cap 02 agora é oficial

1554 Words
HENRIQUE Escutei o despertador tocando e fui abrindo os olhos aos poucos, peguei meu celular e vi que era 7 horas da manhã. “Sai da cama devagar para não acordar a Ayla e abri o armário dela, peguei um shorts preto e uma blusa minha do Flamengo. Ela ama essa blusa mas vou ter que pegar de volta.” Entrei pro banheiro e mudei o chuveiro para o gelado. “Garota maluca tomar banho no quente nesse calor do RJ.” Tomei meu banho e aproveitei para usar o shampoo caro da minha melhor amiga — usei até o condicionador. “Pai tem que ficar cheiroso né.” Me enrolei na toalha e sai do box, vesti minha roupa e saí do banheiro. Abri a gaveta de calcinhas da Ayla pegando a pistola que tinha escondido ontem, coloquei ela na cintura e encarei minha amiga dormindo. Fui até ela e dei um beijo na sua testa, sai do quarto e encontrei os pais dela na sala. Henrique: “Bom dia.” Mãe de Ayla: “Bom dia meu filho.” Pai de Ayla: “Bom dia Henrique, quer tomar um café não?” Henrique: “Quero não, tio, muito obrigado — preciso ir já.” Mãe de Ayla: “Vai com Deus meu filho.” Henrique: “Amém.” Sai de casa e o arrependimento de não ter vindo de moto bateu. “Quando vim estava na boca do beco 9 mas tenho reunião na principal que é longe para um cacete.” Cocei a cabeça e fiquei parado pensando no que fazer, peguei o celular e liguei pro Rato. Ligação on Rato: “Fala amor da minha vida.” Henrique: “Começa não, preciso que tu venha me buscar aqui na casa da Ayla.” Rato: “Esqueceu a moto de novo né? Só não esquece a cabeça por que tá grudada no pescoço.” Henrique: “Vai conseguir vir?” Rato: “Vou ir, Falcão, vou ir.” Ligação off Esperei alguns minutos e logo o Rato chegou, subi na moto e fomos em direção a boca principal. “Hoje é a reunião que oficialmente vai me conceder dono de tudo isso aqui, a responsabilidade é grande mas tô feliz pra c*****o. Tô nessa desde que tinha 17 anos, depois que minha vó se foi eu me vi sem rumo e perdido — pow, era ela que bancava tudo. Agora você imagina um moleque de 17 anos sozinho no mundo, sem dinheiro e sem lugar para morar por que até isso a velha pagava. Única solução foi entrar pra essa vida, consegui meu dinheiro e um lugar para morar e olha aonde estou agora.” “Confesso que até hoje sinto falta da minha vó, quando ela se foi a vontade que dava era de desistir de tudo e a única pessoa que me ajudou foi a Ayla. Considero essa garota pra c*****o, ela é minha vida, tudo que eu tenho. Ela e minha favela, por eles eu mato e morro.” Desci da moto e entrei na boca sendo seguido pelo Rato — já estavam todos lá dentro reunidos só me esperando. Jacaré: “Bom, agora que o Falcão chegou podemos começar. Como vocês sabem o coroa aqui está se aposentando e saindo da vida do crime, Falcão sempre foi meu braço direito e uma pessoa que posso confiar de olhos fechados — o que é raro de se encontrar hoje em dia. Por isso, agora o Falcão é oficialmente o novo dono da CDD.” Todos me encaravam, alguns moleques eu nem conhecia por ser novos e outros estão no corre comigo faz tempo. Jacaré: “Agora o Falcão assume o comando de tudo, o baile de sexta vai ser organizado por mim para ser a apresentação perfeita! Falcão precisa decidir e informar agora quem vai ser o sub-dono.” Henrique: “Eu já me decidi.” Jacaré indicou com a cabeça que eu continuasse e eu soltei a voz. “Quem está aqui a mais tempo me conhece e sabe quem fecha comigo, a pessoa que eu vou colocar como sub-gerente merece e tem minha confiança — confio nele de olhos fechados e sei que vai fazer de tudo pela favela.” Encarei Miguel e ele negou com a cabeça. “Rato, agora é oficialmente o sub-dono.” Rato: “Sério viado?” Concordei. “Vai ser um prazer, papo reto!” Fez o toque comigo e sorriu. Jacaré: “Então é isso, o papo tá dado. Minha última função é organizar o baile de sexta e depois tchau.” Jacaré me cumprimentou e saiu da sala, alguns moleques vieram me cumprimentar e outros só parabenizaram de longe. “Não fico de sorrizinho pra todos, nunca se sabe quem vai te apular pelas costas.” No final ficou só os que fecha comigo mesmo — ou como o Rato chama, “Quarteto suicida.” “Apelido ridículo, mané.” Dado: “Papo reto, parabéns mano. Bebida hoje por sua conta?” Henrique: “Teu cu, tô rico ainda não.” Rato: “Qual foi, vida, faz a boa aí.” Dei dedo do meio pro Rato que riu. Fogo: “Tu é muito r**m, Henrique — nem pra pagar um whisky.” Ele cruzou os braços me encarando. Henrique: “Vocês que são folgados, vou ver o que faço mais tarde. Provavelmente vou desistir de comemorar e ir pra casa dormir. Ou pra casa da Ayla perturbar ela, agora que não tenho tanta responsabilidade na boca.” Dado: “A gente podia ir pra um bar qualquer né?” Escutei o Dado falar para Fogo e Rato. Henrique: “Vocês querem é arrumar desculpas pra beber né.” Eles riram e eu neguei. Henrique: “Vamos em um barzinho mais tarde, aqui mesmo — vou descer pra pista não.” Eles começaram a comemorar e eu rir da palhaçada. Rato: “Vou chamar a Flávia.” Eu revirei os olhos. Rato: “Minha mulher, pow.” Henrique: “Tu é o único de coleira e quer levar a coitada pra todo canto — um monte de homem e só ela de mulher.” Dado: “Posso chamar a Beatriz também.” Encarei o Dado. “A gente não tem nada sério mas ela adora a Flávia.” Henrique: “Pode ser então.” Dado: “Chama a Ayla.” Neguei. Dado: “Por que não? Tu fala tanto dessa garota e até hoje a gente nunca trocou um ‘oi’ com ela.” Henrique: “Nem vai trocar, Ayla odeia sair de casa e nunca na vida que ela vai frequentar um bar com vocês.” Os três me olharam feio. “E prefiro convencer ela de ir pro baile comigo na sexta do que ir em um bar hoje.” Rato: “Parece loucura — Ayla e baile na mesma frase.” Eles ficaram falando lá sobre mais tarde e eu apenas concordava, peguei meu celular e vi que tinha mensagem da minha amiga. Mensagem on Preta (Ayla): Saiu e nem me acordou né i****a. Preta (Ayla): Cheguei atrasada na dona Elisa. Henrique: Foi m*l, achei que você ia querer dormir mais um pouco. Henrique: Estava na reunião, sou oficialmente dono da CDD. Preta (Ayla): Parabéns feioso! Você sabe que não sou de acordo com isso mas não vou negar que você merece! Vai comemorar mais tarde? Henrique: Vou ir em um bar com os meninos, nem adianta eu te chamar por que sei que você não vai. Preta (Ayla): Ainda bem que você sabe, se você não voltar pra casa tarde e bêbado passa lá em casa para eu te dar um abraço. Henrique: Pode deixar, Preta — se cuida, te amo. Preta (Ayla): Cuidado, te amo. Mensagem off Desliguei o celular e encarei os patetas na minha frente. Henrique: “Bora fazer algo de útil pra vida né? Dado e Fogo vão cobrar o dinheiro pro cara da TV.” Dado: “Qual foi, Falcão? Segunda vez que eu falo com aquele filho da p**a e ele atrasa o pagamento.” Henrique: “Ele tá recebendo muito que os moradores pagam direitinho e o trato é certo — a gente recebe 50%. Se ele não quiser pagar, traz ele aqui pra ter uma conversinha comigo.” Dado: “Vou me estressar não, se ele não quiser pagar vou logo te acionar.” Concordei e o Dado saiu da sala sendo seguido pelo Fogo. Rato: “Eai, vida, só nos dois sozinhos vamos fazer o que?” Rato riu — e eu fechei a cara. Henrique: “Para com essa p***a, eu vou atrás do Jacaré falar com ele e tu faz o que quiser.” Rato: “Fui liberado? Vou atrás da minha mulher — fé pra você.” Henrique: “Fé.” Rato saiu e eu fiquei um tempinho na sala olhando algumas coisas. “Graças a Deus a favela vai bem e não está tendo invasões. O que é perfeito, já assumo na paz.” Peguei meu celular e coloquei na cintura saindo da boca, lembrei que tinha vindo de carona com o Rato então estou a pé. “Tenho duas opções: ir até em casa e pegar a moto ou ir andando até a casa do Jacaré. Prefiro buscar minha moto.”
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