Vincenzo A neve desta manhã parecia feita de cinzas. Caía em flocos pesados, lambuzando as ruas com um branco sujo, como se o céu tivesse decidido cobrir de luto cada esquina da cidade. Eu sentia a pressão latejando nas têmporas — aquela vibração na nuca que sempre antecede uma guerra. Marco havia trazido a informação na noite anterior: um traidor. Um dos nossos. E do outro lado, os Rinaldi, pacientes como abutres, esperando o primeiro descuido para arrancar o coração do meu clã. Na varanda do refúgio, Elena, com casaco e mãos nas mangas, observava o gelo, o vento bagunçando seus cabelos. Sua respiração contida me impedia de pensar claramente. — Está frio demais — falei, aproximando-me. — Venha para dentro. — O frio me acorda — retrucou, sem se virar. — Preciso estar desperta, não anes

