Elena O quarto que aluguei na rua do porto tinha paredes doentes de umidade e uma janela que não fechava direito. O cheiro de sal, diesel e ferrugem atravessava tudo — cortinas, lençóis finos, minha pele. Coloquei a mala no chão, sentei-me na beira da cama e tirei do bolso o terço queimado. As contas chamuscadas sujaram meus dedos como carvão. No outro bolso, a lâmina de costura: pequena, fiel, escolhida porque corta em silêncio. Deitei sem tirar o casaco. Dormi pouco — o tipo de sono que mais parece vigília com olhos fechados. A cada ruído no corredor, eu me ergui um palmo, a lâmina quente na mão. “Se ninguém me salvará, eu me salvo”, repeti até o corpo aprender a frase. Ao amanhecer, lavei o rosto numa pia caprichosa e tracei meu caminho. Primeiro, a garagem do Russo — o revelador de

