O esconderijo não parecia uma prisão.
E isso era o que mais assustava.
O lugar era silencioso demais, amplo demais, limpo demais. Guardas do lado de fora, tecnologia discreta, rotas de fuga que você não conhecia — tudo organizado para proteger alguém importante.
Alguém que agora era você.
— Isso não é minha casa — você disse, andando até a janela e observando a cidade à distância.
— É temporário — respondeu Claudio. — Até estabilizarmos a situação.
Você riu sem humor.
— Estabilizar? — virou-se para ele. — Meu nome voltou à tona depois de anos, tem gente me seguindo, outra tentando me usar… e você chama isso de instável?
Claudio ficou em silêncio. Sabia que qualquer resposta soaria pequena demais.
— Vittorio vazou informações — ele disse por fim. — Não todas. O suficiente para chamar atenção.
Como se confirmasse suas palavras, o celular dele vibrou. Claudio leu a mensagem e fechou os olhos por um segundo longo demais.
— Já começou — murmurou.
Você sentiu o estômago afundar.
— O quê começou?
Ele virou a tela para você.
Uma matéria curta. Um rumor disfarçado de curiosidade jornalística.
“Figura do passado ligada à família Feretti reaparece após anos desaparecida.”
Sem foto.
Sem confirmação.
Mas com perguntas demais.
— Ele quer me transformar em alvo — você disse, entendendo rápido demais.
— Ele quer me forçar a escolher — Claudio corrigiu. — O império… ou você.
— E qual você escolhe?
A pergunta saiu antes que você pudesse segurá-la.
O silêncio que veio depois foi c***l.
— Eu já escolhi uma vez — Claudio disse, a voz baixa. — E perdi você.
Aquilo doeu mais do que qualquer resposta direta.
Enquanto isso, Alsean observava o caos que ele mesmo tinha ajudado a acelerar.
Sentado em um carro estacionado longe demais do esconderijo, ele encarava a tela do tablet com os maxilares cerrados. As reações já começavam. Famílias antigas perguntando. Nomes esquecidos reaparecendo.
— Eu devia ter pensado melhor — murmurou.
Mas agora era tarde.
Quando o telefone tocou, ele atendeu sem hesitar.
— Você está brincando de guerra, garoto — disse a voz de Vittorio do outro lado. — E guerras não poupam herdeiros.
— Fique longe dela — Alsean respondeu, frio. — Essa é a última chance.
Vittorio riu.
— Ela não é o alvo final. — A voz suavizou. — Você é. E seu pai também.
A ligação caiu.
No esconderijo, você começou a sentir os efeitos reais de lembrar.
Não como imagens claras — mas como sensações.
O medo irracional de portas batendo.
O impulso de contar passos.
A necessidade constante de saber onde estavam as saídas.
— Isso tudo… — você disse, passando a mão pelo braço. — Eu aprendi quando criança, não aprendi?
Claudio assentiu.
— Eles te treinaram para sobreviver. Não para viver.
Você o encarou, lágrimas contidas nos olhos.
— Então não me peça calma. Não me peça confiança. — respirou fundo. — Me diga a verdade inteira.
Ele hesitou. Depois falou:
— Vittorio planeja te expor completamente. Nome, rosto, ligação comigo. Quando isso acontecer, antigos inimigos vão te ver como moeda.
— E o que você vai fazer? — você perguntou.
Claudio se levantou.
— Vou derrubar tudo antes que ele consiga.
— Tudo o quê?
Ele encarou você como nunca antes.
— Meu próprio império.
O peso da frase caiu entre vocês.
Você entendeu naquele instante: a p******o que ele oferecia vinha com um preço gigantesco — e talvez irreversível.
Do outro lado da cidade, Vittorio observava o noticiário silenciosamente.
— Corre — murmurou. — Quanto mais ele corre… mais rápido cai.
A guerra não estava mais nas sombras.
Ela estava começando à luz do dia.