Elena O hospital tinha cheiro de antisséptico e véspera de desgraça. As luzes frias esticavam sombras longas pelo corredor, e cada bip do monitor do meu pai parecia um relógio de corda avisando que o tempo, mais cedo ou mais tarde, cobraria uma taxa c***l. Toquei a mão enfaixada dele — quente, teimosa — e sussurrei: — Estou aqui, papà. Não vou recuar. Amália havia mandado flores discretas; um cartão curto dizia apenas “resista”. Resistir. Palavra bonita para quem respira por tubos. Ainda assim, bastava. Quando saí do quarto 412, dois seguranças de Vincenzo me acompanharam. Conhecia-lhes o passo sem ter aprendido os nomes: um caminhava como soldado, o outro como homem que sempre procura saídas. Descemos para o térreo. O elevador demorou; escolhemos a escada. Foi então que senti: o ar mu

