AYLA
Finalmente sexta-feira. “Amo cuidar das crianças mas confesso que é cansativo, gosto do meu final de semana sossegada em casa com meus pais, vendo minha série, fazendo nada.”
Arrumei a roupa que as crianças vão usar para sair com a mãe mais tarde e botei elas para tomar banho. Enquanto as crianças viam desenho eu fiz um macarrão com salsicha para almoçarmos, lavei a louça toda e coloquei o almoço das crianças.
Maria: “Esse macarrão tá gostoso tia.”
Ela sorriu com a boca toda suja de molho de tomate.
João: “Tá mesmo tia Ca.”
Ele sorriu com o dente sujo de salsicha.
Ayla: “Que bom que gostaram.”
Continuamos almoçando e depois fui lavar a louça, quando terminei fui arrumar as crianças para sair.
Maria: “Tia a gente vai aonde?”
Ela perguntou enquanto eu penteava o cabelo dela.
Ayla: “Não sei meu amor, a mãe de vocês pediu para arrumar vocês que quando ela chegasse iam sair.”
Maria: “Quero ir pro shopping.”
João: “E eu quero ir pro cinema.”
Ele entrou no quarto e se sentou na cama.
Ayla: “A mãe de vocês não falou pra aonde iam.”
Terminei de arrumar o cabelo da Maria e passei perfume nela e no João, deixei as crianças vendo televisão na sala e fui trocar de roupa. Me sentei no sofá e fiquei vendo desenho com as crianças até a Elisa chegar.
Elisa: “Oi Ayla.”
Ayla: “Oi Elisa, as crianças já estão prontas assim como você pediu.”
Elisa: “Obrigada Ayla, vamos ao shopping — quer ir comigo?”
As crianças comemoraram e eu ri negando.
Ayla: “Quero não Elisa, muito obrigada — vou ir para casa descansar.”
Elisa: “Tá bom, imagino que deve estar cansada. Minhas bênçãos se comportaram??”
Ayla: “Sim, elas sempre se comportam.”
As crianças sorriram e a mãe deles me encarou rindo.
Elisa: “Vou só deixar a bolsa no quarto e estamos indo, já pode ir Ayla — muito obrigada.”
Ayla: “Até segunda Elisa, bom passeio amores.”
Maria e João (juntos): “Até!”
Sai da casa da Elisa e fui caminhando para a minha — fim de tarde e a favela está movimentada, crianças pra lá e para cá e pessoas indo e voltando do trabalho. Cheguei em casa e minha mãe estava na sala tomando café.
Mãe de Ayla: “Oi filha, chegou cedo.”
Ayla: “Dona Elisa vai levar as crianças para sair por isso cheguei cedo.”
Ela concordou e eu fui direto pro quarto, abri meu armário e peguei uma camisola bem de vó mesmo. “Vou ficar deitada o resto do dia todo.”
Entrei para o banheiro e tomei um banho quente, me enrolei na toalha e prendi meu cabelo em um coque, vesti minha camisola e sai do banheiro. Fui para cozinha e enchi um copo de água, escutei alguém entrando na cozinha e olhei para trás.
Henrique: “Oi preta.”
Ayla: “Oi, veio fazer o que aqui?”
Henrique: “Conversar com você.”
Arquei uma sombrancelha e o Henrique riu. “Me escuta e depois responde.”
Ayla: “Lá vem.”
Henrique: “Hoje é sexta-feira e tem baile de apresentação.”
Fiz cara confusa e ele negou. “Vai me apresentar para geral como dono da favela e eu quero que você vá.”
Gargalhei fazendo o Henrique fechar a cara.
Ayla: “Eu? Em baile? Nem pensar.”
Henrique: “Qual é Ayla, por favor.”
Ayla: “Não! Primeiro que eu estou cansada, segundo que eu vou ficar sozinha lá e terceira que eu nunca fui em baile e não vai ser hoje que eu vou.”
Henrique: “Ayla por favor, é meu baile de apresentação e um momento super importante pra mim — e vai ser melhor ainda se a minha melhor amiga estiver.”
Seus olhos verdes me encararam com atenção. “Por favor preta.”
Neguei e ele ficou falando vários motivos pra mim ir, parei de frente pra ele e cruzei os braços encarando ele séria.
Ayla: “Eu vou me arrepender tanto.”
Respirei fundo. “Eu vou mas eu juro que qualquer coisa que me irritar ou se você me deixar sozinha eu vou embora!”
Ele sorriu e veio na minha direção.
Henrique: “Obrigada, eu juro que não vai se arrepender e ainda vai se divertir pow.”
Deu um beijo na minha bochecha. “E essa camisola de vó?”
Ayla: “Vai se f***r garoto.”
Ele riu.
Ayla: “Meu plano era descansar e ver série.”
Henrique: “Vai dormir um pouco n**a, venho te buscar as 23 horas.”
Ayla: “Tá bom, vou tirar um cochilo.”
Henrique: “Vai lá.”
Henrique foi embora e eu fui pro meu quarto ainda pensando se era uma boa ideia ir para o baile. “Nunca fui e pretendia continuar assim, sou uma jovem com alma de velha e só queria ficar em casa.” Me joguei na cama e fiquei mexendo no celular até pegar no sono.
O celular despertou e eu peguei vendo que já era 22:00. “Me sentei na cama e fiquei uns 5 minutos pensando na vida, odeio acordar com sono.” Resolvi levantar de uma vez e ir tomar banho, entrei no chuveiro e tomei um banho gelado para acordar logo. “Aproveitei para fazer depilação e lavar meu cabelo, me enrolei na toalha e parei em frente ao espelho.”
Sequei meu cabelo com a escova-secadora e depois fiz chapinha para fazer uns cachos nas pontas, passei um óleo no final para dar um brilho pro cabelo. Sai do banheiro e fui em direção ao meu armário, abri e encarei minhas roupas. “Qual roupa eu deveria usar para ir em um baile? Eu nunca fui.” Peguei um vestido azul — tomara que caia — e vesti, olhei no espelho e como eu tinha gostado fiquei com ele mesmo.
Me sentei e fui fazer uma maquiagem básica: corretivo, pó, blush, rimel, iluminador e gloss. Peguei uma sandália preta e coloquei no pé, aproveitei para colocar alguns acessórios como relógio, anéis, brinco e cordão. Passei meu hidratante e o meu perfume antes de sair do quarto, minha mãe me encarou confusa assim que eu cheguei na sala e o meu pai sorriu quando me viu.
Mãe de Ayla: “Vai aonde?”
Ayla: “Pro baile.”
Minha mãe me olhou surpresa e meu pai só sabia rir.
Mãe de Ayla: “Você em baile?”
Ayla: “É o baile de apresentação do Henrique e ele insistiu muito pra mim ir.”
Mãe de Ayla: “Apresentação?”
Ayla: “Ele é o novo dono.”
Mãe de Ayla: “Que?”
Ela quase cuspiu a comida. “Que babado é esse que você não me contou?”
Ri.
Ayla: “Resumindo: Jacaré se aposentou, Henrique virou o novo dono e hoje é apresentação dele no baile.”
Mãe de Ayla: “Meu Deus, não estava sabendo disso — só o Henrique mesmo pra te tirar de casa.”
Ayla: “Pois é.”
Neguei com a cabeça. “Espero não me arrepender.”
Mãe de Ayla: “Vai nada, juízo hem!”
Ayla: “Pode deixar mãe, tchau.”
Mãe de Ayla: “Tchau, manda um beijo pro meu filho.”
Fiz cara feia.
Pai de Ayla: “Aproveita!”
Meu pai gritou antes de sair de casa e eu ri.
Quando estava chegando no portão uma moto parou em frente — e sorri vendo quem era. Henrique estava vestindo uma blusa preta de gola, um shorts preto da Nike e um boné da mesma marca, uma corentinha brilhando no seu pescoço — e eu não pude deixar de perceber a pistola marcando na cintura dele.
Ele sorriu de lado assim que me viu e me encarou de cima a baixo.
Henrique: “Tá bonita, nem parece a garota que estava vestindo uma camisola de vó.”
Ayla: “Se manca garoto.”-Rimos. “Tu também tá gatão.”
Henrique: “Obrigada vida, sobe aí!”
Ayla: “Tô de vestido.”
Henrique: “Sobe de lado ué.”-Encarei ele séria, depois a moto.
Ayla:“Eu vou voar daí.”