Você não pediu permissão.
Essa foi a primeira coisa que Claudio percebeu ao entrar na sala de reuniões e encontrar você sentada à mesa principal, não atrás, não ao lado — à frente.
Os homens pararam de falar quando ele entrou. Alguns desviaram o olhar. Outros franziram o cenho, desconfortáveis. Aquela não era uma mesa para alguém como você… e justamente por isso funcionava.
— O que é isso? — Claudio perguntou, contido.
— É o fim de um jogo antigo — você respondeu. — Ou o começo de algo que não precise de sangue para continuar existindo.
Alsean observava em silêncio, os braços cruzados. Pela primeira vez, não estava em posição de ataque. Estava… avaliando você.
— Vittorio não quer vencer pela força — você continuou. — Ele quer que vocês se destruam sozinhos. Pai contra filho. Nome contra legado.
— Isso não é uma negociação — Claudio rebateu. — É uma guerra.
— Guerras também terminam em mesas como esta — você respondeu. — Só que geralmente tarde demais.
Você espalhou alguns documentos sobre a mesa.
— Esses são os contatos que Vittorio usa para se manter intocável. Bancos, intermediários, nomes que não aparecem em público. — respirou fundo. — Ele acredita que eu sou apenas o ponto fraco. Então vamos usar isso.
Alsean ergueu as sobrancelhas.
— Você quer se expor de novo.
— Não — você disse. — Quero falar.
O plano era simples. E perigoso.
Você seria a ponte.
Não como herdeira.
Não como vítima.
Mas como testemunha viva do que Vittorio tentou apagar.
— Ele vai aceitar te encontrar — Alsean disse. — Por ego.
— Exatamente — você concordou.
Claudio fechou os olhos por um instante.
— Se algo acontecer com você…
— Já aconteceu — você respondeu. — Agora é a minha vez de decidir o que isso significa.
Horas depois, pai e filho ficaram sozinhos.
— Você passou por cima de mim — Claudio disse, a voz dura.
— Porque você não estava mais vendo — Alsean respondeu. — Você só via culpa.
— Tudo o que fiz foi para proteger o que restou da família.
— Não — Alsean rebateu. — Foi para se proteger da ideia de ter falhado.
O confronto ficou ali, cru, sem gritos.
— Ela é mais forte do que nós dois — Alsean continuou. — E você sabe disso.
Claudio não respondeu.
Porque sabia.
O encontro com Vittorio aconteceu em um lugar neutro. Elegante demais para parecer perigoso. Silencioso demais para ser seguro.
Ele sorriu ao ver você entrar.
— Clara Feretti — disse, saboreando o nome. — Você finalmente escolheu o palco certo.
— Eu não vim como Feretti — você respondeu. — Vim como sobrevivente.
O sorriso dele vacilou por um segundo.
— Você quer paz? — ele perguntou.
— Quero fim — você respondeu. — Da mentira. Do jogo. Do controle que você acha que ainda tem.
— Você não tem poder nenhum.
Você inclinou a cabeça, calma.
— Tenho algo melhor. — olhou direto para ele. — A verdade. E a atenção do mundo.
O silêncio ficou pesado.
Vittorio entendeu naquele instante: não era mais sobre Claudio.
Era sobre você.
E isso tornava tudo imprevisível.
Do lado de fora, Claudio e Alsean aguardavam.
— Seja qual for o resultado — Alsean disse — nada volta a ser como antes.
Claudio assentiu.
— Talvez seja isso que precise acontecer.
Lá dentro, você respirou fundo.
O último movimento estava em curso.
E o desfecho… já podia ser sentido no ar.