tudo o que eu disse e, no final, tacar um "sinto muito", mas tornava mais fácil para eu mostrar quem realmente sou. E que realmente estava sendo manipulada.
— Por que não foi com ele? — sua pergunta não me pegou de surpresa
— Eles queriam me preparar para algo maior, então me apagaram até o fim da missão. Sorte a de vocês, porque se eu estivesse lá, vocês não teriam chance e o projeto Insight seria executado com sucesso.
— Passou muito tempo com Tony. — ele riu fraco
— Não estou me gabando, estou sendo realista.
Mais um tempo de silêncio absoluto da nossa parte. Só o que eu podia ouvir era o vento assobiar em meus ouvidos, afetando meu equilíbrio levemente.
— Você devia entrar comigo. — sua sugestão também não me pegou de surpresa — Visão está cozinhando com a ajuda de Wanda e... Bom, você deve estar com fome.
Eu me virei no muro, deixando apenas uma perna balançando, e o encarei com o melhor sorriso de agradecimento possível. Tentei ao máximo não transmitir à ele o que eu estava realmente sentindo.
Peguei em sua mão, que estava pendendo no meio de suas pernas.
— Obrigada, Steve, mas eu sei quando não sou bem-vinda. — tentei soar o mais gentil possível — Não quero irritar mais o Tony. Já é chato para ele me ter aqui.
— E esse também é o seu jeito de não sofrer muito com o sofrimento dele. — ele me sorriu de volta
— Não há um jeito de não sofrer.
— Eu acredito em você. — isso sim me pegou de surpresa
— Steve, eu... — ele me interrompeu
— Eu sei que você o ama de verdade e que está arrependida.
— Isso não apaga o que eu fiz.
— Não, não apaga. — ele segurou a minha mão — Mas já ajuda a começar uma nova história.
Steve beijou minha testa, como sempre fazia antes, e entrou, deixando-me novamente sozinha. Hora de voltar para a minha cela.
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15 de outubro de 2017 — quinta-feira
É, hoje eu encarei o Tony sem rodeios. Contei a ele e a seus amigos tudo o que fiz e uma parte do que sou capaz. Não sei bem o que esperar deles, mas de Tony posso esperar rejeição total.
Eu apenas decidi deixá-lo de lado. Isso me afetaria profundamente, mas eu não podia me dar ao luxo de sofrer mais do que ele. Eu não tinha esse direito. Ele está sofrendo agora — por mais que esconda — por minha causa e eu não posso fazer nada para confortá-lo.
Quando tudo isso acabar, será como se nunca tivesse acontecido.
Suspirei fechando o caderno e debrucei sobre a escrivaninha, fechando os olhos. Ah, Tony, eu te amo tanto. Me perdoe, por favor.
— Com licença. — aquele sotaque que eu tanto amava me despertou de meus devaneios — Steve me disse que não quis jantar.
Wanda estava dentro do pequeno quarto com uma garrafa de bourbon em cada mão. Ergui a cabeça e a encarei.
— O que sugere? — perguntei baixo
— Que tal jogar conversa fora? — ela ergueu os braços, oferecendo as garrafas
— Desde quando você bebe?
— É, normalmente eu não bebo, mas nada têm sido muito normal, ultimamente. — ela deu de ombros e se sentou na minha cama, deixando as garrafas no meu travesseiro, tirando as botas e cruzando as pernas em cima do meu colchão
— Verdade. — concordei e me sentei ao seu lado
— Eu também tive a mente revirada. Sei como se sente, mas nunca é tarde para recomeçar.
— Estive na base que você foi criada, algumas vezes. — confessei
O silêncio seguiu até terminarmos a segunda garrafa de bourbon e nós estarmos deitadas na cama, uma do lado da outra, observando o teto. A brisa fria que entrava pela janela quebrada nos fazia tremer um pouco, mas isso não era problema.
— Não precisa ficar aqui embaixo, isolada. — Wanda interrompeu o silêncio
— Eu prefiro assim. Já causei danos demais para vocês.
Wanda suspirou e se levantou, catando as garrafas vazias. Passou a mão no cabelo e foi caminhando para a porta, logo abrindo a mesma e parando no batente.
— Foi real, Kayla?
Sua pergunta me pegou desprevenida e eu suspirei cansada. Ela estava se referindo à que? Meu amor por Tony? Minha missão? Meu relatório de hoje, sobre a minha vida na Hidra? Nossa amizade?
Por via das dúvidas, respondi da melhor maneira que encontrei.
— Foi, Wanda. Tudo foi completamente real.