cap 01 amigos
AYLA
Terminei de varrer o quarto das crianças e me sentei na ponta da cama.
Maria: “Tia você vai colocar nossa comida agora?”
Maria apareceu no quarto com o tablet na mão.
Ayla: “Vou sim meu amor, fica esperando lá na sala com seu irmão.”
Ela saiu do quarto e eu me levantei, juntei o lixo na pá e fui para a cozinha colocar o almoço das crianças. “Todo dia é a mesma coisa, levanto cedo e venho para a casa da dona Elisa cuidar dos filhos dela. Eles são uns amores e não dão trabalho nenhum — o único problema é que acabo fazendo mais do que minha obrigação.”
Coloquei os pratos na mesa e as crianças foram correndo comer, coloquei meu almoço e me sentei do lado delas.
Maria: “Tia sabia que a mamãe vai me dar uma casa da barbie de presente de aniversário?”
Ayla: “Sério meu amor? Seu aniversário está chegando né.”
Maria: “Sim.”
Ela sorriu fazendo eu rir do dente torto. “O que a você vai me dar de presente?”
Ayla: “Não sei amor, se a tia dar uma boneca você vai gostar??”
Ela concordou e sorriu. “Maria Clara sempre foi faladeira, tem só 6 anos mas parece um auto-falante. Já o João sempre foi na dele, quase não fala comigo — mesmo assim tenho um carinho por ele.”
Quando as crianças terminaram de comer eu deixei elas na sala vendo desenho e fui lavar a louça, escutei barulho no portão e as crianças gritando — e eu sabia que era a dona Elisa.
Dona Elisa: “Oi Ayla.”
Deu um beijo na minha bochecha. “Teve poucos clientes hoje na clínica então cheguei cedo.”
Ayla: “Oi Elisa. Que bom, já dei almoço as crianças e a louça está lavada.”
Dona Elisa: “Você é um anjo na minha vida, sério!!”
Riei, sequei minha mão no pano de prato — Elisa pegou um copo de água e me encarou.
Dona Elisa: “Tem alguma coisa para fazer agora?”
Ayla: “Bom a senhora chegou cedo então não, quer que eu faça algo?”
Dona Elisa: “Sei que deve estar querendo ir embora para casa mas eu prometi pro João que ia levar ele na praça para jogar bola mas estou muito cansada.”
Ayla: “Pode deixar que eu levo!”
Dona Elisa: “Muito obrigada Ayla.”
Sorri e sai da cozinha indo para o meu quarto — as vezes tenho que dormir aqui então a dona Elisa já fez um quartinho para mim. “Cuido dessas crianças desde que elas tinham 2 anos, dona Elisa por mais que tenha cara de metida é muito mais que uma patroa. Posso dizer que talvez ela seja uma das únicas amigas que eu tenho aqui. Não sou muito de sair de casa então nunca fiz amizades com essas meninas daqui.”
Tirei a roupa que eu estava e vesti minha calça jeans e minha blusa preta de alça fina, soltei os cabelos e ajeitei para não ficar pro alto. Sai do quarto e fui para a sala buscar as crianças — Elisa já tinha trocado a roupa deles então era só sair de casa.
Assim que chegamos na praça deixei o João solto dentro da quadra jogando com uns meninos enquanto a Maria ficava comigo.
Ayla: “Que foi Maria?”
A criança do meu lado não parava de suspirar e estralar a língua.
Maria: “Não tem nenhuma menina aqui pra brincar comigo.”
Ayla: “E eu?”
Maria: “Você não está muito grandinha para brincar comigo não? Agora você vê.”
Ayla: “Maria eu brinco com você em casa, não estou grandinha!”
Maria: “Mas eu queria brincar de boneca, esqueci elas em casa.”
Cruzou os braços emburrada.
Ayla: “Só quando chegar em casa agora, quer tomar picolé?”
Ela assentiu sorrindo. “Então fica aqui que eu vou lá comprar, qualquer coisa me grita.”
Me levantei e atravessei a pracinha, chamei o seu Hugo e esperei ele aparecer.
Seu Hugo: “Oi minha filha, boa tarde.”
Ayla: “Boa tarde seu Hugo, tem picolé de que?”
Seu Hugo: “Tem só de morango, maracujá e uva.”
Ayla: “Vou querer dois de maracujá por favor.”
Seu Hugo: “Tá bom.”
Seu Hugo entrou e eu me virei de costas para olhar as crianças na praça e vi que elas estavam bem.
Henrique: “Oi feiosa.”
Olhei pro lado vendo o Henrique e sorri.
Ayla: “Oi chato, quanto tempo né.”
Henrique: “Pois é preta, sabe que ando ocupado com essa história toda de assumir o comando da favela!”
Henrique era aliado do Jacaré e o cara simplesmente cansou de traficar e passou o comando da CDD pro Henrique — ele ficou super feliz quando o Jacaré se aposentou. “Confesso que não gostei muito mas também não tem muito o que fazer né, ele escolheu essa vida. Eu e o Henrique somos melhores amigos desde os 6 anos de idade, nos conhecemos no colégio por que a avó dele era muito amiga da minha mãe. Desde então a gente não desgruda, Henrique é como se fosse meu irmão — eu apoio ele nas decisões malucas dele e ele me apoia e me acolhe do jeitinho que sou. Henrique entrou pro tráfico com 17 anos depois que a avó dele morreu, discutimos e ficamos um tempo sem se falar mas eu vi que era inútil, ele estava sozinho e precisando de dinheiro e não queria aceitar minha ajuda então eu apenas concordei.”
Henrique: “Tá fazendo o que aqui na praça? Não era pra estar na Elisa?”
Ayla: “Ela pediu pra trazer as crianças na praça um pouquinho.”
Henrique: “Folgada ela né? Se os filhos são dela.”
Ayla: “A babá sou eu Henrique!!”
Seu Hugo trouxe o picolé e eu agradeci e paguei, sentei do lado da Maria e o embuste do Henrique veio junto.
Henrique: “Eu quero.”
Ele abriu a boca e eu revirei os olhos fazendo a Maria rir. “Anda.”
Coloquei o picolé na boca dele e o i****a comeu quase tudo.
Ayla: “Filho da p**a, pagar tu não quer né.”
Henrique: “Para de graça que se tu quiser compro uns 20 picolé pra você — e cuidado com a boca, temos uma criança aqui.”
Encarei Maria que só sabia rir enquanto chupava o picolé.
Henrique: “Vou indo.”
Ele se levantou e sorriu pra mim. “Fé pra você minha preta.”
Ayla: “Aparece mais tarde lá em casa, minha mãe vai fazer mocoto.”
Henrique: “Com certeza eu vou aparecer, tem roupa minha lá?”
Ayla: “Tem por que?”
Henrique: “Vou dormir com você.”
Ayla: “Eu te chamei pra comer lá em casa não para dormir.”
Henrique: “E o f**a-se? Sua casa é minha já.”
Piscou pra mim. “Tchau preta.”
Ayla: “Tchau!!”
(...)
Abri meu armário e peguei um shorts molhado de dormir e um blusão preto, fui em direção ao banheiro e entrei. “Tomei um banho quente para relaxar, me enrolei na toalha e parei de frente pro espelho fazendo um coque no cabelo, vesti minha roupa e passei um óleo no corpo.”
Sai do banheiro e fui para a cozinha vendo minha mãe mexer a panela de mocoto.
Ayla: “Hum tá cheirando. Falta muito para ficar pronto?”
Ela sorriu.
Mãe de Ayla: “Não, só dar uma fervida e está pronto! Seu pai foi na rua comprar coca-cola.”
Ayla: “Comida fresca da minha mãe e uma coca gelada era tudo que eu precisava. Obrigada mãezinha.”
Beijei seu rosto.
Mãe de Ayla: “Eu tô fazendo mocoto por que estava com vontade de comer abusada!!”-Ri fazendo ela rir também. “Cadê o Henrique vai vim não?”
Ayla: “Ele deve estar ocupado na boca mas disse que ia vir sim.”
Escutamos barulho de alguém chamando no portão e eu ri.
Ayla: “Só falar no cão que ele aparece.”
Sai da cozinha e fui caminhando até o lado de fora, abri a porta e encarei meu melhor amigo de cabeça baixa.
Ayla: “Tem pão velho não.”
Henrique: “Se fode Ayla.”-Ri-“Tá cheirando abessa a comida da sua mãe.”
Ayla: “Tá mesmo.”
Dei passagem pra ele entrar e travei ele antes de ir para a cozinha.
Ayla: “Me dá a pistola, sabe que minha mãe não gosta que entre armado aqui.”
Henrique: “Vou colocar lá no seu quarto.”
Henrique passou direto indo em direção ao meu quarto.
Fui para a cozinha e fiquei encostada no batente da porta — Henrique passou e foi falar com a minha mãe.
Henrique: “Oi tia, rango tá com cheiro bom.”
Mãe de Ayla: “Oi meu filho, já está até pronto.”
Henrique: “Cadê meu pai que não chega em?”
Assim que eu terminar de falar meu pai passou pela cozinha com duas coca-cola.
Pai de Ayla: “Oi Henrique.”
Henrique: “Oi tio tudo bom? Há tempo que eu não te vejo.”
Pai de Ayla: “Tudo sim meu filho, ando trabalhando muito sabe como é né.”
“Acho fofo a relação do meu pai e do meu melhor amigo, meu pai trata o Henrique como se fosse filho dele mesmo.”
Ajudei meu pai a arrumar a mesa e nos sentamos para comer — sério, p**a que pariu, não é atoa que minha mãe tem fama de boa cozinheira. “O mocoto estava simplesmente divino, minha mãe sempre arrasou na cozinha. Ela vende quentinha a bastante tempo mas acabou parando por vários motivos, não tenho muitos sonhos para mim mas com certeza um dos meus sonhos é abrir um restaurante para minha mãe — nem que seja aqui no morro.”
Henrique: “Namoral isso aqui tá muito bom.”
Minha mãe sorriu da fala do Henrique. “Agora é só um banho e dormir.”
Ayla: “Vai dormir aqui?”
Henrique: “Vou mermo.”
Ayla: “Quem deixou? Que eu saiba tem que ter permissão.”
Mãe de Ayla: “Tadinho filha, deixa ele dormir aqui.”
Fiz careta pra minha mãe o que fez ela me dar um tapa — Henrique riu e eu levantei o dedo do meio para ele discretamente.
Mãe da Ayla: “Mas se quiser dormir aqui vai ter que lavar a louça.”
Minha mãe deu dois tapinhas nas costas dele e eu ri me levantando.
Ayla: “Se fodeu.”
Ajudei minha mãe a guardar tudo e colocar as coisas na pia — Henrique ficou lá lavando a louça e eu fui direto pro meu quarto. Entrei no banheiro e escovei meus dentes, passei meu hidratante noturno no rosto e sai do banheiro, arrumei minha cama para dormir e antes de deitar fui fechar a cortina.
Escutei a porta abrindo e a presença de alguém atrás de mim.
Henrique: “Tá cheirosa, que milagre.”
Ayla: “Eu sou cheirosa diferente de você né, vai tomar banho — não vai deitar na minha cama fedendo não.”
Passei por ele deitando na cama.
Henrique: “Cadê minhas roupas?”
Ele abriu meu armário procurando e não achou, depois abriu a gaveta de calcinhas.
Ayla: “É a de baixo!!”
Ele abriu a gaveta de baixo e pegou um shorts preto, pegou uma toalha e entrou para o banheiro.
Desbloqueei meu celular e vi que tinha mensagem da dona Elisa avisando que amanhã eu poderia chegar um pouco mais tarde. “Graças a Deus vou poder dormir um pouco mais.”
Guardei meu celular e fiz minha oração, virei pro lado da parede e logo senti um peso sobre a cama — Henrique me abraçou pela cintura e eu me ajeitei no abraço.
Henrique: “Boa noite feiosa.”
Ayla: “Boa noite maconheiro.”-Ri, fechei os olhos pegando no sono.